Retornar ao índice ItaliaOggi

Notizie d'Italia

 

Os diferentes olhares de Fellini sobre a mulher

02/08/2003

Sordi e Brunella em "O Abismo de um Sonho": tempo das fotonovelas

 

'Abismo de um Sonho' e 'Julieta...' representam momentos distintos em sua obra

LUIZ ZANIN ORICCHIO

  O lançamento em DVD de Abismo de Um Sonho e Julieta dos Espíritos permite flagrar dois momentos da abordagem de Federico Fellini ao "problema" da mulher. Os filmes pertencem, quase inútil dizer, a duas fases muito diferentes na carreira do próprio Fellini.

   Abismo de Um Sonho (Lo Seicco Bianco, no original) é, na verdade, o primeiro filme-solo de Fellini; antes ele havia feito Mulheres e Luzes, mas em parceria com Alberto Lattuada. Em seu registro autobiográfico, Fare un Film (Fazer Um Filme, editado aqui pela Civilização Brasileira) ele diz que foi apenas quando tentava colocar um pouco de ordem na filmagem de uma cena um pouco mais complicada de Abismo de Um Sonho, na praia, com muitos figurantes, atores geniosos, e até um camelo alugado a um zoológico, que se sentiu um diretor de cinema de verdade. Um ato inaugural, cumprido quando ele gritou "ação" e passou a sentir-se aquela espécie de deus menor que cria um universo para seu próprio divertimento e usufruto. Isso aconteceu em 1951.

   Em 1965, ano de Julieta dos Espíritos, ele era já nome consagrado. Aliás, isso é dizer pouco. Fellini era o grande nome do cinema italiano, um dos maiores da Europa e do mundo. Todos já haviam se habituado a esperar com ansiedade pelo novo lançamento de um diretor que já tinha dado ao mundo obras-primas como A Estrada da Vida, A Doce Vida, Noites de Cabíria e Oito e Meio.

   Nesse sentido, comparar um filme com o outro pode ser de grande interesse.

   Em Abismo de Um Sonho é possível falar de um estilo ainda hesitante, que mostra definição precisa em alguns pontos mas ainda se dilui em outros. Ou seja, Fellini ainda não era totalmente Fellini. Em Julieta dos Espíritos dá-se o contrário. Fellini já não era apenas um Fellini completo - era, talvez, um super-Fellini que, diziam seus críticos, usava e abusava do seu estilo, repetia-se, copiava-se e glosava-se. Por exemplo: não faltou quem classificasse Julieta dos Espíritos de simples "paródia de Oito e Meio".

   Coloquemos as coisas em perspectiva. Abismo de Um Sonho é do início dos anos 50. Naquele tempo, as fotonovelas eram uma das faces mais visíveis da ainda incipiente indústria cultural. Claro, havia o cinema, mas as moçoilas ainda sonhavam com aqueles heróis e heroínas das revistas, tais como o Xeque Branco de que fala o título original e é interpretado no filme por Alberto Sordi. De modo que não surpreende quando um casal da província vai passar a lua-de-mel em Roma e a recém-casada (Brunella Bovo) embarca numa aventura meio louca com seu ídolo, deixando o noivo (Leopoldo Trieste) na mão.

   A mulher aqui parece uma bonequinha meio doidivanas, cabeça nas nuvens, destinada a ser esposa fiel e mãe de família, mas dá um tropeço que poderia ter sido sério, caindo na rede de um gabiru como o ator mequetrefe vivido (magistralmente) por Alberto Sordi. Recupera-se a tempo, tudo se ajeita, conforme o desejo dos produtores, sempre em busca de finais felizes. Mas Fellini já insinua que há na vida da imaginação feminina muito mais do que pode sonhar a vã percepção dos homens.

   Delírios - Essa insinuação explode, literalmente, em Julieta dos Espíritos, filme, como sempre disse Fellini, concebido inteiro em torno de Giulietta Masina. Aqui, ela é a esposa de meia-idade, perseguida pelos fantasmas da infância, em especial pela educação católica e repressiva, e entra em crise ao pressentir que está perdendo o marido para uma amante jovem.

   É a primeira experiência de Fellini com cores e esse aspecto não é circunstancial nem negligenciável. Todo o filme se expõe numa paleta hipercolorida, lisérgica, francamente exagerada. Mesmo em cineasta da profusão, como Fellini, o tom causa estranheza. São cores berrantes, figurinos gritantes, atuações muitas vezes alguns degraus acima da escala média. Na ocasião, Fellini fazia suas experiências com o LSD, controladas por médicos. Estava também encantado com a teoria junguiana do inconsciente.

   Tudo isso conta para o resultado final.

   Mas, em meio ao caos, salta à vista o que procurou fazer: uma espécie de Oito e Meio feminino (quando não feminista), tendo Giulietta Masina por epicentro teórico. Teórico porque procura falar não de uma mulher em particular, embora tratasse daquela muito especial companheira de toda uma vida, mas do gênero feminino de maneira geral.

   Assim, a pudica Giulietta será exposta aos seus fantasmas pessoais, corporificados (e como!) na magnífica Suzy (Sandra Milo), a "outra" de Giulietta. Se esta é a dona de casa perfeita, aquela é a senhora dos instintos, sexo em estado puro, a prostituta cerimonial. Esse confronto, brutal, entre o sagrado e o profano, criou muitos inimigos para Fellini, principalmente no seio da Igreja católica, poderosa na Itália dos anos 60, mais ainda do que é hoje.

   Mesmo que se assista a esse filme com um pé atrás (excesso de psicanálise, sobrecarga simbólica, delírio de imagens, etc.) é impossível negar seu encanto. Na desordem aparente, tudo remete a tudo e todos os pontos se ligam com que por magia. A mulher relativamente simplória de Abismo de Um Sonho tornou-se um ser rico e misterioso, assediada por fantasias e significados que, no fundo, apenas ela tem condições de decodificar. A essa altura de sua vida, o mistério feminino apresentava-se a Fellini em toda a sua complexidade. É o tributo à mulher, por parte de um artista que idiotas da objetividade já classificaram como machista.

Abismo de Um Sonho (Lo Sceicco Bianco), Itália, 1952. Julieta dos Espíritos (Giulietta degli Spiriti), Itália, 1965. Versátil, R$ 42,90 cada um

(© O Estado de S. Paulo)


Roma prepara evento para lembrar Fellini

   Roma - Um evento em Roma vai lembrar os dez anos de morte do maior cineasta italiano Federico Fellini. Batizado de Romarcord, nome que mistura a capital italiana com o belíssimo Amarcord, filme de Fellini sobre sua infância em Rimini, o evento acontecerá entre setembro e dezembro. Fellini morreu em 31 de outubro de 1993. O Romarcord vai ter filmes do mestre, concertos musicais e mesas redondas. O logo do evento será desenhado pelo cartunista Milo Manara, de quem Fellini era admirador confesso. Para o prefeito de Roma, Walter Veltroni, “Fellini inventou um modo novo de contar Roma, ele era enamorado por esta cidade”.

   Tanto era um amante de Roma que, antes de filmar Amarcord, produziu um longa-metragem delirante e apaixonado em homenagem à cidade eterna. O nome do filme, claro, ficou Roma. Através de cenas aleatórias, algumas fantásticas e outras aparentemente sem sentido, o diretor comparou a Roma de sua época com a dos anos 70. Um lamento pela perda de parte do lirismo e da poesia que marcavam a Roma de outros tempos. (Ansa-AE)

(© estadao.com.br)

Para saber mais sobre:

Publicidade

Pesquise no Site ou Web

Google
Web ItaliaOggi

Notizie d'Italia | Gastronomia | Migrazioni | Cidadania | Home ItaliaOggi