Por Ana Maria Carlos
Giuseppe Verga nasceu em Catânia em 1840. Até 1865 viveu na Sicília,
exercendo a atividade de jornalista e de escritor, mas suas primeiras produções
literárias - Amore e Patria, I Carbonari della Montagna, Sulle Lagune - são ainda frutos
da formação romântica e liberal que recebera, toda uma série de romances históricos
nos moldes de Alexandre Dumas. De 1865 a 1871 viveu em Florença, quando entrou em contato
com um novo mundo literário, estabelecendo com o crítico e escritor Luigi Capuana,
também siciliano, uma grande amizade.
O período mais importante para sua carreira, porém, foram os anos que
passou em Milão (de 1872 a 1893), quando participou ativamente das discussões que se
estabeleciam nos meios intelectuais, das quais extraiu, junto de Capuana e de Felice
Cameroni, as idéias que norteariam o movimento verista. Participou também na época do
movimento denominado "Scapigliatura" (descomedimento, boêmia), nome extraído
do romance La Scapigliatura e il 6 Febbraio, de Cletto Arrighi, e que indicava o
comportamento dos jovens escritores que, contrários ao romantismo patriótico de
tradição burguesa, exaltavam a liberdade e propunham a união de indivíduos de todas as
classes sociais.
Os debates que se estabeleciam na época e que foram as raízes culturais
do Verismo versavam sobre o Positivismo e o Naturalismo franceses. Foi Capuana o primeiro
a propor na Itália, em diversos artigos e na esteira de Zola, que a obra de arte deveria
ser impessoal, sem a participação visível do autor. Como arte-documento, interessava
então ao romance somente a realidade contemporânea.
Ainda que os princípios fossem os mesmos, o Verismo destacou-se do
Naturalismo quanto ao objeto dessa observação impessoal e científica. Na Itália, o
momento social era tenso. A expansão econômica e a industrialização advindas do
progresso científico favoreciam apenas a burguesia urbana do norte do país e agravavam
cada vez mais a crise agrícola no sul, onde persistiam ainda relações de tipo feudal.
Assim, o objeto de análise para os veristas não será, como no Naturalismo, o
proletariado e a alta burguesia imersos numa crescente automatização do trabalho, mas o
ambiente de miséria e de atraso que a injustiça social provocara entre as populações
camponesas do sul da Itália.
E é dentro desse espírito de arte documental que veremos surgir as obras
mais originais e importantes de Giuseppe Verga. Depois de escrever alguns romances ainda
de caráter romântico e burguês (Una Peccatrice; Storia di una Capinera; Eva; Tigre
Reale; Eros), é com a novela "Nedda", de 1874, que Verga irá converter-se à
nova corrente literária, voltando sua atenção à região em que nascera, a Sicília.
Nessa nova orientação social e artística, será o porta-voz de uma classe em luta pelas
necessidades básicas da vida e, por isso, será denominado "poeta dos
humildes". Condizente com os preceitos veristas, considerava a literatura um
instrumento de conhecimento e de difusão da verdade, mas também um meio para o
enriquecimento cultural das classes "deserdadas".
Cenas de Vida Siciliana traz 18 novelas dessa fase em que Verga buscava
revelar os aspectos da realidade social dentro do princípio da objetividade. Na novela
"A amante de Gramigna" encontramos a idéia de literatura que passava então a
seguir, quase um depoimento de adesão aos preceitos veristas: "Quando no romance a
afinidade e a coesão de cada uma de suas partes for tão complexa que o processo da
criação permanecerá um mistério, como o desenrolar-se das paixões humanas, e a
harmonia das suas formas for tão perfeita, a sinceridade da sua realidade tão evidente,
seu modo e sua razão de ser tão necessários, que a mão do artista permanecerá
absolutamente invisível, então ele terá a marca do acontecimento real, a obra de arte
parecerá ter-se feito por si, ter amadurecido e ter surgido espontaneamente como um fato
natural, sem guardar nenhum ponto de contato com seu autor, nenhuma mácula do pecado de
origem" (p. 57).
E já que essa obra de arte pretende-se espontânea, feita por si mesma,
no plano lingüístico não poderia senão dar voz aos seres que buscava retratar. A
importante novidade que a obra de Verga implementa à literatura italiana é o uso direto,
sem a interferência da mão do autor, da língua regional, do dialeto. Segundo o crítico
Giorgio Bárberi Squarotti, "Verga vai além do dialetismo ocasional. No Malavoglia
temos, acima de tudo, um tom de dialeto dominando uma escritura totalmente italiana, da
qual emerge a 'forma interna' dialetal, condicionando mais a sintaxe do que o léxico e
criando algo inédito na tradição literária italiana - os provérbios, as metáforas, a
estrutura da frase, tudo se subordina à 'sicilianidade' da obra."
Se por um lado o intenso uso de provérbios colore com
"veracidade" a matéria narrada, por outro torna-se também o registro de uma
tradição que o progresso tende a abolir. Na luta pela preservação dessa
"linguagem e costume dos antigos" podemos ver refletida a luta pela
sobrevivência de toda uma classe social abandonada à própria sorte. Verga apresentará
na sua própria voz toda uma comunidade, sufocada pela miséria, de pastores, camponeses,
pescadores, mineiros. É uma sociedade primordial, rústica, que a batalha constante pela
sobrevivência faz aproximar do animal: "Era uma moça morena, maltrapilha; tinha o
ar tímido e áspero que a miséria e o isolamento conferem. Teria sido bonita se as
dificuldades e as fadigas não lhe tivessem alterado profundamente não apenas a suavidade
dos traços de mulher, mas diria até a forma humana" ("Nedda", p. 25).
Inúmeras são as ocorrências dessa aproximação homem/animal, há
sempre personagens que correm "como uma corsa assustada", que ganem ou mordem
"como um cão raivoso" ou que trabalham "como burro de carga" ou
"igual a búfalos ferozes". Exemplo bastante contundente, porém, desse tipo
verguiano de personagem, meio humano meio animal, encontramos na novela "A
loba", em que a protagonista é chamada por todos na aldeia de loba porque
"devorava" os homens. Por causa desse instinto selvagem incontrolável, de uma
insaciável natureza sensual, é levada a ter um destino trágico. Em meio a uma paisagem
árida, castigada pelo calor de agosto - que funciona na narrativa quase como causa da
exasperação dos sentimentos vividos pela protagonista - sobressai, do claro-escuro com
que é descrita a natureza circundante, o vermelho dos lábios da personagem.
Outras vezes, na comparação entre o animal e o homem, é o animal quem
irá adquirir um valor maior. Na novela "Jeli, o pastor", por exemplo, o
protagonista perde o ganha-pão porque um dos cavalos sob sua responsabilidade cai num
precipício e morre. O capataz, ao ver o que tinha sucedido, exclama enfurecido:
"Saia daí, seu desperdício! - gritou-lhe o capataz - que nem sei o que me segura
para não o deixar estirado aí no chão, do lado desse potro que valia muito, mas muito
mais do que você, apesar do batismo porco que um pilantra de padre lhe deu!" ( p.
93).
Anticlerical, como a maioria dos intelectuais de seu tempo, Verga
apresentará em sua obra padres corruptos, mancomunados com os poderosos. Na novela
"O padre" temos a descrição irônica de um padre preocupado em enriquecer e
bastante distante da religião: "Ele não pretendia ser um santo homem, ao
contrário! Os santos homens morriam de fome, como o vigário, que rezava a missa mesmo se
não o pagavam; e ia pelas casas dos miseráveis com uma batina esfarrapada que era um
escândalo para a religião. O padre queria ir para a frente; e ia, de vento em popa"
(p. 141). A raiz desse problema, porém, não escapa ao olhar atento de Verga. É a
lógica fatalista de uma sociedade em que só o mais forte sobrevive a promover a
corrupção dos valores: "O Padre, quando garoto, ao ver seu irmão, aquele da grande
lanterna, arrebentar as costas como lavrador e as irmãs, que não conseguiam marido nem
pagando, e a mãe, que fiava no escuro para economizar o óleo da lamparina, tinha dito: -
Eu quero ser padre!"(p. 142).
A biografia de Verga descreve-o como tendo sido um homem melancólico,
solitário e reservado.Vivendo o momento de transição, na Itália, do Idealismo
romântico do Risorgimento ao Positivismo, Verga decepciona-se ao ver que a revolução
que unificara seu país fora insuficiente para promover a igualdade social. Na novela
"Liberdade" ele descreveu uma revolução camponesa realmente acontecida em
agosto de 1860. Garibaldi havia emitido um decreto que previa a divisão dos bens
municipais. Enfurecidos pelo não cumprimento deste, uma vez que os proprietários de
terras na Sicília aliaram-se à burguesia do norte do país, as populações camponesas
rebelaram-se. "Vamos pegar você, padre do inferno! que sugou a nossa alma! - E
você, rico comilão! que nem pode fugir de tão gordo que ficou com o sangue dos pobres!
- E você, esbirro! que aplicou a justiça só contra quem não tinha nada! - E você
guarda florestal! que vendeu a sua carne e a carne do próximo a duas moedas por
dia!" (p. 171).
A revolta, porém, fora reprimida com extrema severidade: "Na cidade
fecharam-nos na grande prisão, alta e ampla como um convento, toda esburacada por janelas
com grades (...) E os coitados tornavam-se cada vez mais amarelos naquela sombra perene,
sem nunca entrever o sol" (p. 176). Cinco dos líderes da revolta foram fuzilados e,
após um processo que durou três anos, outros 25 foram condenados à prisão com
trabalhos forçados. A revolta, enfim, não mudara nada, não trouxera a esperada
liberdade: "O carvoeiro, enquanto o algemavam novamente, balbuciava: - Para onde me
levam? Para a prisão? Mas por quê? Não recebi nem um pedacinho de terra! Mas não
disseram que havia a liberdade!..." (p. 178).
Repudiando o meio em que vivia, de pessoas ricas e fúteis, Giuseppe Verga
criará uma obra perpassada por um sentimento de pessimismo e resignação. Descreverá,
com suas novelas, a luta dramática pela sobrevivência de uma população em que só o
mais forte está destinado a vencer e o mais fraco a sucumbir: "A miséria a esmagara
desde criança com todas as privações que deformam e endurecem o corpo, a alma e a
inteligência. Assim fora com a mãe, assim com sua avó, assim seria com sua filha"
(p. 26). Seus personagens, a ampla gama dos "vencidos", vivem dentro de uma
única religião que os subtrai àquela vida subumana: a "obstinação heróica"
em torno dos valores da terra, da casa, da família. É o "ideal da ostra", diz
o autor, "o tenaz apego daquela pobre gente ao rochedo sobre a qual a sorte os fez
cair (...) esta resignação corajosa a uma vida de miséria, esta religião de família,
que reverbera na profissão, na casa e nas pedras que a circundam" (p. 186). (Jornal
da Tarde)
CENAS DA VIDA SICILIANA, de
Giovanni Verga. Berlendis, 283 págs., R$ 29,00