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Santa Felicidade já foi mais italiano |
Viviane Ongaro
Faz algum tempo que Santa Felicidade, o mais italiano
bairro de Curitiba, deixou de ser um local afastado do centro da cidade. As antigas
chácaras foram substituídas pelos condomínios fechados. As carroças, principal meio de
transporte entre os colonos, deram lugar aos automóveis. As videiras que faziam parte da
paisagem, hoje são só lembranças. E as conversas entre os vizinhos já não são tão
comuns. Mesmo com as vantagens trazidas pelo progresso, aqueles que viram nascer a
colônia dividem sentimentos como a saudade e o medo de que as raízes estejam
desaparecendo. Para os mais antigos, o bairro está perdendo a sua identidade, pois a
juventude está abandonando as tradições tipicamente italianas.
Santa Felicidade nasceu em 1878. Quinze famílias da
província de Vicenza, região do Vêneto, norte da Itália, adquiriram terras dos irmãos
Antônio, Arlindo e Felicidade Borges. Por favorecer a compra das terras e tratar com
carinho as famílias dos italianos, Felicidade Borges foi homenageada com o nome do
bairro.
No início, a vida da colônia italiana de Santa Felicidade
não foi fácil. O acesso a Curitiba era difícil e feito apenas por carroça. Depois de
enfrentar o Oceano Atlântico - 45 dias em um navio - e desembarcar no Brasil com
promessas nem sempre cumpridas, os imigrantes ainda enfrentaram a fome. Até que o milho
fosse colhido após seis meses da chegada, os imigrantes tiveram apenas carne de porco do
mato e pinhão para se alimentar.
"A juventude raramente conhece essa história",
comenta o empresário e escritor Armando Túlio, autor do livro Na Bagagem Somente
Esperança. Editado há dois anos, o livro traz uma pesquisa sobre a vida dos italianos e
suas dificuldades na nova terra. Conhecedor da cultura da região, Armando lembra com
carinho da Santa Felicidade da década de cinqüenta. Nas chácaras, o cultivo da uva era
uma prática quase obrigatória. Ele lembra da época em que usava estilingue para caçar
pássaros na região. Ou mesmo das conversas entre os vizinhos, todos os finais de tarde.
Visão errada
Para Túlio, hoje as pessoas têm uma visão distorcida da
cultura e culinária dos pioneiros italianos. Segundo ele, até a gastronomia mostrada
hoje é equivocada. Ele diz que em Santa Felicidade, as comidas típicas do Vêneto não
são servidas aos visitantes. Entre elas, a carne-lessa (músculo cozido com pouco tempero
e servido com vinagrete) e a fortaia, feita de queijo caseiro, misturado com ovos e
pequenas fatias de salame e polenta branca.
Túlio cita que na Itália, por exemplo, há um programa de
agriturismo que incentiva pequenos colonos a mostrar sua cultura dentro de suas próprias
casas. Numa sala, as pessoas servem o que produzem aos visitantes, mostrando realmente
como é uma casa italiana.
Mesmo lembrando que Santa Felicidade não ficou alheia ao
progresso e às mudanças, Túlio garante que haveria espaço para que projetos como o
desenvolvido na Itália fossem colocados em prática. Essa seria uma forma de manter a
tradição entre a juventude. "Sei que Santa Felicidade já não é mais a mesma. Mas
ainda há tempo de resgatar um pouco dessa cultura. Basta o incentivo governamental",
garante.
Família acompanha as mudanças
Os Miola, uma das mais
tradicionais famílias de Santa Felicidade, chegaram da Itália no século 19. O
agricultor Vitorino Miola tem 55 anos e desde muito cedo aprendeu os segredos para
fabricar o vinho. A técnica foi transferida de pai para filho. Somente na família de
Vitorino são sete irmãos.
O agricultor, que hoje mantém somente uma horta em casa,
lembra que os colonos de Santa Felicidade tinham uma vinícola para consumo caseiro.
Depois da peste nos parreirais, poucos mantiveram a tradição. Dos seus quatro filhos -
entre eles três mulheres - apenas o homem ainda mantém a técnica da produção.
Na cantina montada ao lado de casa, Vitorino mostra com
orgulho os barris de carvalho com mais de cem anos. São entre 20 e 25 mil litros da
bebida produzidas em cada colheita. Nenhum litro do que é produzido é vendido na Festa
da Uva ou do Vinho. "Em casa não perdemos nunca a tradição dos nonos. Mesmo que
boa parte das pessoas estejam deixando de lado o hábito, quero ensiná-lo aos meus
netos", disse.
Mais antiga
A mãe de Vitorino Miola, Catarina Ângela Zen, tem 94 anos
e é a moradora mais antiga de Santa Felicidade. Mãe de sete filhos, criou a todos com o
trabalho na lavoura. O velho fogão a lenha, utilizado para preparar os quitutes, e a
carroça utilizada como meio de transporte e de escoamento da produção, são as duas
lembranças mais presentes.
Gozando de boa saúde e, principalmente lucidez, Catarina
conta que todas as famílias de Santa Felicidade tinham uma cantina. Na casa todos
aprendiam a fazer o vinho, bebida consumida todos os dias no almoço. Embora fosse uma
época difícil em que nem água encanada havia, Catarina tem saudade de alguns hábitos
antigos. "Agora tudo está diferente. Sinto falta de algumas coisas, mas na maioria
das vezes lembro como tudo era mais difícil naquela época", disse. (VO)
Depois da peste, uva vem de fora
Até a década de 70, toda uva
consumida in natura e a utilizada na produção de vinho em Santa Felicidade era produzida
no próprio bairro, abastacendo também as tradicionais festas da Uva e do Vinho. A
situação mudou com o surgimento de uma doença que atingia a raiz dos parreirais, uma
peste batizada de pérola. Com ela, a produção de uva praticamente acabou no bairro.
Hoje, apenas um parreiral existe na região.
A família Durigan é a única a dar continuidade à
tradição dos primeiros colonos italianos, mantendo um parreiral em sua propriedade com
dois mil e quinhentos pés, em Santa Felicidade, além de outros seis mil em Almirante
Tamandaré. Dionísio Durigan conta que a doença na década de setenta foi combatida com
pesticidas, mas, devido aos prejuízos, boa parte dos colonos desistiu de cultivar a uva.
A tradição da fabricação do vinho veio dos bisavós de
Durigan. Mesmo sendo uma tradição familiar, dos seus dois filhos apenas um está
trabalhando com a fabricação do vinho. "Hoje tudo mudou em Santa Felicidade. A
tradição está se perdendo", lamenta Dionísio.
Na propriedade de Dionísio são colhidos diariamente
cinqüenta quilos de uva. A maioria é transformada em vinho na cantina ao lado de casa. A
clientela é cativa e nada do que é produzido vai para a festa da Uva ou do Vinho. Ao
contrário de outros colonos, Durigan pretende até mesmo expandir os negócios e
continuar no ramo aumentando sua produção. (VO)
Grupos lutam para manter as tradições
Grupos folclóricos, a Boca
Malledeta, os clubes Iguaçu, Trieste e o de pesca Vêneto, além dos corais, ainda são
algumas das atividades que mantém a tradição italiana da região. Agora um novo museu
instalado na Vinícola Durigan, na entrada do bairro, também pretende continuar esse
resgate. São fotos e objetos que contam a tradição dos primeiros colonos que chegaram
ao Paraná.
Edilson Serenato foi quem organizou o museu coletando
objetos junto aos moradores. Empresário de turismo e diretor do grupo folclórico
Ítalo-Brasileiro, Serenato sempre desenvolveu um trabalho de resgate da cultura italiana.
Ele foi uma das pessoas que vivenciou as mudanças ocorridas em Santa Felicidade.
"Há quarenta anos era apenas uma vila onde todos conheciam as pessoas por nome e
sobrenome. Hoje tudo mudou. Das carroças o movimento intenso de veículos. O progresso
chegou em Santa Felicidade", disse.
O grupo folclórico fundado em 1986 por ele e o amigo
Angelo Volpato é uma das formas de manter a tradição do local. Jovens são convidados a
participar. Hoje são duzentos integrantes. Na opinião de Serenato, o apego pela velha
Itália tende a diminuir entre as novas gerações. A explicação: a cada dia as
gerações se tornam mais brasileiras. É claro que os vínculos comerciais devem
continuar, inclusive com a divulgação da gastronomia de Santa Felicidade. Mas Serenato
garante que, certamente, o saudosismo estará presente nas antigas gerações. (VO)
Duas festas unem a comunidade
Em fevereiro e julho a
comunidade de Santa Felicidade realiza seus maiores eventos. No início do ano, a
tradicional Festa da Uva atrai turistas de todo o Paraná. No cardápio principal, a
tradicional macarronada distribuída no primeiro dia da festa. Em julho é a vez da Festa
do Vinho, que começa amanhã e segue até domingo. A polenta, neste caso, é o principal
prato servido aos visitantes.
Embora sejam festas tradicionais de Santa Felicidade,
procurando fazer um resgate cultural das origens do bairro, elas já não são mantidas
exclusivamente pela produção local. A uva e a maior parte do vinho vêm de outras
regiões. Mesmo assim, Santa Felicidade nunca deixou de ser sinônimo de uma região
tipicamente italiana.
D urante 25 anos, Gumercindo Benato, 85 anos, esteve à
frente da Comissão da Festa da Uva de Santa Felicidade. Barraquinhas com produtos
artesanais, roda da fortuna e argola sempre foram atrações do evento. Do terreno de
Francisco Carrilo, onde aconteceu a primeira festa, ao Bosque São Cristóvão - onde
acontece atualmente -, o evento mais tradicional de Santa Felicidade, porém, passou por
várias transformações. Uma delas foi a "importação" da uva e do vinho
comercializados durante a festa.
"Tudo começou a mudar na década de 70 por causa da
peste. Não havia mais uva na colônia. Os parreirais haviam sido destruídos devido à
doença", lembra Gumercindo. Acompanhado pela esposa, Rosa, Gumercindo lembra da
primeira festa realizada a pedido do pároco da região, padre Antônio Gallo.
A carne
Na época da primeira Festa da Uva, o então presidente da
comissão comprou cem quilos de carne para vender durante o evento. O padre Gallo chegou a
brincar com Gumercindo dizendo que a carne iria sobrar. "O problema é que no final
da missa já não havia mais carne. Foi um sucesso", lembra.
Há algum tempo Gumercindo não faz parte da comissão, mas
procura visitar o Bosque São Cristóvão em todas as edições do evento. Na sua
opinião, agora tudo é mais fácil. O Bosque São Cristóvão garante toda
infra-estrutura. Isso porque os carpinteiros não precisam mais construir as barracas
durante uma semana antes da festa. (VO)
19.ª edição começa hoje
Começa hoje, no Bosque São Cristóvão, em Santa
Felicidade, a 19.º Festa do Vinho, organizada pela colônia italiana. Estão programadas
apresenta-ções de grupos folclóricos, corais, cantores populares, além, óbvio, da
tradicional comida típica italiana. Na abertura, uma polenta de 40 metros de comprimento
e dois mil quilos será distribuída gratuitamente. Durante os três dias de festa,
esperam ser comercializados, entre outros pratos, 2.500 quilos de frango a passarinho e 50
mil litros de vinho - todos produzidos em Santa Felicidade.
O ingresso de R$ 2 dá direito a um cupom para o sorteio de
diversos prêmios no encerramento da festa, no domingo. O principal é uma passagem aérea
para a Itália.
Amanhã quem se apresenta no Bosque São Cristóvão é o
cantor Tony Angeli, às 22h. No sábado, as principais atrações serão o grupo Ítalo
Brasileiro Santa Felicidade, às 19h, e a dupla Willian e Renan, que se apresentam às
19h30. No domingo, a festa se encerra com o show da Banda Le Figarroo, às 21h30 .
Programação de hoje
17h - Abertura do Bosque para os visitantes; 19h -
Apresentação da Banda da Polícia Militar; 19h30 - Apresentação do Grupo Folclórico
Ítalo Brasileiro Santa Felicidade; 20h - Abertura oficial da festa, com presença de
autoridades do Brasil e Itália; 20h30 - Distribuição gratuita da polenta gigante e
animação musical do grupo vocal I Veneti in Brasile. 22h - As mais belas canções
italianas com o cantor Tony Angeli de São Paulo. (Lawrence Manoel)
Polenta une gerações
A polenta é um dos pratos
servidos em todas as festas da comunidade de Santa Felicidade. A tradição é mantida
pelos moradores da região, que se reúnem vários dias antes das festas para preparar a
polenta. Os visitantes agradecem, saboreando um prato trazido pelos primeiros italianos
que chegaram ao Paraná. Renato Trevisani, proprietário do Restaurante Treviso, não sabe
ao menos o período em que está à frente da preparação da polenta distribuída na
Festa do Vinho. Com molho à bolonhesa e acompanhada de frango, a polenta é muito
apreciada pelos visitantes. Trevisani nem ao menos se lembra de quando a tradição de
distribuir polenta na festa começou. Somente no primeiro dia da Festa do Vinho são
distribuídos dois mil quilos de polenta.
Trevisani explica que a comunidade se reúne para preparar
o prato. Como em casa, não pode faltar boa vontade e carinho na hora do preparo. Para
Trevisani, bisneto de italianos, essa é uma forma de manter a tradição dos primeiros
italianos que chegaram ao Paraná. "Algumas coisas que eram hábito dos imigrantes
são mantidas até hoje. O ideal é que os jovens continuem essa tradição", disse.
(VO) (Paraná Online) |