ROMA - As notas
de rodapé da história italiana contam que Giovanni Ravalli combatia criminosos. Ele era
o chefe de polícia que preservava a segurança das ruas e perseguia quadrilhas como a que
furtou o quadro A Natividade, de Caravaggio, de uma igreja de Palermo, em 1969.
Conselheiro do primeiro-ministro, homem do establishment, Ravalli aposentou-se com uma
pensão generosa e foi para sua casa na Via Cristoforo Colombo n.º 179, no sul de Roma,
cuidar de suas plantas e apreciar a paisagem. Morreu em 30 de abril de 1998, aos 89 anos
de idade.
Mas as notas de rodapé não contam que um policial grego chamado Isaac
Sinanoglu foi torturado até a morte, por vários dias, em 1941. Seus dentes foram
arrancados com alicate Ele foi arrastado preso à cauda de um cavalo a galope. As notas
tampouco citam estupros e a ordem para despejar óleo fervente em 70 prisioneiros.
Depois da guerra, Ravalli, tenente na Divisão Pinerolo do Exército
italiano, foi capturado pelos gregos e condenado à morte por esses crimes. O governo
italiano salvou-o ameaçando reter indenizações de guerra se ele não fosse solto.
Ravalli voltou para casa e fez uma carreira meteórica que foi questionada só uma vez: em
1992, um historiador americano, Michael Palumbo, denunciou em livro suas atrocidades, mas
Ravalli, apoiado por amigos influentes, ameaçou abrir processo e a obra nunca foi
publicada.
Os segredos de Ravalli continuaram bem guardados, a exemplo dos segredos
da Itália. Um ludíbrio audacioso fez com que o país se esquivasse da culpa por enormes
atrocidades cometidas antes e durante a 2.ª Guerra e protegesse os responsáveis, alguns
dos quais quase certamente ainda vivem. Dos mais de 1.200 italianos procurados por crimes
de guerra na África e nos Bálcãs, nenhum prestou contas à Justiça. Teias de
desmentidos do governo, do mundo acadêmico e da mídia reinventaram a Itália, tornando-a
vítima, induzindo o resto do mundo a aclamar o Bom Italiano bem antes de o capitão
Corelli arranhar um bandolim.
Na verdade, soldados de Benito Mussolini que invadiam países mataram
muitos milhares de civis, bombardearam a Cruz Vermelha, lançaram gás venenoso, deixaram
bebês morrer à míngua em campos de concentração e tentaram aniquilar culturas
consideradas inferiores. "Houve pouca prestação de contas pelos crimes dos
fascistas, se comparada à preocupação dos franceses com (o governo de) Vichy ou mesmo o
reconhecimento dos japoneses de suas responsabilidades durante e antes da guerra",
diz James Walston, historiador na Universidade Americana de Roma.
A camuflagem dura até hoje, mas sua gênese começa a desvendar-se.
Filippo Focardi, historiador no Instituto Histórico Alemão, em Roma, encontrou
documentos do Ministério do Exterior e telegramas diplomáticos mostrando como a trama de
mentiras foi montada. Em 1946, a nova república, legitimada por antifascistas que haviam
combatido com os aliados contra Mussolini, prometeu extraditar suspeitos de crimes de
guerra. Houve uma comissão de inquérito, denúncias, listas de nomes, mandados de
prisão. Foi um dilema.
Extradições irritariam eleitores que ainda reverenciavam os militares e
desgastariam esforços para apresentar a Itália como vítima do fascismo. A pesquisa de
Focardi mostra que servidores públicos eram orientados a falsear a busca de justiça. Uma
instrução típica, que partiu do primeiro-ministro Alcide De Gasperi em 19 de janeiro de
1948, dizia: "Tente ganhar tempo, evite responder a perguntas."
Iugoslávia, Grécia, Albânia, Etiópia e Líbia protestaram em vão.
"Foram manobras bem elaboradas. Eles não tinham nenhuma intenção de entregar
ninguém", diz Focardi. Alemães suspeitos de matar italianos não eram perseguidos,
para que um "efeito bumerangue" não ameaçasse italianos procurados no
exterior. Suas fichas apareceram décadas depois num armário do Ministério da Justiça,
em Roma.
A Inglaterra e os EUA, temendo fortalecer os comunistas na Itália e
Iugoslávia, colaboraram no despistamento. "A Justiça manda que essa gente seja
entregue, mas lamento dizer que o espírito prático seja contrário a ela", escreveu
um alto funcionário do Ministério do Exterior britânico. A trama conseguiu baldar a
investigação de crimes de guerra a cargo das Nações Unidas. Não houve Nuremberg para
criminosos italianos.
Diante das provas contra eles, a trama foi uma das maiores escapadas.
Aviões do general Pietro Badoglio lançaram bombas de 280 quilos de gás mostarda sobre
aldeias da Etiópia e bombardearam acampamentos da Cruz Vermelha.
Badoglio morreu de velhice no leito, foi enterrado com todas as honras
militares e teve sua cidade natal rebatizada com o nome dele. O general Rudolfo Graziani,
conhecido como "açougueiro da Líbia", massacrou comunidades inteiras; seus
crimes incluíram a infamante agressão a velhos e idosos em Adis-Abeba, na Etiópia. Seus
homens posaram para fotografias segurando cabeças decepadas. O general Mario Roatta, que
seus homens chamavam de "fera negra", matou dezenas de milhares de civis
iugoslavos em atos de represália e arrebanhou outros milhares para morrerem em campos de
concentração que não tinham água, alimentos e remédios. Um de seus soldados escreveu
para a família em 1.º de julho de 1942: "Destruímos tudo, de alto a baixo, sem
poupar os inocentes. Espancando ou matamos famílias inteiras toda noite."
As atrocidades da Itália não se igualam às da Alemanha ou do Japão, em
envergadura e selvageria, e não é invenção o fato de soldados italianos terem salvado
judeus e às vezes se confraternizado com civis. Lampejos de humanidade em meio à treva.
Mas, com o passar do tempo, os italianos derramaram sobre as lembranças históricas uma
luz que cega.
A distorção pode caber em parte aos preconceitos dos britânicos de que
soldados italianos eram moles e essencialmente inofensivos, diz Nic Fields, historiador
militar na Universidade de Edimburgo, Escócia: "Muitos historiadores britânicos
gostavam de se preocupar com os artigos de luxo encontrados em quartéis italianos. Aquilo
reforçou a impressão de que eram personagens de ópera-bufa. (O Estado de São Paulo)