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Dirigentes
encerram a reunião marcada pelos protestos mais violentos dizendo-se dispostos a ouvir a
sociedade
GÊNOVA, ITÁLIA
- Sob pressão
dos protestos internacionais - às vezes violentos, como nos últimos dias nesta cidade
italiana -, os dirigentes do Grupo dos Oito países mais industrializados e da Rússia
(G-8) concluíram ontem sua reunião de cúpula em clima de mudança de rumos. Além de se
dizerem ''decididos a fazer a globalização funcionar para todos os cidadãos, e
especialmente os pobres do mundo'', os dirigentes de EUA, Alemanha, Grã-Bretanha,
França, Itália, Canadá, Japão e Rússia se declararam dispostos a ''uma ampla
associação com a sociedade civil e o setor privado'' e à instauração de ''um debate
público aberto sobre os desafios'' das sociedades.
Resumindo o clima de vontade de acabar com a imagem
de um clube fechado de poderosos indiferentes ao clamor das ruas, o presidente da França,
Jacques Chirac, disse que os países do G-8 precisam abrir diálogo com as organizações
não governamentais e outros ''cidadãos críticos'', pois representam ''uma forma de
democracia moderna ainda não vinculada firmemente ao sistema político existente'': ''As
questões às vezes são expressas de maneira demagógica ou simplista, mas representam
uma realidade profunda à qual os jovens são extremamente sensíveis'', disse.
Pobres - A morte do ativista
italiano Carlo Giuliani, de 23 anos, baleado por policiais sexta-feira, e a concentração
de mais de 150 mil pessoas nas ruas de Gênova - número bastante superior ao de
manifestantes nos primeiros protestos em Seattle, em 1999 - parecem ter contribuído de
forma decisiva para a inauguração de uma nova etapa das relações do G-8 com o resto do
mundo. E, para isso, os países pobres surgem como peças-chave nas discussões.
A mudança de orientação, na verdade,
foi iniciada na própria cúpula de Gênova. Ciente do clima tenso que o esperava, o
governo italiano convidou seis países em desenvolvimento, entre eles Nigéria, Bangladesh
e El Salvador, para participar dos debates. Foi um ato sem precedentes na história das
reuniões do grupo, iniciadas em 1975, na França, ainda sob a sigla de G-5.
Ampliação - O
primeiro-ministro canadense, Jean Chrétien, ressaltou que a convocação de países
pobres não significa ampliação do G-8. ''Se não nos tornaríamos G-50 ou G-189'',
ironizou Chrétien, referindo-se a uma antiga idéia de incluir países como a China no
grupo. O presidente francês fez questão de reiterar, no entanto, que ''se não falarmos
um com os outros, vivenciaremos apenas os problemas do processo de globalização.''
A polêmica abertura das reuniões a
países africanos, asiáticos e latino-americanos não veio sozinha. A aproximação com
as organizações não-governamentais (ONGs) também tem sido crescente. Ano passado, na
cúpula de Okinawa, no Japão, a pressão das ONGs levou à criação da Força-tarefa de
Oportunidade Digital, que objetiva democratizar o acesso à tecnologia computacional, e da
Força-tarefa de Energia Renovável, uma forma de estimular o uso de fontes de energia
limpas. Este ano foi o fundo anti-Aids e, para 2002, já foram lançadas as bases para a
criação de um fundo semelhante voltado para a educação.
Na contramão do aumento de
participação das ONGs, a presença de delegados na próxima cúpula será reduzida. Ao
divulgar documento de cinco páginas com as resoluções tomadas ao longo de três dias de
encontro, os líderes do G-8 reforçaram ontem a decisão de diminuir o atual número de
delegados de 2 mil para cerca de 350. A estratégia de procurar minimizar a repercussão
dos encontros passa até pelo lugar escolhido para abrigar os representantes do G-8. Será
a pequena e pacata Kananaskis, na província de Alberta, no Canadá. O difícil acesso,
pois está no topo das Montanhas Rochosas, asseguraria a tranqüilidade dos debates.
(Jornal do Brasil)
| Gênova faz o doloroso
balanço ARAUJO NETTO
ROMA - Hoje o governo italiano começa a
difícil prestação de contas dos três dias de fogo, destruição, pedradas, sangue e
morte provocados pela presença de líderes políticos de sete países muito ricos e da
Rússia. Na reunião do ministério desta manhã, o ministro do Interior, Claudio Scajola,
não terá dificuldades para convencer seus colegas de governo de que os 20 mil homens das
forças da ordem foram vítimas inocentes da violência dos antiglobalizadores. No fim da
tarde, diante do parlamento que o convocou para explicações, Scaloja quase certamente
repetirá o que ontem o primeiro-ministro Silvio Berlusconi afirmou numa entrevista
coletiva: que os esquemas de segurança para o G-8 de Gênova foram obra do precedente
governo de centro-esquerda.
Dificuldade maior o ministro Scajola - alvo de um pedido de demissão formulado pelos
parlamentares da Refundação Comunista e dos Verdes - encontrará para desfazer as
suspeitas (documentadas por filmes e fotografias) sobre o jogo duplo feito por vários
policiais que, em diversas ocasiões, travestidos de anarquistas vindos de outros países
europeus, agiram como provocadores de reações violentas da polícia.
Para os genoveses e o prefeito Giuseppe
Pericu, o acerto de contas mais importante é o que o governo nacional deve fazer com a
cidade devastada. Um primeiro balanço dos danos sofridos por Gênova estimou prejuízos
da ordem de US$ 20 a 30 milhões. Antes de voltar para Roma, Berlusconi assegurou ao
prefeito que o Estado se sente na obrigação de ressarcir no mínimo os prejuízos
materiais que sofreu - e que na reunião do conselho de ministros desta manhã seria
autorizado o pagamento de uma primeira parcela de US$ 7,5 milhões.
Balanço - Para evitar que a
promessa de Berlusconi caia no esquecimento, ontem mesmo o prefeito Pericu entregou ao
primeiro-ministro um balanço parcial das perdas registradas nos três dias em que
hospedou os poderosos do mundo. Foram 83 automóveis danificados, dos quais 24 queimados.
Inteira ou parcialmente destruídos: 41 lojas, 34 bancos, 9 agências de correios, 16
distribuidores de gasolina, 3 edifícios públicos (prisão, repartição do registro
civil, um palácio imperial); 4 edifícios residenciais; 22 recolhedores de lixo; 23
sinais de trânsito; 9 cabines telefônicas; seis cabines da companhia de ônibus; um
caminhão de reboque de carros; duas motocicletas da polícia municipal; todo o edifício
da motorização civil e uma central de avaliação do nível de poluição.
Sem falar nos mais de 650 feridos e em
mais de 300 presos feitos pela polícia, muitos dos quais se encontram ainda internados
nos hospitais ou detidos em prisões da cidade, completando os tratamentos necessários ou
à espera de investigações e processos judiciais. Presos que na maioria dos casos não
são italianos, mas cidadãos de 13 diferentes nacionalidades.
Forasteiros que os genoveses ontem
continuavam a amaldiçoar, mas que tudo indica serão impedidos de chegar a Roma, que nas
próximas 24 horas será a nova cidade blindada da Itália - pois desde ontem à tarde
está recebendo a visita de George W. Bush, sua mulher Laura e sua filha Barbara.
Visitantes que até ontem só conheciam a Roma que o cinema ou os cartões portais lhes
fizeram ver - mas que a partir das 9 desta manhã começarão a cumprir um programa de
visitas ao presidente Carlo Azeglio Ciampi, ao papa João Paulo II e ao primeiro-ministro
Silvio Berlusconi. (Jornal do Brasil)
As decisões
Tomar medidas para debelar a pobreza, especialmente na África, e ''fazer a globalização
funcionar''.
Direcionar US$ 3 bilhões para um novo fundo de saúde global das
Nações Unidas, para ajudar a luta contra a Aids, a malária e a tuberculose.
Lançar um plano detalhado de desenvolvimento da África.
Dar prosseguimento ao alívio da dívida dos países mais pobres.
Frisada a necessidade de cortar emissões de gás do efeito estufa,
apesar das divergências quanto ao Protocolo de Kyoto, que os Estados Unidos rejeitaram.
Adotado um plano de ação para diminuir a defasagem informática e
eletrônica entre países ricos e pobres.
Pressão para que israelenses e palestinos aceitem observadores
estrangeiros.
Pressão sobre as comunidades étnicas da Macedônia, enquanto
negociadores ocidentais tentam encontrar uma solução assegurando o futuro multi-étnico
do país.
Exortação às duas Coréias para que efetivamente realizem o
planejado segundo encontro entre o presidente sul-coreano Kim Dae-jung e seu colega
norte-coreano.
Os líderes concordam em que a desaceleração da economia mundial
tem sido mais acentuada que o esperado, mas consideram que há bases sólidas para o
crescimento. (Jornal do Brasil)
A repercussão
''Não seria uma profecia arriscada
dizer que a conferência do G-8 em Gênova terá sido o último show ritualístico,
pomposo e político do gênero. Os líderes dos países ricos são vítimas de suas
próprias produções exageradas.'' Bild am Sonntag, Alemanha
''A opinião pública não aceita mais
essas reuniões ou a violência que elas provocam, nem mesmo as decisões que tomam. É
com toda evidência uma fórmula a ser revista. Os militantes que convergem para essas
enormes reuniões globais estão, de fato, levantando questões sérias, às quais não se
pode responder apenas com a polícia.'' Le monde, França
''Os líderes dos países mais ricos do
mundo têm atraído a atenção da mídia apenas como causa da raiva dos manifestantes.
Precisam dar-se conta de que não há sentido em seguir promovendo encontros
internacionais sob assédio. Essas reuniões de cúpula em grande estilo são um símbolo
demasiado provocativo numa uma época em que as pessoas se sentem cada vez mais distantes
dos dirigentes políticos.'' The Independent on Sunday, Inglaterra
''As reuniões de cúpula têm a
vantagem de obrigar os líderes mundiais a prestar contas, de forçar mudanças e
assegurar que elas sejam cumpridas no prazo. Devem continuar, apesar da violência.'' Sunday
Times, Inglaterra
''É necessário punir os turistas
violentos. Mas isto não é suficiente. Talvez os oponentes pacíficos da globalização
tenham conquistado seu lugar na mesa dos oito grandes. O que também é necessário.'' Tagesspiegel,
Alemanha
''Uma cúpula do povo poderia aliviar
os reais temores a respeito da crescente globalização mundial. A menos que reconheçam
que os manifestantes genuinamente expressam a opinião e os interesses de milhões, os
líderes do G-8 só poderão esperar continuar perseguidos por manifestantes e arruaceiros
onde quer que se encontrem.'' Sunday Express, Inglaterra
''Para prevenir mais derramamento de
sangue, os principais países industrializados devem ouvir os mais fracos, deixados para
trás pela globalização.'' Asahi Shimbun, Japão
(Jornal do Brasil) |
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