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Genocídio: Vaticano e governo italiano protegem ruandense

30/07/2001

 

 

ARAUJO NETTO

   ROMA - Nos últimos 30 dias, desde que a procuradora do Tribunal Penal Internacional para Ruanda, a suíça Carla del Ponte, criticou abertamente o governo italiano, que se recusa a entregar o padre Sumba Bura para ser julgado por genocídio, o sacerdote ruandense nunca mais foi visto pelos fiéis da igreja florentina.

   Os crimes atribuídos a dom Sumba Bura são ter ajudado milicianos da etnia hutu a matar no mínimo duas mil pessoas da etnia tutsi na paróquia de Nyange, em Ruanda; ter atirado em refugiados que tentavam fugir de casas e edifícios eclesiásticos; ter tomado a iniciativa de alugar e pagar tratores para demolir a igreja e esmagar todas as pessoas que nela se escondiam; ter entregado a assassinos profissionais diversos sobreviventes, muitos dos quais foram mortos em sua presença.

   Revoltada com a falta de colaboração de Roma, a procuradora Del Ponte - a mesma que obteve a extradição do ex-ditador iugoslavo Slobodan Milosevic para Haia - acusa as autoridades italianas de insistirem em não autorizar ''a prisão de um homem acusado de crimes inqualificáveis'', praticados entre abril e julho de 1994. Crimes que provocaram a fuga de um milhão 700 mil pessoas e a prisão de 130 mil.

   Mandado - A procuradora insiste em obter a prisão e extradição de dom Atanasio Sumba Bura, conforme tem dito aos jornais italianos: ''Espero mesmo que a Itália se decida a enfrentar suas responsabilidades internacionais, consentindo em cooperar com o Tribunal Penal Internacional para os crimes cometidos em Ruanda''.

   Até hoje, as autoridades italianas têm-se recusado a cumprir o mandado de prisão internacional contra o cidadão ruandense Sumba Bura, hoje com 39 anos, que também se identifica como Athanase Seromba, nome que usou antes de ser padre da Igreja Católica. O mandado resume quatro das mais graves acusações fartamente documentadas pela corte, que funciona em Arusha, na Tanzânia, contra o padre há muitos anos protegido pela cúria de Florença.

   A diplomacia e o governo da Itália não são os únicos que se demostram indiferentes e deixam sem respostas os pedidos de investigações e de licença para processar dom Atanasio Sumba Bura. Em 1999, a African Rights, organização criada para defender os povos e países da África contra violência e injustiças, fez chegar à Santa Sé uma carta pessoal ao papa João Paulo II em que documentava o desempenho cruel que o padre Sumba Bura teve nos genocídios de Ruanda. Até hoje, os dirigentes da African Rights continuam esperando uma resposta do Vaticano.

   Proteção - A única explicação que a cúria florentina, verdadeiro organismo de governo das igrejas e dos sacerdotes católicos em atividade na cidade de Florença, forneceu para o repentino desaparecimento de dom Sumba Bura é a de que na verdade ele apenas está se protegendo do cerco e dos ataques que diariamente jornalistas italianos e europeus vêm fazendo contra aquela que já foi uma anônima e silenciosa igreja de bairro. Porta-vozes da cúria florentina acrescentam que sabem onde dom Sumba Bura se encontra, mas só o diriam às autoridades italianas ou do Vaticano. Negam enfim que o padre ruandense tenha fugido, e insistem em assegurar que ele continua à disposição da diocese: teria feito dó uma oportuna retirada estratégica.

   Na tentativa de melhor explicar o verdadeiro significado do sumiço de dom Sumba Bura, o porta-voz do arcebispo de Florença, Riccardo Bigi, afirmou: ''Dom Atanasio apenas pediu para ser protegido do assalto de jornalistas e fotógrafos. A diocese não quer escondê-lo dos juízes, mas só ajudá-lo, segundo os deveres de hospitalidade.'' (JORNAL DO BRASIL)

O tabu da Santa Sé

   ROMA - A proteção que hoje o Vaticano, a cúria e a diocese de Florença dão ao padre ruandense Atanásio Bura Seromba não é um caso isolado na longa história da Igreja Católica. Mesmo para o Estado italiano, sempre foi dificílimo ou impossível investigar, prender, obter autorização para processar ou condenar qualquer cidadão do Vaticano, fosse figura da alta hierarquia ou simples membro do clero italiano.

   Até hoje, ninguém sabe ao certo como e por que o comandante da Guarda Suíça, responsável pela segurança no Vaticano, Alois Estermann, sua mulher Gladys Meza Romero e um subordinado foram encontrados mortos em seu apartamento, ao que tudo indica vítimas de um homicídio passional. Impedida pela Concordata que disciplina as relações da Itália com o Vaticano, a polícia italiana não pôde sequer iniciar uma investigação sobre o misterioso caso daquele tríplice assassinato. O caso foi dado por encerrado e arquivado com uma explicação pouco convincente: o coronel-comandante da Guarda Suíça e sua mulher podem ter sido assassinados por um jovem cabo da Guarda Suíça, o subordinado, que deve ter abusado das drogas naquela noite fria do começo de 1999.

   Em outro caso em que a proteção do Vaticano funcionou com sucesso total, o bispo americano e amigo pessoal de João Paulo II, monsenhor Paul Marcinkus, ex-diretor do Instituto para Obras de Religião (conhecido como o Banco do Vaticano) não pode ser processado pela justiça italiana. O Vaticano negou-se a extraditá-lo e a dois de seus mais importantes conselheiros italianos - os financistas Luigi Mennini e Pellegrino de Strobel, seriamente comprometidos com banqueiros da Máfia, com um grão-mestre de uma loja maçônica e a falência do antigo Ambrosiano, maior banco católico da Itália - da Cidade do Vaticano para Roma. (JORNAL DO BRASIL)


Duas irmãs contra ''a escória''

Freiras foram condenadas na Bélgica por crimes contra a humanidade

   Foi no último dia 8 de junho. Irmã Gertrude foi condenada a 15 anos de prisão, irmã Maria Kisito, a 12 anos. O cenário era um tribunal da Bélgica. O fato de as duas freiras ruandenses estarem respondendo a processo tão longe de casa explica-se: desde 1993 a Justiça belga dotou-se de ''competência universal'' para julgar crimes contra a humanidade, independentemente do lugar onde tenham sido cometidos e da nacionalidade dos acusados.

   Gertrude, hoje com 42 anos, e Maria, com 37, foram condenadas porque se encontravam em território belga, protegidas há anos pelas autoridades religiosas do país - como agora acontece na Itália. Sete anos atrás, em abril de 1994, Gertrude era a superiora de um convento beneditino perto da cidade ruandense de Butare, onde também vivia Maria Kisito, quando milhares de camponeses da etnia tutsi chegaram, acossados pelas milícias hutus conhecidas como interahamwe. Doze dias antes, o atentado que derrubou o avião do presidente Juvenal Habyarimana desencadeara as perseguições dos hutus contra os tutsis no país.

   Gasolina - Em vez de darem abrigo aos refugiados, as duas freiras acomodaram-nos numa garagem, receberam os milicianos - um dos quais irmão de Maria - e entregaram a eles os botijões de gasolina com os quais 500 a 700 pessoas foram queimadas vivas; dias depois, mais cerca de 600 refugiados foram massacrados.

   Consolata Mukangango, nome verdadeiro de irmã Gertrude, e Julienne Mukabutera, o de irmã Maria, operavam no convento de Sovu um tipo de crime que em outros pontos do país sacerdotes e hierarcas da Igreja Católica também foram acusados de cometer, pelo menos por omissão.

   Mas o ódio étnico posto em prática permeava outros setores da sociedade. Juntamente com as duas freiras, foram julgados na Bélgica um empresário e político e um professor. Alphonse Higaniro, hoje com 51 anos, ex-ministro dos Transportes e das Comunicações, próximo do círculo de poder que elaborou a ideologia do genocídio contra os tutsis, dirigia na época uma fábrica de fósforos em Butare. Foi condenado a 20 anos de prisão por ter incitado aos massacres por escrito, por treinar milicianos hutus e pelo assassinato de uma família inteira.

   O professor de física Vincent Ntzeimana, 39 anos, foi condenado a 12 anos de prisão por denunciar colegas, levando ao assassinato de famílias inteiras, por ter matado duas pessoas com as próprias mãos e por ter redigido os ''Dez Mandamentos dos Bahutus'', que já em 1990 pregavam o ''fim da piedade com os tutsis'' - um grupo étnico nacional ao qual irmã Gertrude se referia como ''a escória''. (JORNAL DO BRASIL)


A lista negra de Atanásio

   ROMA - Os crimes atribuídos a dom Atanásio Sumba Bura e identificados pela associação African Rights estão documentados num dossiê de 30 páginas com provas e testemunhos considerados irrefutáveis pelo Tribunal Penal Internacional da ONU para Ruanda, que fica em Arusha, na Tanzânia. Quem os leu e examinou, como a procuradora Carla del Ponte, definiu-os como ''páginas de horror absoluto''. Nelas, o padre católico ruandense aparece tanto no papel de organizador como no de testemunha de alguns dos massacres executados, entre abril e julho de 1994, pelos hutus radicais contra tutsis e hutus moderados, quando ao todo cerca 500 a 800 mil pessoas foram assassinadas.

   Como exemplo do comportamento de dom Atanásio, cita-se a chacina de duas mil pessoas, muitas delas mulheres, crianças e anciãos, todos com fome e sede, convidados a protegerem-se da perseguição das milícias dos mais violentos hutus (os temíveis interahamwe) dentro de uma pequena igreja. Sem imaginar que estavam vivendo seus últimos minutos de vida, as duas mil pessoas amontoaram-se no pequeno templo.

   Muitos ainda estavam procurando um pedaço de chão para ocupar quando um enorme trator deu início à destruição total e final das paredes, móveis, altares e de quase toda a gente que tentava salvar-se da matança. Um espetáculo a que dom Atanásio - segundo três sobreviventes e testemunhas da tragédia - assistia a poucos metros da igreja desfeita e reduzida a pó pela máquina gigantesca.

   Terror - Descrevendo aqueles momentos, as três testemunhas contaram: ''Uma grande parte de Ruanda era dominada pelo terror. Os ataques começaram em Kivumu no dia 8 de abril de 1994. A gente fugia como podia. Mas as estradas principais e as encruzilhadas eram ocupadas pelas milícias dos hutus radicais. O único modo de salvar-se era procurar refúgio nas igrejas mais próximas. Não foi por acaso que muitos de nós procuramos as paróquias de Nyange.''

   O que essa gente ignorava, contou em seu depoimento o policial Adrien Niyitegeka, era que tinha sido traçada uma estratégia maquiavélica para as paróquias católicas. Durante uma reunião em que se discutiu um plano de segurança para a aldeia de Nyange, em 13 de abril, na igreja do padre Atanásio, e com a total aprovação dele, decidiu-se colocar a estratégia em prática. Padre Atanásio se comprometeu a sair pelas ruas, convidando-os a abandonarem os esconderijos para se refugiarem na sua igreja: ''Venham, venham para fora. Não tenham medo. Vamos até a paroquia, ali vocês estarão seguros.'' No inferno daquelas horas - concluiu o policial Adrien -, quem podia ou tinha coragem de duvidar daquela promessa feita por um padre católico? (A.N.) (JORNAL DO BRASIL)

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