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Paris dedica duas mostras à beleza italiana

05/07/2001

‘La Cappella Nuova Hors de la Porte de Chiaia’, de Jones

 

No Grand Palais são expostas obras de pintores repórteres do século 19, que abriram caminho para a paisagem moderna; no Museu d'Orsay, a Itália é representada pela arte transalpina

SHEILA LEIRNER

   PARIS - Não é só de Veneza que vive o turismo artístico parisiense. A Itália inteira está em cartaz em dois dos principais centros expositivos da cidade. No Grand Palais, ela é o país dos pintores europeus repórteres do começo do século 19 que retraçam o nascimento da paisagem ao ar livre (Paisagens da Itália, os Pintores do Ar Livre (1780-1830), até 9 de julho. E no Museu d'Orsay, está representada pela arte transalpina do fim do mesmo século num turbilhão de telas e bronzes de lirismo exorbitante (Itálias, a Arte Italiana diante da Modernidade(1880-1910), D'Annunzio e Carlo Bugatti, até 15 de julho).

   As 200 obras de 80 artistas franceses, italianos, alemães, ingleses e dinamarqueses da exposição nas Galerias Nacionais do Grand Palais não foram escolhidas por um francês e muito menos por um conservador de museu. A curadora-geral, Anna Ottani Cavina, é uma universitária bolonhesa. Isso explica, talvez, porque a mostra foge das monografias tão queridas aos conservadores franceses e tão tediosas para o espectador.

   Ali, descobrimos aliviados que a história da arte pode escapar dos métodos biográficos e que a pintura dispõe de robustez suficiente para falar sozinha dos seus assuntos e lugares. Mesmo quando ela trata apenas de paisagens destituídas dos temas religiosos, históricos e mitológicos que eram comuns antes do século 19.

   Foi na Itália que essa pintura "sur le motif" começou a florescer.

   Vênus da Europa, aquele país era visitado tradicionalmente pelos artistas que queriam aperfeiçoar-se estudando "in situ" os monumentos e as ruínas antigas ou as obras-primas do renascimento.

   E não apenas eles. A península era também o lugar preferido dos aristocratas colecionadores, de sábios arqueólogos, padres epigrafistas e antiquários.

   Tanto quanto os ingleses, dinamarqueses e alemães, os pensionistas da Academia da França e seus compatriotas, que viajavam com seus próprios meios, também encontravam ali amantes e esposas italianas.

   Não eram raros os que se aventuravam pelos campos deixando de lado os ateliês e a cidade para pintar ao ar livre. Fascinados pela natureza italiana, inventavam uma pintura "portátil" em pequenos formatos, a óleo ou aquarela. Seguiam os itinerários recomendados pelos guias da época e paravam de preferência nos locais celebrados pelos famosos escritores viajantes ou pelos tratados sobre a arte da paisagem.

   Na verdade, não existia apenas a fascinação pelo "Grande Giro", como era chamado esse itinerário obrigatório a toda pessoa em contato com a arte e o saber. Os artistas sabiam que estavam criando igualmente um gosto e um "desejo de Itália", fundados no exotismo e no calor que eram especialmente cativantes para os que viviam em Berlim, Londres ou Copenhague.

   Categorias - A exposição deixa claro que entre esses pintores se distinguiam duas categorias: os que, como David, foram a Roma para reconstituir a pintura histórica e realimentar o seu neoclassicismo nos lugares onde viveram os grandes personagens míticos. E os que inham ver de perto aquilo que o público queria contemplar na tela: não uma paisagem copiada de estampas ou fantasista, mas exata. Com os pormenores de uma topografia precisa, onde até mesmo a luz mediterrânea e as ruínas os transportassem àquela realidade que não era a sua.

   Esses artistas variavam os assuntos à medida infinita que seu olhar encontrasse novidades. Veneza e Florença, conhecidas e representadas demais, não os interessavam. Em Roma, sim, eles visitavam e pintavam tudo: o Coliseu, o Fórum, as basílicas, os templos, as margens do Tibre. Dali, eles partiam para o Lago Nemi e reproduziam seus efeitos luminosos e suas águas escuras. Em Nápoles, eles se enfiavam nas grutas, iam até o Vesúvio para pintar as lavas que restavam e alugavam barcos para Capri. Adoravam as falésias, as rochas e os troncos retorcidos. Ou, ainda, as ruelas e os telhados.

   Entre essas 200 obras a verossimilhança é tamanha, que fica difícil separar o estilo de cada artista. Mesmo a fotografia possui características singulares de acordo com a particularidade de cada "olho". Na mostra, todavia, tudo parece feito pela mesma pessoa. O que os diferencia talvez seja apenas a maior e a menor minúcia e exaustão com as quais realizavam seus esboços, desenhos e pinturas.

   Os mais apressados são os melhores e os mais agudos. Eles também são os mais vivos e vão direto ao essencial: resumem uma montanha num traço marrom, representam o céu por uma etérea veladura azul e as nuvens são apenas um retorcido de branco esfregado. E são também os mais célebres: os ingleses Jones, Bonington, Cole e Turner; o alemão Blechen e os franceses Valenciennes, Denis e Corot.

   Estes procuram, antes de tudo, exprimir a emoção que sentem e se abandonam bastante ao charme das cores. Porém, minuciosos e apressados, todos sem exceção, de forma mais ou menos explícita, renunciam aos princípios acadêmicos da "paisagem composta" ou da "paisagem heróica". Há um novo e generalizado interesse pelos efeitos da luz, do espaço aberto e de inusitados enquadramentos.

   É surpreendente como algumas obras, que seus autores consideravam às vezes como simples estudos, se revelam mais "modernas", inventivas, ricas e prospectivas, do que os grandes quadros "oficiais" que eles realizavam em ateliê. Compreende-se, então, porque esses 50 anos de pintura de paisagens na Itália revolucionaram a representação da natureza na arte européia. Eles prepararam o terreno e abriram o caminho à paisagem moderna que marcou não apenas a segunda metade do século 19, como, bem além do impressionismo, as primeiras décadas do século 20. (O Estado de S. Paulo)

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