Evaldo Cabral de Mello
Folha de S. Paulo
Parece plausível que o mito de Veneza tenha
aportado entre nós graças aos colonos florentinos fixados em Pernambuco
desde meados do século 16
A favor da tese de que o republicanismo dos
Países Baixos não fez grande impressão entre seus ex-colonos do Nordeste
pode-se invocar o fato de que, quando se propuser, ao tempo da Guerra
dos Mascates (1710-1711), o estabelecimento de uma república, o modelo
que se tinha em vista era o veneziano.
Os historiadores nunca disfarçaram sua
estranheza diante do fato. Afinal de contas, por que Veneza, quando se
tinha a experiência ainda fresca de outro figurino republicano, o
holandês, a quem, desde a obra de Southey, se tendia a atribuir a
precoce inclinação pernambucana pelo republicanismo? Na realidade, o
projeto natimorto de 1710 oferece certo interesse em termos da história
das idéias políticas, por constituir a única encarnação conhecida na
América portuguesa do que se designou por "mito de Veneza".
E digo única encarnação porque nossas
inconfidências de fins de Setecentos, assim como a revolução de 1817, já
tiveram lugar sob o signo da Revolução Francesa e da Constituição
americana. No pensamento político dos séculos 16 e 17, o regime
veneziano constituiu o paradigma republicano por excelência, suplantando
inclusive o precedente, mais ilustre, da Antiguidade clássica, que era o
de Roma entre a abolição da monarquia e o principado de Augusto, o qual,
aliás, merecera a preferência de Maquiavel, que nos "Discursos sobre as
Décadas de Tito Lívio" o considerara superior ao sistema institucional
vigente na cidade de são Marcos.
O mito de Veneza influenciou até mesmo a
Holanda do Século de Ouro, a Inglaterra de Cromwell e, por meio dela, os
"pais fundadores" dos Estados Unidos, consoante a genealogia doutrinária
reconstruída por J.G.A. Pocock em obra fundamental de história da
linguagem política, intitulada "O Momento Maquiaveliano - O Pensamento
Político Florentino e a Tradição Republicana do Atlântico", publicado há
um quarto de século.
Movimento oligárquico
Em que consistia esse mito de Veneza, que
vemos aflorar nas veleidades republicanas de um rico colono pernambucano
da virada de Seiscentos para Setecentos? Desde 1297, a Sereníssima, como
ela virá a ser designada em homenagem à sua solidez política, era
governada por um sistema composto de amplo órgão representativo, o
Conselho Grande, a quem cabia eleger os ocupantes dos principais cargos
da República; de um corpo ilimitado, o Senado, a quem competiam as
decisões em matéria financeira e de política externa; e do chefe do
Estado, o doge, assessorado por seu conselho.
O movimento oligárquico que produzira a
Constituição de 1297 coroara sua obra mediante o fechamento do corpo
eleitoral, que ficara definitivamente limitado aos membros das famílias
que já o formavam àquela data. Por detestável que semelhante limitação
pareça hoje à nossa sensibilidade democrática, tal regime deu a Veneza
seis séculos de estabilidade política, o triplo do tempo que já vem
durando a Constituição dos Estados Unidos, que representa para nossos
contemporâneos o grande exemplo de continuidade institucional.
Assim como esta última influenciará
decisivamente os republicanos de 1817 e de 1824, a Constituição
veneziana inspirou o projeto republicano de 1710. Não seria crível,
porém, que alguns colonos estivessem a par do sistema veneziano se uma
prestigiosa corrente do pensamento político europeu não se houvesse
encarregado de mitificá-lo, ao menos a partir de finais do século 14,
quando Vergerio escreveu seu "Fragmentos sobre a República de Veneza",
em que explicava a superioridade de suas instituições pela combinação de
monarquia, aristocracia e democracia, representadas respectivamente pelo
doge, pelo Senado e pelo Grande Conselho. Escusado aduzir que o
republicanismo italiano do Renascimento continuava dominado pela teoria
política de Aristóteles e pela elaboração que lhe dera Políbio,
historiador grego do século 2º a.C. Aristóteles, como se sabe,
distinguira três formas puras de governo, o governo de um, o governo de
poucos e o governo de muitos, descrevendo igualmente suas formas
degenerativas, a monarquia que se estiola em tirania, a aristocracia, em
oligarquia, a democracia, em anarquia.
A novidade de Políbio consistiu em acoplar
à teoria aristotélica uma concepção cíclica, mediante a qual a monarquia
degenerada em tirania seria necessariamente substituída por uma
aristocracia, a qual, degenerada por sua vez em oligarquia, deveria
sucumbir a uma democracia, que, por último, degenerada em anarquia, se
veria suplantada pela monarquia, com o que o ciclo político começaria de
novo. Embora nem mesmo Savonarola escapasse à atração do regime
veneziano, sua idealização fora sobretudo a obra de florentinos ligados
ao círculo dos "ottimati", isto é, das antigas famílias de origem
mercantil que se haviam decantado em oligarquia. Os "ottimati", cujos
doutrinários se reuniam nas tertúlias do Orti Oricellari, buscavam
desesperadamente desde o século 15 estabelecer sua hegemonia política na
cidade mediante uma via média entre a monarquia dissimulada dos Medici e
as repúblicas demasiado democráticas que para seu desgosto haviam
sucedido efemeramente a queda da célebre dinastia tanto em 1494 quanto
em 1527.
Nos meados de Seiscentos, a publicação das
obras de Gianotti e de Contarini e, posteriormente, as de Sarpi, Paruta
e Boccalini, havia vulgarizado na Europa a noção de superioridade das
instituições venezianas, noção a que havia, porém, permanecido
impermeável a teorização política portuguesa, se bem que d. Francisco
Manuel de Melo incluísse Boccalini com Justo Lípsio e Quevedo como os
interlocutores do seu diálogo intitulado "Hospital das Letras" (1657).
Parece plausível que o mito de Veneza tenha aportado entre nós graças
aos colonos florentinos fixados em Pernambuco desde meados do século 16.
O mais ilustre deles fora, como se sabe, Felipe Cavalcanti, cujos
parentes se haviam estabelecido em Londres e Antuérpia, envolvendo-se
também no comércio de açúcar.
Certo mercador italiano escrevia de Lisboa
que, no Brasil, Felipe tornara-se indivíduo de "vastíssimos cabedais",
de "grande autoridade, quase sobranceiro a todos, até ao próprio
governador", desfrutando de "grande estado, com muitos pajens e cavalos,
gastando cada ano em sua casa mais de 5.000 escudos", pois "seus
negócios são engenhos de açúcar". Felipe abandonara Florença, primeiro
por Portugal, depois pelo Brasil, devido a seu envolvimento na conjura
de Pandolfo Pucci contra os Medici, versão que permanecerá na tradição
dos seus descendentes. Como indicou Sérgio Buarque de Holanda, o complô
em apreço é posterior à chegada de Felipe a Pernambuco. O que não impede
que ele se tenha metido em conspiração anterior, pois essas não faltavam
no ambiente trepidante da Florença renascentista com sua viva tradição
republicana de oposição aos Medici.
Relações de clientelismo
Famílias oligárquicas, os Cavalcanti, como
seus parentes Maneli e Acióli (portuguesismo para Acciaiuoli), cujos
rebentos também se domiciliaram em Pernambuco, tinham uma longa crônica
de ativismo político, como sabe o leitor das "Histórias Florentinas", de
Maquiavel. No século 15, um Cavalcanti, Giovanni, descrevera o regime de
Florença em termos de um processo de degeneração das instituições
republicanas, o qual consistiria na substituição do sistema de relações
políticas entre os cidadãos, único capaz de garantir seu funcionamento
virtuoso, por relações privadas de clientelismo e dependência, que
levavam inevitavelmente ao despotismo. Não fora outra a técnica de
Cosmo, o velho, ou do primeiro Lourenço para se manter no poder, que não
exerciam diretamente, mas manipulavam por meio de aliados e de
testas-de-ferro, colocados nas posições-chave.
Escusado aduzir que o problema do ottimati
era o mesmo, "mutatis mutandis", com que se defrontará a oligarquia
municipal de Olinda no período que precedeu a Guerra dos Mascates, o de
impor seu domínio da capitania contra a coroa portuguesa e contra os
mercadores do Recife. É natural que o regime veneziano lhe parecesse
atraente ao se basear, como assinalado, no fechamento do corpo eleitoral
da República. Ora, fora exatamente isso que se lograra fazer em
Pernambuco ao longo da segunda metade de Seiscentos, com vista a barrar
as pretensões dos reinóis recém-chegados em favor dos naturais da
Capitania, veteranos da guerra holandesa e de seus descendentes,
assimilados a uma nobreza da terra.
A extensa representação por ela enviada a
El Rei em 1704 requeria a confirmação dessa exclusão definitiva que
vinha sendo contestada pelos homens de negócios com o apoio das
autoridades da coroa e a continuação da prática secular segundo a qual
só podiam votar nas eleições municipais o povo "de dentro da cidade [de
Olinda" com os homens da governação [isto é, da oligarquia municipal" de
fora dela", domiciliados nos seus engenhos. É revelador que as fontes
ligadas aos portugueses, assim eliminados da representação política,
tenham privilegiado o papel dos Cavalcanti na sedição de 1710. Uma
dessas fontes os chama de "principais cabeças e origens de tudo o que se
tem visto em Pernambuco".
Outra relação, igualmente anônima e
pertencente à coleção Pedro Corrêa do Lago, é mais explícita. A vocação
turbulenta da família parecia-lhe uma espécie de herança política, pois,
havendo o fundador da linhagem no Brasil sido expulso de Florença pelo
grão-duque, contaminara a colônia com os germes da "cizânia perniciosa"
mediante o casamento com linhagens de extração lusitana, proliferando
com a "multiplicação de enxertos, nos quais dura o apelido com os
costumes".
"Plantas cortadas"
Dessa maneira, os vários ramos dos
Cavalcanti se haviam constituído em focos de instabilidade
institucional, de maneira que não havia governador ou outra autoridade
régia "a quem semelhantes homens ou não custassem cuidados ou não
fizessem oposições, porque o pouco sangue que ainda lhes resta de seus
indignos avós lhes influi naturais desvanecimentos, com que, sem olharem
para a razão, se inclinam para as solturas". Daí a sugestão do mesmo
autor no sentido de que El Rei não admitisse em seus domínios "estas
plantas cortadas de outros reinos, porque os ramos nunca são leais se
foram infiéis os troncos".
Que a república veneziana tenha surgido aos
olhos de alguns dos pró-homens de 1710 como a fórmula ideal para
assentar seu domínio da terra, confirma a suposição de que seu projeto
político se limitava a Pernambuco e, eventualmente, às Capitanias que
haviam constituído o Brasil holandês. Até a independência dos Estados
Unidos, o regime republicano era universalmente tido como apropriado
tão-somente aos pequenos Estados, como a mesma Veneza, Gênova, os Países
Baixos, de vez que os Estados de maior extensão territorial só eram
passíveis de serem governados monarquicamente, como sustentariam, à
época da Revolução Francesa, os partidários de uma realeza
constitucional à moda da Inglaterra. Ninguém alimentaria assim a
veleidade de formar uma República numa região das dimensões da América
portuguesa.
E, com efeito, o projeto de Pedro de Rates
Henequim nos anos 30 do século 18, objeto de livro esclarecedor
recentemente publicado por Adriana Romeiro, previa a independência
brasileira sob forma monárquica, no caso mediante a aclamação, como rei
do Brasil, do infante d. Manuel, irmão de d. João 5º. O interesse do
plano Henequim reside precisamente em que ele representa o elo entre a
visão do sebastianismo seiscentista, de um lado, e, de outro, a
concepção eminentemente prática de d. Luís da Cunha e do duque de Silva
Tarouca, que inspirava seus programas de construção de um grande império
no Brasil.
Se o sebastianismo de Seiscentos fora
universalista, de vez que Portugal estava fadado a realizar o Quinto
Império da profecia de Daniel, Henequim, pelo contrário, limitou essas
ambições megalomaníacas, crescentemente incompatíveis com a atmosfera
mental do século, localizando-as no Brasil. Adolescente, Silva Tarouca
fugira do reino na companhia do infante d. Manuel, em cuja companhia
passou à Holanda, onde seu pai era colega de d. Luís da Cunha na
delegação portuguesa ao Congresso de Utrecht. Curiosamente, será d.
Manuel que Henequim procurará, como vimos, atrair para seu projeto de
monarquia brasileira.
Evaldo Cabral de Mello é historiador, autor
de, entre outros, "O Negócio do Brasil - Portugal, os Países Baixos e o
Nordeste" (Topbooks). Escreve mensalmente na seção "Brasil 502 d.C.".
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