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Nova
legislatura bate recorde em número de senadores e deputados investigados ou condenados, a
começar pelo premier
ARAUJO NETTO
ROMA - Iniciada há menos de dois meses, a 14ª legislatura do
parlamento italiano parece estar querendo um registro no Guiness, o catálogo dos recordes
mundiais criado há 47 anos por uma fábrica de cerveja inglesa. Constatação que
justificou uma reação de perplexidade de alguns dos mais importantes jornais do país,
que não vêem razões para festejar os 29 deputados nacionais e 15 senadores que, eleitos
a 13 de maio deste ano, são responsáveis por um primado nada invejável da democracia
italiana.
Esses 44 parlamentares (de um total de
945), incluindo o primeiro-ministro Silvio Berlusconi, são acusados, investigados,
processados, alguns até já condenados por crimes da maior gravidade - desde a prática
de corrupção, fraudes, falsificações várias, bancarrota fraudulenta até os de
associação com as mais poderosas máfias da Sicília, da Campânia e da Calábria. Não
estão na conta outros deputados e senadores suspeitos ou condenados por crimes menores,
como difamação e emissão de cheques sem fundos.
Nem o argumento de que as legislaturas de 10 anos atrás (1990/92)
apresentaram um número maior de parlamentares investigados e processados pode evitar que
a presença de uma bancada de 44 parlamentares respondendo a inquéritos e processos
confira ao atual parlamento italiano um recorde humilhante.
Dez anos atrás, as duas casas do parlamento de Roma chegaram a abrigar quase
uma centena de senadores, deputados, ministros e líderes partidários que, depois de
eleitos, foram acusados, investigados e processados pelos magistrados da célebre
Operação Mãos Limpas. Mas nenhum deles era suspeito, acusado e incriminado já ao
início da legislatura, como os 44 atuais.
Nenhum dos anteriores fez, durante a campanha eleitoral, uma afirmação
pública igual àquela do siciliano Marcelo DellUtri, reeleito deputado por um colégio de
Milão: ''Sou candidato por legítima defesa: para me defender de novos processos e
condenações''. Em outras palavras, para ser protegido, pela imunidade parlamentar, de
novos processos de corrupção, fraudes fiscais e colaboração com associação mafiosa.
Em Milão, Madri e Palermo continuam rolando processos contra ele, que sempre foi um dos
bons amigos, sócios e conselheiros do atual primeiro-ministro Silvio Berlusconi.
A importância da atual bancada de senadores e deputados italianos sub
judice não se reconhece apenas por seu valor numérico. Mais importante do que a sua
quantidade é a sua qualidade política. Dos 44 parlamentares com contas a prestar à
Justiça, só dois pertencem à coalizão oposicionista de centro-esquerda. Os demais 42
são todos membros ilustres da maioria que apóia o governo de direita, chefiado pelo cavaliere
Silvio Berlusconi.
Um líder que, talvez por coerência ou para dar o bom exemplo, além de
encontrar uma solução para o gritante conflito de interesses entre o mega-empresário,
proprietário de um império de multimídia e o primeiro ministro que fará o que bem
entender com as três redes estatais de televisão e as três de rádio, deve responder
ainda a quatro processos penais dos mais escabrosos, por falsificação de balanços,
fraudes fiscais, desrespeito da lei anti-truste e corrupção de juízes.
No atual governo,o deputado e líder Berlusconi não é um caso isolado.
Fazem-lhe companhia o ministro das Reformas e líder da separatista Liga Norte, Umberto
Bossi; o ministro do Trabalho e vice-líder da Liga Norte, Roberto Maroni; e o
vice-ministro dos Bens Culturais, Vittorio Sgarbi. Todos figuras populares e candidatos
bem votados nas últimas eleições vencidas pelos partidos da Casa da Liberdade, a
coalizão de direita que hoje governa a Itália. Trata-se de políticos que, em muitos
casos, fizeram questão de manter por perto os hábeis, competentes e custosos advogados
que os defenderam em processos a que já responderam e aos que ainda devem responder.
Advogados e professores de direito penal como Carlo Taormina e Gaetano Pecorella - eleitos
pela primeira vez para a Câmara -, que, pela competência demonstrada como defensores de
Berlusconi, mereceram também um posto de vice-ministro do Interior e de membro da
Comissão de Justiça.
Funções que não os impede de continuar atendendo seus mais antigos
clientes, como terça-feira passada aconteceu com o professor Taormina, que com a maior
solicitude respondeu de seu gabinete no Ministério do Interior a um telefonema de um
empresário napolitano preso por fraude e participação numa quadrilha de bandidos, para
instruí-lo sobre como proceder diante dos policiais e dos magistrados. (Jornal do Brasil) |