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Carta-bomba explode em Gênova às vésperas de cúpula do G-8

16/07/2001

  A segurança foi intensificada em Gênova para a cúpula do G-8

GÊNOVA, Itália -- Uma carta-bomba explodiu nesta segunda-feira em uma delegacia de Gênova, na Itália, ferindo um policial, às vésperas de uma reunião de cúpula do Grupo dos Oito (G-8).

   Presidentes e chefes de governo de Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia se reunião na cidade entre os dias 20 e 22 de julho.

   As autoridades prepararam um forte esquema de segurança por temer que milhares de ativistas contra a globalização econômica, inclusive alguns que prometeram ações violentas, viajem à cidade nesse período.

   Um contingente extra de milhares de policiais e soldados está sendo deslocado para Gênova a fim de proteger os líderes mundiais que chegarão para a cúpula.

   Um porta-voz da polícia, Maurizio Riu, disse que a carta chegou a uma delegacia da periferia às 10h30 (hora local). Um dos policiais de serviço abriu o envelope, provocando a explosão, que o feriu sem gravidade nas mãos e no rosto.

   O porta-voz afirmou que nenhum grupo assumiu de imediato a autoria do ataque.

   Também na segunda-feira, uma equipe de especialistas em explosivos destruiu, por precaução, um veículo suspeito que estava estacionado há vários dias em frente a um distrito policial, no centro de Gênova. (CNN/AP)

É possível pescar com um computador?

FREI BETTO

   GÊNOVA, ITÁLIA - Há uma notória saia justa entre os manifestantes anti-G-8 que se agregam em torno do Fórum Social Gênova, e os milhares de jovens mobilizados pelas associações católicas, lideradas pela poderosa Acli: Associação Católica dos Trabalhadores Italianos.

   O Fórum convoca uma grande marcha para o dia 21, na qual os católicos só admitem participar de houver garantias de que será uma manifestação não-violenta. Isso porque vários ativistas contrários ao atual modelo de globalização, como o francês José Bové, prometem aqui romper, à força, o cerco da "zona vermelha" em torno do Palácio Ducal, onde estarão reunidos os oito mais poderosos governantes do mundo.

   Os ferroviários italianos garantem que, a partir do dia 18, vão despejar na estação de Gênova mais 5 mil manifestantes. Enfim, a impressão que se tem é que a mídia local faz a crônica de uma guerra antecipada, sobretudo chamando a atenção para o aparato bélico montado na cidade, incluindo mísseis terra-ar.

   Os hackers causam pavor à segurança do evento. Em janeiro, em Davos, conseguiram entrar no sistema de informática, descobrindo até os cartões de crédito dos donos do dinheiro. Aqui, já demonstraram que se consideram imbatíveis: interromperam três transmissões de TV para emitir protestos contra o G-8.

   Há dez dias, todos os detalhes do G-8 estão sendo filmados por 44 diretores de cinema italianos, liderados por Ettore Scola, Gillo Pontecorvo e Francesco Maselli. Nada escapa às suas câmeras distribuídas por toda Gênova.

   O que sem dúvida constrange o governo Berlusconi, anfitrião do evento, é saber que a voz mais autorizada anti-G-8 "canonizou", no último domingo, manifestantes e manifestações: o papa João Paulo II. Ele afirmou que "a fé não pode deixar o cristão indiferente diante de semelhante questão (a globalização) de relevância mundial. Ela o desafia a interpelar com espírito propositivo as responsabilidades da política e da economia, de modo que o atual processo de globalização seja fortemente governado tendo em vista o bem comum dos cidadãos do mundo inteiro".

   Os adeptos da Teologia da Libertação, também presentes em Gênova, dizem que, enfim, o papa aderiu à visão daqueles que fazem da fé uma lente crítica das questões sociais. O fato é que, tranqüilo, João Paulo II foge do calor de Roma e assiste tudo à distância, em férias em Les Combes d’Introd, no Vale d’Aosta.

   Em companhia de seis assessores, um médico e um amigo polonês, o papa acorda às seis da manhã, celebra a missa e, após o café, passa o dia passeando pela região a bordo de uma perua 4x4. Após o jantar, entrega-se aos livros que levou em duas caixas. Com certeza, com um olho no noticiário do que ocorre em Gênova.

   O comércio mundial de armas é outro tópico que merece a atenção dos manifestantes. A África não produz armas e, no entanto, padece guerras incessantes. Como os líderes das nações produtoras de armamentos podem falar em paz se obtêm grandes lucros com os conflitos armados?

   O lema do Fórum Social de Porto Alegre, "Um outro mundo é possível", é evocado aqui como crítica ao atual modelo de globalização, centrado no avanço da tecnologia de ponta. Segundo a ONU, a geografia do progresso tecnológico demonstra que, nos EUA, a tarifa mensal de acesso à Internet equivale a 1,2% da renda mensal média. Em Madagascar, a 614%. Nos países do Hemisfério Norte há uma linha telefônica para cada duas pessoas. No Terceiro Mundo, a proporção é de 1/200.

   "Se um homem tem fome, dê-lhe uma vara de pescar", reza o provérbio, agora modificado pela globalização: "dê-lhe um computador". E encha as burras das nações exportadoras de tecnologia cibernética. Ora, a lâmpada elétrica foi inventada em 1870 e, hoje, cerca de 2 bilhões de pessoas ainda não têm acesso a ela. (Nós, brasileiros, temos acesso, mas falta energia).

   A desconfiança dos críticos do G-8 é que os membros deste seleto clube não estarão dispostos a mexer em qualquer ponto que signifique redução de riqueza para as suas nações. Por isso, o computador é apresentado como a nova vara de pescar, e os alimentos transgênicos como solução para a fome mundial.

   Mas nenhuma vírgula é alterada nos acordos internacionais que poderiam tornar a produção mundial de alimentos acessível a maior número de bocas, via redução de tarifas. Assim como quase nada se faz para evitar que cesse a morte diária de 30.000 crianças no mundo, por doenças facilmente previsíveis e curáveis. Só 10% dos recursos investidos na pesquisa global de saúde convergem para enfermidades associadas à pobreza.

   Para demonstrar que não são tão insensível aos povos do Terceiro Mundo, os membros do G-8 abriram suas portas para alguns convidados especiais, presidentes de nações pobres, entre os quais Francisco Flores, de El Salvador, o único latino-americano a ter acesso ao Palácio Ducal. O convite foi estendido também à índia guatemalteca Rigoberta Menchú, prêmio Nobel da Paz, mas ela recusou. (Jornal do Brasil)

* Frei Betto é escritor, autor de "Sinfonia Universal - a cosmovisão de Teilhard de Chardin" (Ática), entre outros livros

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