FRANCESCA
ANGIOLILLO
Se durante a concepção de "Abril Despedaçado" Walter Salles
girou a moenda para pôr o romance do albanês Ismail Kadaré no sertão brasileiro, agora
ele deve estar querendo é girar os ponteiros do relógio -para trás.
Explica-se: "Abril" recebeu o convite, há 15
dias, em NY, para participar da mostra competitiva do Festival de Veneza, que vai de 29 de
agosto a 8 de setembro.
Só que Salles, 45, esperava ter até 15 de setembro para finalizar "Bolandeira"
-a palavra, que designa uma roda usada em engenhos, dá nome do filme na Europa. Já
houve, em 1987, uma produção francesa com o título "Avril Brisé", dirigida
por Liria Bégéja e baseada no mesmo livro.
"E, por outro lado, "A Bolandeira" é o
título de um documentário do Vladimir Carvalho, não seria correto", explica
Salles.
A primeira exibição de "Abril" estava
programada para outubro (ou, quem sabe, novembro), em Los Angeles, na sede do American
Film Institute, que o convidou a participar da sessão especial que organiza mensalmente.
"Abril" já implicara um esforço conceitual
para Salles. "Normalmente, eu me sinto mais confortável nos territórios do
deslocamento, da errância, das questões do exílio geográfico ou afetivo."
"Com "Abril", estávamos no universo
oposto, essencialmente atávico e fabular. Os personagens lutam para escapar de um ciclo
inelutável, para se libertar do movimento circular da bolandeira. O menino diz, a uma
certa altura: "A gente é que nem os bois. Roda, roda e não sai nunca do
lugar"."
Walter Salles falou à Folha por telefone, de Paris,
onde está "virando as noites" para finalizar "Abril", co-produção
com França e Suíça. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.
Folha - Quando aconteceu o convite para competir em Veneza?
Walter Salles - Alberto Barbera [diretor do festival" foi a primeira pessoa a
ver o corte final do filme, 15 dias atrás, sem mixagem, sem créditos ou legendas. Foi
necessária uma tradução simultânea.
Folha - A seleção apressou a finalização do filme?
Salles - A finalização estava prevista para 15 de setembro, na melhor das
hipóteses. A nossa intenção era de mostrá-lo pela primeira vez a convite do American
Film Institute e, depois, em um festival no início do ano que vem.
O convite precipita as coisas. É como um bebê, agora, que deve nascer com sete meses. As
cinco semanas de mixagem terão de ser reduzidas pela metade. Os créditos,
interpositivos, internegativos, nada disso começou a ser feito. Vamos lutar para que o
filme fique pronto a tempo sabendo que, no final, talvez não seja possível.
Folha - E se não ficar?
Salles - O mais importante é preservar o filme. Uma alternativa seria apresentar
"Abril" em banda dupla, como aconteceu com "Amor à Flor da Pele", de
Wong Kar-wai, no ano passado, em Cannes, que tinha um crédito que dizia: "Este filme
está em fase final de pós-produção".
Folha - Quando deve ser a projeção em Veneza?
Salles - Sabendo da enorme pressão, o festival nos ofereceu a possibilidade de
passar o filme nos últimos dias de competição. É possível que "Abril" seja
mostrado na noite do dia 5.
Folha - A pressa pode afetar o resultado final?
Salles - Drummond dizia que escrever é saber cortar palavras. Cinema não é
muito diferente. É preciso tempo de decantação e é isso que nós não vamos ter aqui.
Normalmente, para essa etapa final são necessárias oito semanas. Nós só vamos ter
quatro.
Folha - A trilha sonora já está pronta? Como ela traduz a
aspereza que você dá à obra de Kadaré, levando-a ao sertão brasileiro?
Salles - A música acabou de ser gravada ontem, em São Paulo, e começa a ser
mixada hoje. Ela é o ponto de encontro entre os temas compostos por Antonio Pinto, Ed
Côrtes e Beto Villares, a rabeca de Siba, do conjunto Mestre Ambrósio, e sons secos e
dissonantes que vêm da pesquisa feita por Villares no interior do Brasil sobre cantos
populares.
Folha - Na edição, mudou algo da idéia original,
contemplativa?
Salles - O filme é feito de planos longos, com alguns momentos de forte
aceleração. Procurei investigar uma qualidade própria ao cinema mudo, que é a de fazer
com que cada plano de um filme ecoe no plano seguinte.
Tentamos fazer com que a imagem não fosse sublinhativa -ou seja, que não repetisse
aquilo que a dramaturgia já dizia. Procuramos, portanto, uma narrativa que não fosse
cronística e que se encontrasse, às vezes, mais próxima da poesia do que da prosa.
Neste momento, não tenho distanciamento suficiente para dizer se esta intenção deu
certo ou não. (FOLHA DE S. PAULO)
Confira os 20 indicados ao
Leão de Ouro (estadao.com.br)
Abril Despedaçado, Walter Salles, Brasil
Los Otros, Alejandro Amenábar,
Espanha/EUA
Quem Es Tu?, Joao Botelho, Portugal.
Luna Rossa, Antonio Capuano, Itália
Heung gong yau gok hor lei wood,
Fruit Chan, Hong Kong/França/Japão
Bully, Larry Clark, EUA
Y Tu Mama Tambien, Alfonso Cuarón,
México
Sauvage Innocence, Philippe Garrel,
França/Holanda
Eden, Amos Gitai,
França/Itália/Israel
Soochwieen Bodmyung, Kim Ki-duk,
Coréia do Sul
Waking Life, Richard Linklater, EUA
The Navigators, Ken Loach,
Inglaterra/Alemanha/Espanha
Monsoon Wedding, Mira Nair, Índia
How Harry Became a Tree, Goran
Paskaljevic, Irlanda/Itália/Inglaterra/França
Raye Makhfi, Babak Payami,
Irã/Itália
The Triumph of Love, Clare Peploe,
Itália/Inglaterra
Luce Dei Miei Occhi, Giuseppe
Piccioni, Itália.
L´Apres-Midi d´un Tortionnaire,
Lucian Pintilie, Romênia/França
Hundstage, Ulrich Seidl, Áustria
Loin, Andre Techine, França/Espanha