|
PEDRO
BUTCHER
A
carreira de Vittorio de Sica parece não caber em 73 anos de vida. Foram mais de 150
filmes como ator e 35 como diretor, sem contar as dezenas de peças do tempo em que,
incentivado pelo pai, o adolescente garboso tornou-se jovem galã nos palcos de Nápoles e
Roma, ainda nos anos 20. Antes mesmo que a Academia de Hollywood inventasse o Oscar de
filme estrangeiro, De Sica já tinha dois em casa - categorias excepcionalmente criadas
para Vítimas da tormenta (1946) e Ladrões de bicicleta (1948). Mais
adiante, o cineasta levaria outros dois Oscar para casa (por Ontem, hoje e amanhã
e O jardim dos Finzi-Contini), enquanto o ator receberia uma indicação na
categoria coadjuvante por seu papel em Adeus às armas, adaptação de Hemingway
assinada por Charles Vidor. A absoluta consagração internacional se completaria com a
Palma de Ouro para Milagre em Milão (1951) e o Urso de Ouro para o crepuscular O
jardim dos Finzi-Contini (de 1971, por sinal uma produção de Arthur Cohn, o mesmo de
Central do Brasil).
Pois com toda essa história de vida,
Vittorio de Sica, que se vivo fosse teria feito 100 anos no último dia 7 de julho, ganha
reverência solitária no Brasil com a exibição de Ladrões de bicicleta hoje,
às 22h, no Telecine Classic (da Net/Sky). É vero que há certa controvérsia em
torno da sua data de nascimento - algumas fontes confiáveis, estranhamente, informam ser
1902 - mas não deve ser um engano a homenagem ao seu centenário realizada no último
Festival de Cannes, co-assinada pela própria Cinecittà e com a presença de seus filhos
e netos.
Vamos, então, celebrar com o que temos: Ladrões de bicicleta. O que
não é pouco. Se De Sica tivesse feito só esse filme na vida, poderia morrer em paz.
Poucas obras cinematográficas são capazes de comover com tamanha sinceridade. Sim,
porque Ladrões de bicicleta faz chorar. Faz rir, também, mas o fato de fazer
chorar, para alguns detratores de visão curta, o coloca automaticamente na categoria do
cinema demagógico e sentimental. Uma tremenda injustiça. De Sica é, sim, do tempo em
que um cineasta podia dizer ''faço filmes a favor dos pobres e infelizes'' ou ''filmo
contra a ausência de solidariedade humana, contra a indiferença ao sofrimento'' e não
ter vergonha disso. Quem afirma uma coisa dessas hoje em dia? É preciso ter peito para
ser humano. E De Sica o foi.
Parceria - Ladrões de bicicleta é humanista em cada detalhe - no
retrato em preto-e-branco que faz de uma Itália socialmente dilacerada pela guerra, na
trajetória de seus protagonistas (pai e filho atrás de uma bicicleta roubada) e até
mesmo na escolha dos atores, não-profissionais, como ditava o princípio básico do
neo-realismo italiano do qual o filme é um marco. Ladrões de bicicleta também
marca a maturidade da colaboração entre De Sica e o roteirista Cesare Zavattini, que
começou em 1942, com A culpa dos pais. Num caso raro de parceria realmente
simbiótica, Zavattini talvez mereça tanto crédito quando De Sica na construção de
personagens palpáveis, multifacetados e de grande identificação com o público.
Mas Vittorio
De Sica fez muito mais que Ladrões de bicicleta, e é uma pena que filmes como Umberto
D (para alguns ainda melhor que o Ladrões..), Milagre em Milão, Ontem,
hoje e amanhã ou Casamento à italiana não ganhem uma retrospectiva digna.
Esses dois últimos filmes são exemplos perfeitos da versatilidade do diretor, capaz de
realizar com o mesmo talento a mais escrachada das comédias italianas. Ontem, hoje e
amanhã, por exemplo, tem aquela famosa seqüência do strip tease de Sophia Loren
para Marcelo Mastroianni que Robert Altman recriaria em Prêt-à-porter. Uma mostra
completa de verdade também daria o mesmo peso para o De Sica ator, que encontrou um de
seus pontos altos na farsa de Roberto Rossellini De crápula a herói (Il
generale della Rovere, de 1959). Nesse filme, De Sica interpreta um pilantra forçado
pelos nazistas a assumir a identidade de um general fascista que acaba de morrer. Para
quem quiser ter uma palhinha do De Sica ator, uma dica: o mesmo Telecine Classics reprisa,
no dia 31 de julho, às 23h40, a obra-prima de Max Ophuls Desejos proibidos, em que
ele aparece como um embaixador apaixonado pela personagem principal. Outro De Sica
imperdível. (Jornal
do Brasil) |