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De olho no orgulho de ser verbete

30/07/2001

Carlos Eduardo Barata

 

Dicionário das Famílias Brasileiras de Carlos Eduardo Barata e Cunha Bueno, Edição do Autor, dois volumes, 2.721 páginas.

Leticia Helena

   É um trabalho de peso: dois volumes, de quatro quilos cada, para contar a história de italianos, japoneses, portugueses, espanhóis, árabes e africanos que formaram a nação brasileiral. O segundo lançamento da série Dicionários de Famílias Brasileiras, de autoria do historiador Carlos Eduardo Barata e do deputado Cunha Bueno (PPB-SP), chega às livrarias contando as origens de 17,5 mil sobrenomes em 2.721 páginas. Uma obra de fôlego, mas ainda longe de abranger o universo nacional de sobrenomes.

   — Somando esses dois volumes com os dois que publicamos no ano passado, chegamos a, no máximo, 10% dos sobrenomes que temos em nossos bancos de dados. No ano que vem, vamos lançar mais cinco tomos. Com isso, chegaremos a uns 20% — diz Barata.

   Nesses 10%, estão figuras ilustres como o piloto Rubinho Barrichello, a atriz Ana Paula Arosio, ambos descendentes de imigrantes italianos, ou o apresentador Sílvio Santos, de origem judaica. Mas faltam outras celebridades, como o tenista Gustavo Kuerten e a modelo Gisele Bündchen, por exemplo. Na lista de anônimos, porém, o dicionário traz uma novidade: 1,6 mil famílias japonesas.

   — A colônia japonesa ficou muito orgulhosa. Para eles, estar nesse dicionário equivale a ser admitido como um cidadão brasileiro — observa o historiador.

   O orgulho da colônia se transformou em trabalho. Barata e Cunha Bueno preparam, para 2003, um dicionário listando as famílias japonesas que vieram para o Brasil. A obra terá, por exemplo, a lista de imigrantes por cada vapor que aportou por aqui. E não falta material de pesquisa.

   — As diversas colônias espalhadas pelo Brasil estão se mobilizando para arrumar documentos com as famílias de imigrantes. Até jornais japoneses fizeram reportagens sobre o dicionário e conclamaram a comunidade a ajudar na pesquisa para o volume sobre os imigrantes — conta Barata.

   Nos dois volumes que chegaram agora às livrarias, aparecem as famílias que vieram para o Brasil no século XX. Os dois primeiros livros listavam apenas as famílias que vieram para cá dos séculos XVI ao XIX, o que incluía portugueses e africanos. As famílias indígenas também eram citadas.

   Apesar de representarem um período restrito, os dois primeiros volumes foram um sucesso: venderam três mil cópias, a R$ 400 cada. Além disso, dois mil exemplares foram doados a bibliotecas e embaixadas brasileiras. Os autores conseguiram baratear a produção. Mais uma vez, uma parte da tiragem será doada a entidades públicas.

   Os dicionários já têm filhotes. Além da listagem das famílias japonesas, Barata trabalha numa coleção batizada de série municipal. Ele está recolhendo informações sobre as famílias de cidades do Vale do Paraíba (Vassouras, Valença, Pati de Alferes, Miguel Pereira, Paraíba do Sul) para edições regionais.

   A dupla de dicionaristas investe ainda num projeto eletrônico. Com auxílio de uma empresa de geoprocessamento de dados, Barata e Cunha Bueno preparam uma versão multimídia de todos os volumes de seus dicionários — o que inclui os cinco livros previstos para maio de 2002. Pela internet, será possível descobrir a origem de uma família, descobrir onde seus descendentes moram e, quem sabe, ver fotos. Um trabalho praticamente inédito no mundo: apenas na Itália existe uma consulta on-line.

   — Você digita o nome da família e aparecem os estados onde vivem descendentes. Clicando no estado, surgem os municípios e assim por diante. De cada cidade, citaremos informações geográficas e atrações turísticas. Será possível, por exemplo, descobrir que os Silva moram em Petrópolis, onde fica o Museu Imperial — conta Barata.

   Nos dois volumes de 2001, algumas famílias mereceram verbetes maiores. Foi o caso dos Gracie, dos Junqueira, dos Miranda Jordão e dos Magalhães. Os descendentes de armênios e libaneses também foram contemplados. Para 2003, será a vez dos italianos. Barata e Cunha Bueno já contrataram um consultor na Itália para descobrir a origem dos 30 mil sobrenomes italianos registrados em terras brasileiras. O objetivo é criar um elo entre o país de nascimento e o país de adoção.

   — As pessoas ficam envaidecidas quando abrem o dicionário e encontram seu sobrenome. O mais interessante é que nosso trabalho independe de classes sociais. É a verdadeira sociedade brasileira — brinca o historiador. (O GLOBO)

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