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A arte solitária de Morandi

26/07/2001

 

 

Duas novas exposições em Londres reexaminam obra do ascético e misterioso pintor italiano

ALAN RIDING
 The New York Times

   LONDRES - Conseguir ser reconhecido como um artista preferido pelos artistas parece ser a maior das consagrações. No entanto, o elogio implica também o fato de que o pintor em questão não é assim tão conhecido, que a obra dele ou dela está ao alcance de poucos e que pode deixar perplexo o grande público. Giorgio Morandi certamente se enquadra nessa descrição. Durante sua vida, ele não correu atrás da fama. E desde suas morte, em 1964, ainda que louvado por alguns artistas e críticos como o mais importante pintor italiano do século 20, ele tem permanecido uma figura de importância marginal na história da arte moderna.

   Foi, é claro, uma opção sua ser um solitário, tanto na arte como na vida. Nascido na Bolonha em 1890, ele foi professor de gravura na Academia de Belas Artes da cidade entre 1930 e 1954. Quando jovem, percorreu a Itália estudando a arte renascentista, mas passou a maior parte da vida no isolamento do seu quarto-ateliê num apartamento na Via Fondazza de Bolonha ou na sua casa de veraneio em Grizzana. Solteiro durante sua vida inteira, num certo sentido ele nunca saiu de casa, já que esteve sempre cercado dos cuidados da mãe e, em seguida, das suas irmãs solteiras. Não é de admirar que um colecionador o tenha chamado de ''o monge Morandi''.

   Sua arte era ainda mais introspectiva do que ele. Depois de flertar na sua juventude, na década de 20, com o futurismo e a pintura metafísica, logo desviou sua atenção para as naturezas mortas representando jarras, vasos e garrafas que acabariam se tornando sua marca registrada. Também pintou 200 arranjos de flores e um número menor de paisagens, todas vistas da janela do seu estúdio, temas que, por sua vez, acabaram encontrando eco em suas gravuras e desenhos. Por quaisquer critérios, pode-se dizer que ele se repetiu interminavelmente. Mesmo assim, para os iniciados, suas naturezas mortas representam uma investigação constante e altamente original em torno da forma e da composição.

   Últimos anos - Agora duas novas exposições em Londres procuram levar sua arte a um público mais amplo. Giorgio Morandi, na Tate Modern até 12 de agosto, apresenta 40 pinturas e 17 desenhos, muitos deles produzidos nos últimos 20 anos de vida do artista. Giorgio Morandi - The collectors eye, na sede da coleção Estorick de pintura moderna italiana, também em Londres, exibe até o dia 26 de agosto doze telas da coleção do historiador de arte italiano Roberto Longhi, assim como 28 gravuras e desenhos comprados por Eric e Salome Estorick, colecionadores americanos cujos descendentes criaram, em 1998, este pequeno museu em Londres.

   Ao exibir estas obras, as duas exposições se revelam surpreendentemente diferentes. A mostra da Tate, que irá em seguida para Paris, inclui duas telas da fase metafísica da sua juventude e cinco paisagens, mas concentra o foco sobre o mistério das jarras das naturezas-mortas de Morandi. Oito artistas contemporâneos, entre eles Chuck Close e Robert Irwin, também prepararam comentários para o catálogo e para os painéis à mostra no museu com o objetivo de ajudar o público a apreciar sua obra. Já a Coleção Estorick, ao contrário, oferece um Morandi mais variado, exibindo cinco paisagens, cinco naturezas-mortas com flores e só duas das imagens mais familiares das jarras, vasos e garrafas. Seu catálogo também cita colecionadores que, como Longhi e Estorick, conheceram pessoalmente Morandi.

   Fascismo - Mas é problemática a tentativa de buscar respostas para arte de Morandi na sua vida. Alguns críticos têm procurado relacionar mudanças sutis no seu uso da cor com momentos importantes da sua carreira, mas o próprio artista se vangloriava de ter experimentado uma vida na qual ''nada aconteceu''. E acrescentou: ''Sou essencialmente um pintor do tipo que faz composições de natureza-morta, que comunicam uma sensação de tranqüilidade e privacidade, duas condições que sempre valorizei acima de todas as outras coisas''.

   De modo notável, mesmo sua ligação com o fascismo de Mussolini entre 1922 e 1943 parece não ter perturbado sua tranqüilidade. Em 1928, ele escreveu: ''Tive muita fé no fascismo, desde seus primórdios, fé que nunca diminuiu, nem mesmo nos momentos mais sombrios e tumultuados.'' O regime por sua vez aclamou sua arte como reafirmação dos valores eternos e como uma rejeição do internacionalismo decadente. E ainda assim, quando a Segunda Guerra acabou, Morandi emergiu com sua reputação intacta, conquistando até o prêmio de pintura da Bienal de Veneza de 1948.

   O reconhecimento público que se seguiu levou sua fama para além do pequeno círculo de colecionadores e ele até doou algumas telas para museus públicos, incluindo a tela Natureza-morta 1946, cedida à Tate Gallery. Até hoje é o único Morandi na coleção permanente da Tate. Mesmo tendo aumentado o ritmo da sua produção, ele permaneceu ''um artesão contemporâneo'', como escreve no catálogo Matthew Gale, curador da coleção da Tate.

   Espaços - ''Levo semanas para decidir que grupos de garrafas combinam com um determinado pano de mesa'', disse Morandi certa vez. ''E então preciso de mais algumas semanas para pensar sobre as próprias garrafas e ainda assim às vezes me engano sobre os espaços. Talvez eu trabalhe rápido demais.''

    Em relação às pinturas, ele realmente trabalhava rápido, como fica evidente pela confiança de suas pinceladas. Mas a preparação em si levava tempo. Ele montava suas próprias telas, fazia suas próprias tintas, tirava os rótulos das garrafas, enchia de tinta potes transparentes e então os esvaziava para lhes dar um aspecto opaco. Pintava outros vasos e permitia que a poeira se acumulasse sobre todos os objetos. Às vezes ele experimentava suas composições com lápis e papel, porém mais freqüentemente, apenas mudava os objetos de posição até ficar satisfeito. (Jornal do Brasil)

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