A reciclagem que El Greco fazia das
próprias criações é exemplificada por duas obras pertencentes à Frick e outras
emprestadas por colecionadores espanhóis e museus americanos. Juntas, elas sintetizam a
evolução do artista durante as décadas em que ele viveu na Itália e na Espanha. As
sete telas, que ficam em exibição até 29 de julho, estão sendo vistas lado a lado pela
primeira vez em séculos.
Copiar sempre fez parte da educação de um artista e, embora um original
fosse mais apreciado, no século 16 as cópias de obras de arte eram muito mais toleradas
que agora. Para Jonathan Brown, professor no Instituto de Belas-Artes da New York
University e curador convidado pela Frick para a apresentação de El Greco: Themes and
Variations, o hábito de o pintor repetir ou variar o mesmo tema tinha razões
financeiras. Ele faria isso para atender à demanda crescente por suas pinturas.
El Greco seguia o exemplo de ateliês de Veneza, onde o artista, nascido
na ilha grega de Creta (então uma possessão de Veneza), viveu dos 26 aos 29 anos. Ali,
pintores como Bellini, Tintoretto, Veronese e Ticiano tinham obras de sucesso copiadas por
assistentes para multiplicar os ganhos com um original. Apesar de identificar o padrão
seguido pelo pintor para reproduzir suas telas, Brown diz que ainda não se sabe
exatamente como isso era feito, se por meio de modelos ou esboços, se apenas pelo autor
do quadro ou por quais de seus assistentes. O fato é que a repetição de uma obra era
regida pelo mercado.
Três das cinco pinturas de São Jerônimo representado como cardeal e
atribuídas a El Greco estão reunidas na mostra (as outras estão na National Gallery, de
Londres, e no Musée Bonnat, em Bayonne). Elas têm diferentes tamanhos, mas são quase
idênticas e refletem mudanças no estilo do pintor. A obra que pertence à Frick é
considerada a mais antiga de todas; teria sido pintada entre 1595-1600 e é a única com a
assinatura do pintor.
Nos três quadros, o santo é representado em meio-corpo, vestindo capa
vermelha e com as mãos sobre um livro que se presume ser a tradução que ele fez da
Bíblia, do grego para o latim. Numa tela de escala similar à primeira, pintada entre
1600 e 1614, pertencente ao Metropolitan Museum, de Nova York, há diferenças sutis na
coloração, na distribuição do branco, no trabalho com o pincel e na figura de São
Jerônimo. A terceira versão, datada entre 1600 e 1605, é propriedade de uma coleção
particular madrilenha. Menor que as duas outras, esta seria a primeira de uma série de
três pequenas pinturas, mas não se sabe com que intenção El Greco as fez.
Significado especial - O tema bíblico da purificação do templo,
segundo nota Jonathan Brown, parece ter tido significado especial para El Greco, pois foi
repetido por ele ao longo de sua carreira em seis versões assinadas. Nos quatro quadros
reunidos na exposição, observam-se várias diferenças, demonstrando quanto o pintor
alterou seu estilo entre a Itália e a Espanha e como procurou dar mais claridade e
intensidade às expressões em cada versão.
A mais antiga delas, da National Gallery of Art, de Washington, é um
óleo sobre painel que teria sido pintado durante o período em que o artista viveu em
Veneza. Na que pintou logo em seguida, possivelmente entre 1571-76, El Greco rende tributo
a quatro pessoas que o inspiraram: no canto direito e abaixo na tela, ele pintou Ticiano,
Michelangelo, Giulio Clovio (um amigo croata) e o que parece ser Rafael. Este segundo
quadro, do acervo do Minneapolis Institute of Arts, é uma tela com o dobro do tamanho da
primeira versão.
A Purificação que pertence à Frick Collection é a menor de todas e foi
pintada em tela por volta de 1600, claramente, portanto, na Espanha, onde El Greco viveu a
partir de 1577 e até morrer. A de maior dimensão no grupo de quatro é a única em
formato vertical. Foi feita entre 1610-14 e pertence à Paróquia de San Ginés, de Madri.
Jonathan Brown acrescenta que, assim que uma pintura original de El Greco
ganhava popularidade, muitos admiradores iam ao ateliê dele para adquirir uma réplica. O
que diferenciava a prática do artista da dos ateliês de Veneza era o seu costume de
modificar as composições para novas pinturas de um mesmo tema. "Essas pinturas não
são exatamente réplicas", diz o curador.
"Elas têm entre si uma semelhança familiar, mas cada uma traz
sinais de nova inspiração." (O Estado de S. Paulo)