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Copacabana é testemunha da decadência do capo

02/07/2001

 

 

MARCO ANTÔNIO MARTINS

   Nos anos 30, a família mafiosa Caruana comprava e vendia haxixe por toda Itália. Duas décadas depois escolheram Beppe, como é conhecido entre os italianos - em Copacabana passou a ser chamado de Peppe - para expandir os ''negócios'' de cocaína a três nações americanas. Da cidade de Siculiana, localizada na costa meridional da Sicília, Giuseppe foi aos Estados Unidos, onde em Nova York fez uma aliança com a famiglia Gambino. Os acordos seguintes foram em Montreal, e em Caracas.

   Após trazer a máfia para as Américas, Giuseppe Caruana escolheu o Rio para descansar. E conseguiu. Foi morar de frente para a praia, no edifício Maria José, Avenida Atlântica. Logo na entrada do prédio, um brasão da família Raggio, de Gênova, norte da Itália. Os Raggio deixaram o país no século XIX durante a unificação italiana e foram fazer fortuna na Filadélfia, no Leste americano. Diferentemente dos conterrâneos, Caruana veio ao Brasil administrar a riqueza obtida com a expansão da Cosa Nostra, além de cuidar da educação dos filhos.

   Caminhadas - Em mais de 30 anos manteve uma vida tranqüila. Lucrou com a compra e venda de imóveis em diferentes endereços de Copacabana: Avenida Atlântica, Nossa Senhora de Copacabana, e ruas Barata Ribeiro e Francisco Otaviano. Caruana, apontado pela Interpol e pela Justiça italiana como um dos chefes da máfia sempre teve uma rotina sem sobressaltos: todas as manhãs descia ao calçadão para caminhar logo após receber a visita de um massagista.

   Com cerca de 1,70 de altura, Peppe cultivava a vaidade. Tentava esconder os efeitos do tempo tingindo os cabelos de preto. Em 1985, trocou o primeiro andar do prédio pela cobertura, no 12° andar. Para os vizinhos é apenas um ''velhinho simpático''. ''Nunca soube com o que o senhor Giuseppe trabalhava, mas sempre foi um ótimo vizinho'', diz uma moradora. ''Acho que ele é aposentado. Apesar de não falar muito, sempre teve bom humor'', revela outro.

   Essa alegria tem explicação. Segundo dados da Secretaria Nacional Anti-drogas (Senad), Peppe movimentou fora do Brasil uma conta de US$ 2,5 milhões. Os negócios imobiliários eram muitos. Giuseppe Caruana chegou a ter uma loja num shopping, na Avenida Atlântica, onde hoje funciona o Hotel Sofitel. Em 1986, o velho Caruana doou esse imóvel ao filho, um cardiologista respeitado da Zona Sul do Rio e que não possui qualquer acusação na Justiça brasileira ou italiana. O susto aconteceu um ano antes, quando foi traído, juntamente com toda a cúpula da Cosa Nostra.

   Traição - A prisão de Tomaso Buscetta, no Brasil, tido dentro da organização como Uome donore (homem de honra), caiu como uma bomba entre os chefes da máfia. O criminoso quebrava uma das regras principais da organização: a Omertà, o código de silêncio que os mafiosos se impõem. No primeiro encontro com os juízes italianos, Buscetta se confundiu com uma foto antiga de Giuseppe e disse que o siciliano havia morrido. Num segundo momento, quando já era protegido pela Justiça italiana, revelou o poder do morador de Copacabana dentro da Cosa Nostra. Buscetta morreu em janeiro de 2000 vítima de câncer. Apesar dessas revelações, nunca houve um pedido de extradição.

   ''A solicitação para ele ser extraditado nunca chegou. Ele foi incumbido pela máfia decriar pontos na Venezuela e Canadá. Se estabeleceu por aqui e nada se apurou'', conta o juiz Walter Maierovitch, ex-secretário nacional Anti-drogas e presidente do Instituto Giovanni Falconi, em São Paulo. A condenação, em 98, por associação mafiosa - o primeiro caso na Justiça italiana por abrir filiais da máfia pelo mundo e lavar dinheiro - não atrapalhou a vida de Giuseppe.

   Manteve a rotina, mas tomou alguns cuidados. O primeiro foi retirar o nome da lista telefônica. Outra decisão foi desistir das viagens à Europa, o que facilitaria sua prisão. No ano seguinte, a Agência Brasileira de Informações (Abin) começou a seguir seus passos, não comprovando qualquer atividade criminosa de Peppe no Brasil.

   Especialização - A idade avançada afastou dos negócios o velho Caruana. Segundo a Justiça italiana, a famiglia foi responsável pelo transporte de 11 toneladas de cocaína, dentro de um contêiner repleto de doces, que saiu do Porto de Santos e foi apreendido em Gênova, no início dos anos 90. Tanto a Justiça italiana quanto a Polícia Federal brasileira não têm dúvidas de que, no século 20, os Caruana, junto com a família Cuntrera, montaram uma joint venture com cartéis colombianos e se especializaram em traficar coca para a Europa em navios ou aviões. Também cuidaram da lavagem do dinheiro ganho por eles ou por outras organizações criminosas.

   O descanso de Giuseppe no Rio pôs à frente dos negócios o sobrinho Alfonso, de 53 anos, atualmente cumprindo pena de 18 anos de prisão na Itália. Os principais homens da Cosa Nostra estão presos no Canadá e na Europa.

   Meses após a condenação na Itália, ele sofreu um derrame que interrompeu suas caminhadas. Passa os dias em casa na companhia da mulher, Carmela, de uma empregada e uma enfermeira. O filho, Pasquale, vai visitá-lo diariamente. Como a saúde de Giuseppe inspira cuidados, a filha Antonina veio ao Rio e está hospedada no apartamento dos Caruana, mas evita sair de casa.

   O velho Caruana vive com uma sonda e dificilmente fala. A família afirma que Peppe nunca comentou com os filhos sua participação na máfia. Ao contrário dos parentes, na Itália, deixou os herdeiros fora dos negócios. ''Nunca soube por que papai veio para cá. Acho que o mundo estava ficando pequeno'', disse a filha numa conversa rápida semana passada. A doença livrou Peppe da cadeia, mas lhe impôs uma prisão domiciliar. (Jornal do Brasil)

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