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FRANCESCA ANGIOLILLO
O cientista político italiano Antonio Negri ocupou os jornais nos anos 80
por seu suposto envolvimento com o banho de sangue terrorista nos 70. Entre as acusações
contra o professor da universidade de Pádua, estava o assassinato de Aldo Moro, líder do
Partido Democrata Cristão.
Absolvido do envolvimento concreto com os crimes, em 83, Negri foi acusado de
incitar, com sua teoria, o terrorismo. Pediu asilo à França, onde foi professor
universitário em Paris.
Por 14 anos, viveu sem nenhum documento. No período, foi julgado à revelia
e sentenciado a 30 anos.
Não foi por ter sido privado dos direitos de cidadão, porém, que, ele
se uniu ao norte-americano Michael Hardt para falar de uma nova cidadania em
"Império".
O livro, que chega ao Brasil até o fim do mês, pela Record, analisa a forma
política que rege a economia globalizada. E, surpresa, a noção que usam para definir
essa estrutura política é importada da Roma antiga. Para Negri e Hardt, vivemos sob o
império.
Eles alertam: não se trata do velho "imperialismo ianque". Este
pressupõe fronteiras a serem expandidas -e a fronteira acabou.
Parte do livro, concebido a partir de 1995, porém, foi escrita de dentro de
um lugar com limites bem definidos. Em 97, Negri surpreendeu o mundo ao comunicar que
voltaria a seu país. Esperava a anistia; foi levado do avião ao cárcere de Rebibbia, em
Roma.
De nada adiantou explicar que as perguntas sobre sua atual situação legal
-a saber, Negri hoje cumpre prisão domiciliar, tendo de ficar em casa entre 19h e 7h-
serviriam para traçar seu perfil sem incorrer em imprecisões. Ele foi irredutível.
"Prefiro que você erre do que falar sobre isso."
Negri falou à Folha, sobre "Império", por telefone, de sua casa,
em Roma. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Folha - Como podemos definir o império que dá título ao livro?
Antonio Negri - Quando se diz império, falamos da forma política do mercado
global. Não é possível imaginar um mercado sem um poder político que o atravesse.
O conceito de império se volta para evitar a confusão com imperialismo, que era uma
simples expansão do Estado-nação, enquanto o império é uma forma política que não
tem confins. E, sobretudo, não tem só forças localizadas, como o Estado-nação.
O império tem uma grande vantagem teórica, que foi ter mandado pelos ares os conceitos
de nação, raça, etnia. E até de povo.
Folha - O sr. acredita que as culturas locais possam ser aniquiladas pela
erradicação das fronteiras?
Negri - Não. Acho que o império as está esmagando, mas tenho também a
convicção de que essas culturas não possam se defender simplesmente insistindo sobre a
sua individualidade. Precisamos de novas formas de solidariedade internacional, de
culturas híbridas para abater o império.
Folha - Pelo que deve lutar, o que aspira o cidadão do império?
Negri - Capacidade de viver. As necessidades da vida cresceram muito. Entre o Negri
do passado e o Negri que agora escreve "Império" com Michael Hardt existe uma
diferença de gerações, em termos de necessidades, sensibilidades, capacidade de uso da
linguagem. Quando entramos no poder do capital sobre o real, criamos situações de
não-trabalho, de resistência, que possibilitam disparar contra o capital.
Folha - A greve ainda funciona?
Negri - Não falo de greve. Hoje seu cérebro é o instrumento da produção, não
foi seu patrão que o forneceu. Foi você quem criou. Antes, você ia trabalhar numa
fábrica e seu patrão antecipava o instrumento. Você não precisa mais disso: você
transita nessa globalidade, é alguém capaz de conquistar sua própria liberdade.
Folha - As manifestações que, nos últimos anos, acompanham os encontros ligados
ao capital global são sinais dessa liberdade?
Negri - Em parte. Principalmente quando pedem três coisas fundamentais: o direito
de cidadania global; uma garantia de salário que possibilite viver (e, paralelamente,
tudo o que está ligado à ecologia, à capacidade de respirar, comer bem); e, por fim, a
possibilidade de se apropriar dos instrumentos de transformações técnicas e
científicas mais altas.
Folha - Esses protestos são a semente de uma revolução global capaz de fazer
frente ao império?
Negri - Não sou um profeta, mas sei que há condições enormes que se reabriram
contra a globalização. A reorganização dos pobres e, acredito, até a luta de classes,
que foi superada, serão retomados no bojo desse movimento.
Isto posto, resta o problema fundamental que é aquele de como tudo isso poderá se
constituir em um pólo de luta pela transformação radical do que existe.
Acredito que os mecanismos de representação, aqueles da velha democracia burguesa (e
também do socialismo), devem ser, de algum modo, superados. É preciso substitui-los pela
expressão, vista como prática política contínua.
Folha - A ação do chamado terceiro setor e das organizações
não-governamentais, que chegam a suprir responsabilidades do Estado, institucionalizam
essa expressão?
Negri - Há nesses movimentos energias muito positivas, mas é preciso estar
atento, porque são instrumentos que suprem o que seriam carências do capital.
Em "Império", dizemos que muitas vezes essas organizações parecem as grandes
ordens mendicantes da Idade Média -os dominicanos, os franciscanos-, que, na prática,
faziam caridade. Ninguém pode negar sua generosidade, mas essas ordens cobriram as
necessidades imperiais. É mandatório retomar a riqueza coletiva e distribuí-la.
Folha - Uma das epígrafes do livro é uma frase da cantora Ani di Franco, que diz
que, sabendo usá-la, toda ferramenta é uma arma. Qual é nossa arma ideal?
Negri-A inteligência, essa ferramenta que todos nós temos. Temos o martelo no
cérebro. Temos uma arma que podemos utilizar. (Folha Online)
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