A morte de um jornalista pode
comover um país inteiro? Pode, se esse jornalista for como Indro Montanelli, uma espécie
de Barbosa Lima Sobrinho italiano, que acompanhou o século, entrevistou as personalidades
mais importantes do período, escreveu livros e romances, manteve por décadas uma coluna
diária em um dos mais importantes jornais do país, o Corriere della Sera, e tinha um
programa semanal na televisão. Montanelli morreu, em Milão, com 92 anos
extraordinariamente bem vividos.
Vinha de um tempo em que o exercício do jornalismo podia ser uma espécie
de aventura física. Cobriu a guerra na Abissínia e esteva na Guerra Civil espanhola.
Entrevistou Hitler, De Gaulle, Churchill e Golda Meir. Foi fascista convicto na juventude,
mas depois de ver as barbaridades cometidas pelo Exército italiano na África rompeu com
o regime. A independência lhe saiu cara, e quase cara demais. Foi parar na prisão.
Condenado à morte, escapou por pouco do fuzilamento. Compreensivelmente deixou de ser
fascista, mas não migrou para o extremo oposto. Converteu-se a um liberalismo de feição
independente. E independente se conservou ao longo da vida. Quando o atual
primeiro-ministro italiano ganhou as eleições, observou: "Berlusconi mente com uma
convicção que chega a ser comovente." Essa sinceridade, expressa em estilo sóbrio,
límpido, fazia da sua coluna, La Stanza di Montanelli, uma das seções mais lidas do
Corriere.
Há um Montanelli que foi praticamente ignorado nos necrológios: o
romancista, que, das suas primeiras experiências com a relatividade da política, tirou
um livro notável, Il Generale Della Rovere, adaptado para o cinema por Roberto Rosselini,
o pai do neo-realismo italiano. O filme fez sucesso de público e crítica e venceu em
1959 o Festival de Cinema de Veneza. No Brasil chamou-se De Crápula a Herói.
O papel principal é interpretado por Vittorio De Sica. Ele faz o general
Della Rovere do título original. Ou melhor, interpreta o impostor que se faz passar por
um herói da resistência, morto em 1943. Os alemães planejam substituir o partisan morto
por um farsante, para utilizá-lo como informante junto à resistência. De Sica é
Emmanuel Bertone, um escroque cheio de charme e nenhum dinheiro no bolso, que aceita a
missão. O encanto do filme resulta do jogo duplo encenado por Bertone. Ora parece um
sedutor interesseiro, ora um patriota convicto. Traindo, torna-se enfim um herói
verdadeiro. A história de Montanelli, levada ao cinema com simplicidade e rigor por
Rosselini, é uma daquelas belas reflexões sobre a natureza do heroísmo e da covardia em
situações-limites. Mote que também foi desenvolvido por Borges no conto Tema do Traidor
e do Herói, filmado por Bernardo Bertolucci.
Montanelli gostava de história e de política. Publicou muito em jornais,
mas também escreveu livros. Segundo seus críticos, as obras mais interessantes seriam
sua História de Roma e História da Grécia. Culto, universalista, independente, era
lógico que exprimisse, em sua Stanza, um certo desencanto com o século novo - justamente
o século em que a política parece chafurdar num infindável mar de lama (e não apenas
no Brasil), e o recurso à história, como fonte de ensinamento possível, é tido como
cada vez mais démodé.
Em entrevista publicada no Estado no ano passado, Montanelli constatava
que os grandes debates ideológicos haviam acabado. Dizia então: "No decorrer do
século que está terminando, existiram linhas de demarcação bem nítidas. Tudo o que se
passou em matéria de política foi determinado em relação ao marxismo. A favor ou
contra o marxismo. Desde a queda do marxismo não há mais debate ideológico, nem na
França, nem na Grã-Bretanha, nem na Alemanha.
E, na Itália, esquerda e direita constituem uma espécie de pântano no
qual os debates ocorrem apenas em torno de questões de poder. Falar de direita ou de
esquerda não tem mais o menor sentido."
Será? Em todo caso, Montanelli via com clareza que a política não era
mais conduzida segundo linhas de força ideológicas, mas de acordo com os preceitos do
marketing e da publicidade, o que configura um fenômeno absolutamente universal. Tendo a
política passado às mãos dos profissionais de marketing, não espanta que Silvio
Berlusconi tenha se tornado o homem mais poderoso da Itália. O premier parecia a
Montanelli um símbolo perfeito da época: "Acho que a sociedade atual exacerba o que
há de pior no homem: o arrivismo, o culto do poder e do dinheiro. Hoje o que é o êxito?
É tornar-se rico e poderoso. O fascínio exercido por Berlusconi sobre os italianos é
explicado assim: ele partiu do nada e conseguiu tornar-se rico e poderoso."
O ex-fascista Montanelli, condenado à morte por Mussolini, também não
foi poupado, décadas depois, pela extrema-esquerda. Nos anos 70, foi metralhado nas
pernas por membros das Brigadas Vermelhas. Não se deu por achado e visitou os agressores
na prisão. Vale a pena reproduzir seu depoimento sobre esse fato inusitado: "Fui
visitá-los na prisão, falei com eles, demos um aperto de mãos na saída, ajudei-os
financeiramente. Quando a guerra acaba, entre ex-adversários, há um aperto de mãos. Na
lógica dos terroristas de esquerda seu gesto foi, se é que posso dizer assim, normal.
Perguntei-lhes também quais eram os valores, as idéias que supostamente personifiquei e
pelas quais quiseram me punir. Perplexos, começaram a rir em vez de me responder. Jamais
confirmaram quem os enviara para me matar. Jamais se arrependeram. E acho isso muito
bonito. Odeio os arrependidos." (O ESTADO DE S. PAULO)