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GÊNOVA, Itália -- Uma carta-bomba explodiu nesta segunda-feira em uma delegacia de
Gênova, na Itália, ferindo um policial, às vésperas de uma reunião de cúpula do
Grupo dos Oito (G-8).
Presidentes e chefes de governo de Alemanha, Canadá, Estados Unidos,
França, Grã-Bretanha, Itália, Japão e Rússia se reunião na cidade entre os dias 20 e
22 de julho.
As autoridades prepararam um forte esquema de segurança por temer que
milhares de ativistas contra a globalização econômica, inclusive alguns que prometeram
ações violentas, viajem à cidade nesse período.
Um contingente extra de milhares de policiais e soldados está sendo
deslocado para Gênova a fim de proteger os líderes mundiais que chegarão para a
cúpula.
Um porta-voz da polícia, Maurizio Riu, disse que a carta chegou a uma
delegacia da periferia às 10h30 (hora local). Um dos policiais de serviço abriu o
envelope, provocando a explosão, que o feriu sem gravidade nas mãos e no rosto.
O porta-voz afirmou que nenhum grupo assumiu de imediato a autoria do
ataque.
Também na segunda-feira, uma equipe de especialistas em explosivos
destruiu, por precaução, um veículo suspeito que estava estacionado há vários dias em
frente a um distrito policial, no centro de Gênova. (CNN/AP)
| É possível
pescar com um computador? FREI
BETTO
GÊNOVA, ITÁLIA
- Há uma notória saia justa entre os manifestantes anti-G-8 que se agregam em torno
do Fórum Social Gênova, e os milhares de jovens mobilizados pelas associações
católicas, lideradas pela poderosa Acli: Associação Católica dos Trabalhadores
Italianos.
O Fórum convoca uma grande marcha para o
dia 21, na qual os católicos só admitem participar de houver garantias de que será uma
manifestação não-violenta. Isso porque vários ativistas contrários ao atual modelo de
globalização, como o francês José Bové, prometem aqui romper, à força, o cerco da
"zona vermelha" em torno do Palácio Ducal, onde estarão reunidos os oito mais
poderosos governantes do mundo.
Os ferroviários italianos garantem que, a partir do dia 18, vão despejar na
estação de Gênova mais 5 mil manifestantes. Enfim, a impressão que se tem é que a
mídia local faz a crônica de uma guerra antecipada, sobretudo chamando a atenção para
o aparato bélico montado na cidade, incluindo mísseis terra-ar.
Os hackers causam pavor à segurança do evento. Em janeiro, em Davos,
conseguiram entrar no sistema de informática, descobrindo até os cartões de crédito
dos donos do dinheiro. Aqui, já demonstraram que se consideram imbatíveis: interromperam
três transmissões de TV para emitir protestos contra o G-8.
Há dez dias, todos os detalhes do G-8 estão sendo filmados por 44 diretores
de cinema italianos, liderados por Ettore Scola, Gillo Pontecorvo e Francesco Maselli.
Nada escapa às suas câmeras distribuídas por toda Gênova.
O que sem dúvida constrange o governo Berlusconi, anfitrião do evento, é
saber que a voz mais autorizada anti-G-8 "canonizou", no último domingo,
manifestantes e manifestações: o papa João Paulo II. Ele afirmou que "a fé não
pode deixar o cristão indiferente diante de semelhante questão (a globalização) de
relevância mundial. Ela o desafia a interpelar com espírito propositivo as
responsabilidades da política e da economia, de modo que o atual processo de
globalização seja fortemente governado tendo em vista o bem comum dos cidadãos do mundo
inteiro".
Os adeptos da Teologia da Libertação, também presentes em Gênova, dizem
que, enfim, o papa aderiu à visão daqueles que fazem da fé uma lente crítica das
questões sociais. O fato é que, tranqüilo, João Paulo II foge do calor de Roma e
assiste tudo à distância, em férias em Les Combes dIntrod, no Vale dAosta.
Em companhia de seis assessores, um médico e um amigo polonês, o papa
acorda às seis da manhã, celebra a missa e, após o café, passa o dia passeando pela
região a bordo de uma perua 4x4. Após o jantar, entrega-se aos livros que levou em duas
caixas. Com certeza, com um olho no noticiário do que ocorre em Gênova.
O comércio mundial de armas é outro tópico que merece a atenção dos
manifestantes. A África não produz armas e, no entanto, padece guerras incessantes. Como
os líderes das nações produtoras de armamentos podem falar em paz se obtêm grandes
lucros com os conflitos armados?
O lema do Fórum Social de Porto Alegre, "Um outro mundo é
possível", é evocado aqui como crítica ao atual modelo de globalização, centrado
no avanço da tecnologia de ponta. Segundo a ONU, a geografia do progresso tecnológico
demonstra que, nos EUA, a tarifa mensal de acesso à Internet equivale a 1,2% da renda
mensal média. Em Madagascar, a 614%. Nos países do Hemisfério Norte há uma linha
telefônica para cada duas pessoas. No Terceiro Mundo, a proporção é de 1/200.
"Se um homem tem fome, dê-lhe uma vara de pescar", reza o
provérbio, agora modificado pela globalização: "dê-lhe um computador". E
encha as burras das nações exportadoras de tecnologia cibernética. Ora, a lâmpada
elétrica foi inventada em 1870 e, hoje, cerca de 2 bilhões de pessoas ainda não têm
acesso a ela. (Nós, brasileiros, temos acesso, mas falta energia).
A desconfiança dos críticos do G-8 é que os membros deste seleto clube
não estarão dispostos a mexer em qualquer ponto que signifique redução de riqueza para
as suas nações. Por isso, o computador é apresentado como a nova vara de pescar, e os
alimentos transgênicos como solução para a fome mundial.
Mas nenhuma vírgula é alterada nos acordos internacionais que poderiam
tornar a produção mundial de alimentos acessível a maior número de bocas, via
redução de tarifas. Assim como quase nada se faz para evitar que cesse a morte diária
de 30.000 crianças no mundo, por doenças facilmente previsíveis e curáveis. Só 10%
dos recursos investidos na pesquisa global de saúde convergem para enfermidades
associadas à pobreza.
Para demonstrar que não são tão insensível aos povos do Terceiro Mundo,
os membros do G-8 abriram suas portas para alguns convidados especiais, presidentes de
nações pobres, entre os quais Francisco Flores, de El Salvador, o único
latino-americano a ter acesso ao Palácio Ducal. O convite foi estendido também à índia
guatemalteca Rigoberta Menchú, prêmio Nobel da Paz, mas ela recusou. (Jornal do Brasil)
* Frei
Betto é escritor, autor de "Sinfonia Universal - a cosmovisão de Teilhard de
Chardin" (Ática), entre outros livros
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