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Em gesto
inédito, Itália suspende tratado de livre circulação de cidadãos da União Européia
para garantir segurança do G-8
ARAUJO NETTO
ROMA - O medo de fazer feio e ser reprovado como
anfitrião do G-8 de Gênova, evento encarado como primeiro exame internacional da
competência da nova administração, levou o governo italiano chefiado pelo cavaliere Silvio
Berlusconi a decretar o restabelecimento em todas as suas fronteiras do controle de
passaportes e bagagens de quem estiver entrando na Itália. Não estão excluídos desse
controle os cidadãos dos 14 outros países da União Européia, que nos últimos quatro
anos (desde 1997, quando entrou em pleno vigor o Tratado de Schengen, convenção sobre as
fronteiras comuns) puderam circular livremente exibindo apenas uma carteira de identidade
emitida por um dos 15 países da UE.
A pretexto de prevenir-se contra a
provável presença de provocadores e vândalos entre os pacíficos contestadores da
globalização, o governo de Berlusconi não vacilou em entrar para a história como o
primeiro suspender por vinte cinco dias a aplicação do acordo idealizado em 1985 e
assinado em 1990 em Schengen, minúscula cidade do minúsculo principado de Luxemburgo,
pelos países da Europa decididos a criar fronteiras comuns, a liberalizar a circulação
de pessoas, idéias e mercadorias.
Seleta - Restabelecendo o controle de passaportes e bagagens, Berlusconi e seus
ministros acreditaram que se poderia tornar muito eficiente uma rigorosa ''operação
pente-fino'' que permitiria aos policiais italianos identificar, isolar ou simplesmente
rejeitar os maus contestadores do G-8. E até de selecionar mesmo entre os bons
contestadores só os ''melhores'', os mais inofensivos, que em Gênova se limitarão a
posar para as câmeras com as caras pintadas, vestindo camisas com o rosto de Che Guevara
ou slogans inteligentes.
O perigo de contrariar os outros parceiros da União Européia, com a suspensão da
aplicação do acordo de Schengen, não existiu para o governo italiano. Invocando o
artigo 2 do primeiro capítulo do tratado, não foi difícil para o ministro do Interior
italiano Claudio Scajola - que entre 1983 e 84 passou 71 dias na prisão, acusado de ter
recebido um financiamento ilegal - voltar de Bruxelas com o ''sim'' da Comissão Européia
a um temporário fechamento das fronteiras italianas. No artigo 2 do acordo de Schengen
está escrito que por exigência de ordem pública ou de segurança nacional, um país
pode decidir que por um período limitado em suas fronteiras sejam efetuados os controles
reclamados pela situação.
A decisão não chega sem causar problema. Em muitos casos, os manifestantes que têm a
passagem permitida pelas autoridades tomam de assalto estações de trem, deitam-se nos
trilhos para protestar contra a retenção de seus colegas. A polícia francesa
reforçará com um contingente de 500 a 600 soldados sua presença na fronteira italiana,
na altura das cidades de Menton e Vintimiglia, exatamente para coibir possíveis abusos. A
França também filtrará os chamados delinqüentes provenientes da Grã-Bretanha rumando
para a Itália.
Barrados -
Os que mais se sentiram prejudicados pelo fechamento parcial foram os líderes do
''Gênova Social Forum'', que reúne mais de 700 organizações de desobediência civil.
''Os maiores interessados em isolar e neutralizar as possíveis provocações violentas
somos nós. Estávamos preparados para agir com maior eficiência, e dessa nossa decisão
tínhamos informado ao governo que se declarava interessado em respeitar nosso protesto e
dialogar conosco. Não nos parece razoável que três, no máximo dez por cento de
provocadores numa massa de 100 ou 150 mil contestadores deva justificar o caos e o
bloqueio das fronteiras com a Itália'', diz um porta-voz do Gênova Social Forum. (Jornal do Brasil)
| Gênova é uma
verdadeira fortaleza antes da cúpula do G8 A polícia italiana controla esta quarta-feira os documentos de identidade de
residentes e estrangeiros em Gênova, depois de bloquear as ruas centrais como medida de
segurança nesta cidade, onde se realizará a partir de sexta-feira a reunião de cúpula
do G8. Nas estreitas ruas centrais genovesas, a polícia instalou durante os últimos dias
barreiras metálicas de quatro metros de altura, criando uma "zona vermelha",
pela qual só podem transitar os moradores da área e pessoas providas de passes
especiais.
A área, que abrange o Palazzo Ducale, onde se realizará a reunião, assim como grande
parte do velho porto, ficará assim até o domingo à noite quando terminar o encontro dos
líderes mundiais, fora do alcance dos enventuais manifestantes antiglobalização.
Em um dos pontos de controle,
atendido por dez policiais, as pessoas que entram na "zona vermelha" são
revistadas e suas carteiras e bolsas passadas por detectores de metal. As fotos em seus
passes são verificadas pelos agentes.
Uma via rápida que passa ao longo do porto será fechada antes de amanhã de manhã, um
dia antes do início da cúpula, e será reaberta no domingo à noite.
Pelo menos 20 mil policiais foram mobilizados para
garantir a segurança em Gênova durante a reunião. Para fugir da burocracia, dos
tediosos controles e das eventuais manifestações, muitos dos habitantes da cidade
decidiram antecipar suas férias de verão e viajar para fora.
Os proprietários de estabelecimentos comerciais instalaram por sua parte dispositivos
para proteger suas vitrines.
Três das quatro lanchonetes da multinacional norte-americana McDonalds em Gênova foram
fechadas e inclusive o logotipo da empresa encoberto, aparentemente pelo temor de que os
manifestantes antiglobalização os tomem como alvo.
O porto de Gênova - o maior da Itália - e o aeroporto serão fechados para o tráfego
comercial durante a reunião.
Os líderes dos Estados Unidos,
Grã-Bretanha, Canadá, Japão, França, Alemanha, Itália e Rússia permanecerão três
dias na cidade para discutir sobre a pobreza no mundo, o alívio da dívida externa,
enfermidades mortais como a Aids e a malária, além do meio ambiente, entre outros temas.
(Terra/AFP) |
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