PARIS - Não é só de Veneza que vive o turismo artístico parisiense. A Itália
inteira está em cartaz em dois dos principais centros expositivos da cidade. No Grand
Palais, ela é o país dos pintores europeus repórteres do começo do século 19 que
retraçam o nascimento da paisagem ao ar livre (Paisagens da Itália, os Pintores do Ar
Livre (1780-1830), até 9 de julho. E no Museu d'Orsay, está representada pela arte
transalpina do fim do mesmo século num turbilhão de telas e bronzes de lirismo
exorbitante (Itálias, a Arte Italiana diante da Modernidade(1880-1910), D'Annunzio e
Carlo Bugatti, até 15 de julho).
As 200 obras de 80 artistas franceses, italianos, alemães, ingleses e
dinamarqueses da exposição nas Galerias Nacionais do Grand Palais não foram escolhidas
por um francês e muito menos por um conservador de museu. A curadora-geral, Anna Ottani
Cavina, é uma universitária bolonhesa. Isso explica, talvez, porque a mostra foge das
monografias tão queridas aos conservadores franceses e tão tediosas para o espectador.
Ali, descobrimos aliviados que a história da arte pode escapar dos
métodos biográficos e que a pintura dispõe de robustez suficiente para falar sozinha
dos seus assuntos e lugares. Mesmo quando ela trata apenas de paisagens destituídas dos
temas religiosos, históricos e mitológicos que eram comuns antes do século 19.
Foi na Itália que essa pintura "sur le motif" começou a
florescer.
Vênus da Europa, aquele país era visitado tradicionalmente pelos
artistas que queriam aperfeiçoar-se estudando "in situ" os monumentos e as
ruínas antigas ou as obras-primas do renascimento.
E não apenas eles. A península era também o lugar preferido dos
aristocratas colecionadores, de sábios arqueólogos, padres epigrafistas e antiquários.
Tanto quanto os ingleses, dinamarqueses e alemães, os pensionistas da
Academia da França e seus compatriotas, que viajavam com seus próprios meios, também
encontravam ali amantes e esposas italianas.
Não eram raros os que se aventuravam pelos campos deixando de lado os
ateliês e a cidade para pintar ao ar livre. Fascinados pela natureza italiana, inventavam
uma pintura "portátil" em pequenos formatos, a óleo ou aquarela. Seguiam os
itinerários recomendados pelos guias da época e paravam de preferência nos locais
celebrados pelos famosos escritores viajantes ou pelos tratados sobre a arte da paisagem.
Na verdade, não existia apenas a fascinação pelo "Grande
Giro", como era chamado esse itinerário obrigatório a toda pessoa em contato com a
arte e o saber. Os artistas sabiam que estavam criando igualmente um gosto e um
"desejo de Itália", fundados no exotismo e no calor que eram especialmente
cativantes para os que viviam em Berlim, Londres ou Copenhague.
Categorias - A exposição deixa claro que entre esses pintores se
distinguiam duas categorias: os que, como David, foram a Roma para reconstituir a pintura
histórica e realimentar o seu neoclassicismo nos lugares onde viveram os grandes
personagens míticos. E os que inham ver de perto aquilo que o público queria contemplar
na tela: não uma paisagem copiada de estampas ou fantasista, mas exata. Com os pormenores
de uma topografia precisa, onde até mesmo a luz mediterrânea e as ruínas os
transportassem àquela realidade que não era a sua.
Esses artistas variavam os assuntos à medida infinita que seu olhar
encontrasse novidades. Veneza e Florença, conhecidas e representadas demais, não os
interessavam. Em Roma, sim, eles visitavam e pintavam tudo: o Coliseu, o Fórum, as
basílicas, os templos, as margens do Tibre. Dali, eles partiam para o Lago Nemi e
reproduziam seus efeitos luminosos e suas águas escuras. Em Nápoles, eles se enfiavam
nas grutas, iam até o Vesúvio para pintar as lavas que restavam e alugavam barcos para
Capri. Adoravam as falésias, as rochas e os troncos retorcidos. Ou, ainda, as ruelas e os
telhados.
Entre essas 200 obras a verossimilhança é tamanha, que fica difícil
separar o estilo de cada artista. Mesmo a fotografia possui características singulares de
acordo com a particularidade de cada "olho". Na mostra, todavia, tudo parece
feito pela mesma pessoa. O que os diferencia talvez seja apenas a maior e a menor minúcia
e exaustão com as quais realizavam seus esboços, desenhos e pinturas.
Os mais apressados são os melhores e os mais agudos. Eles também são os
mais vivos e vão direto ao essencial: resumem uma montanha num traço marrom, representam
o céu por uma etérea veladura azul e as nuvens são apenas um retorcido de branco
esfregado. E são também os mais célebres: os ingleses Jones, Bonington, Cole e Turner;
o alemão Blechen e os franceses Valenciennes, Denis e Corot.
Estes procuram, antes de tudo, exprimir a emoção que sentem e se
abandonam bastante ao charme das cores. Porém, minuciosos e apressados, todos sem
exceção, de forma mais ou menos explícita, renunciam aos princípios acadêmicos da
"paisagem composta" ou da "paisagem heróica". Há um novo e
generalizado interesse pelos efeitos da luz, do espaço aberto e de inusitados
enquadramentos.
É surpreendente como algumas obras, que seus autores consideravam às
vezes como simples estudos, se revelam mais "modernas", inventivas, ricas e
prospectivas, do que os grandes quadros "oficiais" que eles realizavam em
ateliê. Compreende-se, então, porque esses 50 anos de pintura de paisagens na Itália
revolucionaram a representação da natureza na arte européia. Eles prepararam o terreno
e abriram o caminho à paisagem moderna que marcou não apenas a segunda metade do século
19, como, bem além do impressionismo, as primeiras décadas do século 20. (O Estado de
S. Paulo)