| O tabu da
Santa Sé
ROMA - A
proteção que hoje o Vaticano, a cúria e a diocese de Florença dão ao padre ruandense
Atanásio Bura Seromba não é um caso isolado na longa história da Igreja Católica.
Mesmo para o Estado italiano, sempre foi dificílimo ou impossível investigar, prender,
obter autorização para processar ou condenar qualquer cidadão do Vaticano, fosse figura
da alta hierarquia ou simples membro do clero italiano.
Até hoje, ninguém sabe ao certo como e por que o comandante da Guarda
Suíça, responsável pela segurança no Vaticano, Alois Estermann, sua mulher Gladys Meza
Romero e um subordinado foram encontrados mortos em seu apartamento, ao que tudo indica
vítimas de um homicídio passional. Impedida pela Concordata que disciplina as relações
da Itália com o Vaticano, a polícia italiana não pôde sequer iniciar uma
investigação sobre o misterioso caso daquele tríplice assassinato. O caso foi dado por
encerrado e arquivado com uma explicação pouco convincente: o coronel-comandante da
Guarda Suíça e sua mulher podem ter sido assassinados por um jovem cabo da Guarda
Suíça, o subordinado, que deve ter abusado das drogas naquela noite fria do começo de
1999.
Em outro caso em que a proteção do Vaticano funcionou com sucesso total, o
bispo americano e amigo pessoal de João Paulo II, monsenhor Paul Marcinkus, ex-diretor do
Instituto para Obras de Religião (conhecido como o Banco do Vaticano) não pode ser
processado pela justiça italiana. O Vaticano negou-se a extraditá-lo e a dois de seus
mais importantes conselheiros italianos - os financistas Luigi Mennini e Pellegrino de
Strobel, seriamente comprometidos com banqueiros da Máfia, com um grão-mestre de uma
loja maçônica e a falência do antigo Ambrosiano, maior banco católico da Itália - da
Cidade do Vaticano para Roma. (JORNAL DO BRASIL)
Duas irmãs contra ''a escória''
Freiras foram condenadas na
Bélgica por crimes contra a humanidade
Foi
no último dia 8 de junho. Irmã Gertrude foi condenada a 15 anos de prisão, irmã Maria
Kisito, a 12 anos. O cenário era um tribunal da Bélgica. O fato de as duas freiras
ruandenses estarem respondendo a processo tão longe de casa explica-se: desde 1993 a
Justiça belga dotou-se de ''competência universal'' para julgar crimes contra a
humanidade, independentemente do lugar onde tenham sido cometidos e da nacionalidade dos
acusados.
Gertrude, hoje com 42 anos, e Maria, com 37, foram condenadas porque se
encontravam em território belga, protegidas há anos pelas autoridades religiosas do
país - como agora acontece na Itália. Sete anos atrás, em abril de 1994, Gertrude era a
superiora de um convento beneditino perto da cidade ruandense de Butare, onde também
vivia Maria Kisito, quando milhares de camponeses da etnia tutsi chegaram, acossados pelas
milícias hutus conhecidas como interahamwe. Doze dias antes, o atentado que derrubou o
avião do presidente Juvenal Habyarimana desencadeara as perseguições dos hutus contra
os tutsis no país.
Gasolina - Em vez de darem abrigo aos refugiados, as duas freiras
acomodaram-nos numa garagem, receberam os milicianos - um dos quais irmão de Maria - e
entregaram a eles os botijões de gasolina com os quais 500 a 700 pessoas foram queimadas
vivas; dias depois, mais cerca de 600 refugiados foram massacrados.
Consolata Mukangango, nome verdadeiro de irmã Gertrude, e Julienne
Mukabutera, o de irmã Maria, operavam no convento de Sovu um tipo de crime que em outros
pontos do país sacerdotes e hierarcas da Igreja Católica também foram acusados de
cometer, pelo menos por omissão.
Mas o ódio étnico posto em prática permeava outros setores da sociedade.
Juntamente com as duas freiras, foram julgados na Bélgica um empresário e político e um
professor. Alphonse Higaniro, hoje com 51 anos, ex-ministro dos Transportes e das
Comunicações, próximo do círculo de poder que elaborou a ideologia do genocídio
contra os tutsis, dirigia na época uma fábrica de fósforos em Butare. Foi condenado a
20 anos de prisão por ter incitado aos massacres por escrito, por treinar milicianos
hutus e pelo assassinato de uma família inteira.
O professor
de física Vincent Ntzeimana, 39 anos, foi condenado a 12 anos de prisão por denunciar
colegas, levando ao assassinato de famílias inteiras, por ter matado duas pessoas com as
próprias mãos e por ter redigido os ''Dez Mandamentos dos Bahutus'', que já em 1990
pregavam o ''fim da piedade com os tutsis'' - um grupo étnico nacional ao qual irmã
Gertrude se referia como ''a escória''. (JORNAL DO BRASIL)
A lista negra de Atanásio
ROMA - Os crimes atribuídos a dom Atanásio Sumba Bura e identificados
pela associação African Rights estão documentados num dossiê de 30 páginas com
provas e testemunhos considerados irrefutáveis pelo Tribunal Penal Internacional da ONU
para Ruanda, que fica em Arusha, na Tanzânia. Quem os leu e examinou, como a procuradora
Carla del Ponte, definiu-os como ''páginas de horror absoluto''. Nelas, o padre católico
ruandense aparece tanto no papel de organizador como no de testemunha de alguns dos
massacres executados, entre abril e julho de 1994, pelos hutus radicais contra tutsis e
hutus moderados, quando ao todo cerca 500 a 800 mil pessoas foram assassinadas.
Como exemplo do comportamento de dom Atanásio, cita-se a chacina de duas mil
pessoas, muitas delas mulheres, crianças e anciãos, todos com fome e sede, convidados a
protegerem-se da perseguição das milícias dos mais violentos hutus (os temíveis
interahamwe) dentro de uma pequena igreja. Sem imaginar que estavam vivendo seus últimos
minutos de vida, as duas mil pessoas amontoaram-se no pequeno templo.
Muitos ainda estavam procurando um pedaço de chão para ocupar quando um
enorme trator deu início à destruição total e final das paredes, móveis, altares e de
quase toda a gente que tentava salvar-se da matança. Um espetáculo a que dom Atanásio -
segundo três sobreviventes e testemunhas da tragédia - assistia a poucos metros da
igreja desfeita e reduzida a pó pela máquina gigantesca.
Terror - Descrevendo aqueles momentos, as três testemunhas contaram:
''Uma grande parte de Ruanda era dominada pelo terror. Os ataques começaram em Kivumu no
dia 8 de abril de 1994. A gente fugia como podia. Mas as estradas principais e as
encruzilhadas eram ocupadas pelas milícias dos hutus radicais. O único modo de salvar-se
era procurar refúgio nas igrejas mais próximas. Não foi por acaso que muitos de nós
procuramos as paróquias de Nyange.''
O que essa gente ignorava, contou em seu depoimento o policial Adrien
Niyitegeka, era que tinha sido traçada uma estratégia maquiavélica para as paróquias
católicas. Durante uma reunião em que se discutiu um plano de segurança para a aldeia
de Nyange, em 13 de abril, na igreja do padre Atanásio, e com a total aprovação dele,
decidiu-se colocar a estratégia em prática. Padre Atanásio se comprometeu a sair pelas
ruas, convidando-os a abandonarem os esconderijos para se refugiarem na sua igreja:
''Venham, venham para fora. Não tenham medo. Vamos até a paroquia, ali vocês estarão
seguros.'' No inferno daquelas horas - concluiu o policial Adrien -, quem podia ou tinha
coragem de duvidar daquela promessa feita por um padre católico? (A.N.) (JORNAL DO
BRASIL) |