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'Abismo de um Sonho' e 'Julieta...'
representam momentos distintos em sua obra
LUIZ ZANIN
ORICCHIO
O lançamento em DVD de Abismo de Um Sonho e
Julieta dos Espíritos permite flagrar dois momentos da abordagem de Federico Fellini ao
"problema" da mulher. Os filmes pertencem, quase inútil dizer, a duas fases
muito diferentes na carreira do próprio Fellini.
Abismo de Um Sonho (Lo Seicco Bianco, no
original) é, na verdade, o primeiro filme-solo de Fellini; antes ele havia feito Mulheres
e Luzes, mas em parceria com Alberto Lattuada. Em seu registro autobiográfico, Fare un
Film (Fazer Um Filme, editado aqui pela Civilização Brasileira) ele diz que foi apenas
quando tentava colocar um pouco de ordem na filmagem de uma cena um pouco mais complicada
de Abismo de Um Sonho, na praia, com muitos figurantes, atores geniosos, e até um camelo
alugado a um zoológico, que se sentiu um diretor de cinema de verdade. Um ato inaugural,
cumprido quando ele gritou "ação" e passou a sentir-se aquela espécie de deus
menor que cria um universo para seu próprio divertimento e usufruto. Isso aconteceu em
1951.
Em 1965, ano de Julieta dos Espíritos, ele
era já nome consagrado. Aliás, isso é dizer pouco. Fellini era o grande nome do cinema
italiano, um dos maiores da Europa e do mundo. Todos já haviam se habituado a esperar com
ansiedade pelo novo lançamento de um diretor que já tinha dado ao mundo obras-primas
como A Estrada da Vida, A Doce Vida, Noites de Cabíria e Oito e Meio.
Nesse sentido, comparar um filme com o outro
pode ser de grande interesse.
Em Abismo de Um Sonho é possível falar de um
estilo ainda hesitante, que mostra definição precisa em alguns pontos mas ainda se dilui
em outros. Ou seja, Fellini ainda não era totalmente Fellini. Em Julieta dos Espíritos
dá-se o contrário. Fellini já não era apenas um Fellini completo - era, talvez, um
super-Fellini que, diziam seus críticos, usava e abusava do seu estilo, repetia-se,
copiava-se e glosava-se. Por exemplo: não faltou quem classificasse Julieta dos
Espíritos de simples "paródia de Oito e Meio".
Coloquemos as coisas em perspectiva. Abismo de
Um Sonho é do início dos anos 50. Naquele tempo, as fotonovelas eram uma das faces mais
visíveis da ainda incipiente indústria cultural. Claro, havia o cinema, mas as moçoilas
ainda sonhavam com aqueles heróis e heroínas das revistas, tais como o Xeque Branco de
que fala o título original e é interpretado no filme por Alberto Sordi. De modo que não
surpreende quando um casal da província vai passar a lua-de-mel em Roma e a recém-casada
(Brunella Bovo) embarca numa aventura meio louca com seu ídolo, deixando o noivo
(Leopoldo Trieste) na mão.
A mulher aqui parece uma bonequinha meio
doidivanas, cabeça nas nuvens, destinada a ser esposa fiel e mãe de família, mas dá um
tropeço que poderia ter sido sério, caindo na rede de um gabiru como o ator mequetrefe
vivido (magistralmente) por Alberto Sordi. Recupera-se a tempo, tudo se ajeita, conforme o
desejo dos produtores, sempre em busca de finais felizes. Mas Fellini já insinua que há
na vida da imaginação feminina muito mais do que pode sonhar a vã percepção dos
homens.
Delírios - Essa insinuação explode,
literalmente, em Julieta dos Espíritos, filme, como sempre disse Fellini, concebido
inteiro em torno de Giulietta Masina. Aqui, ela é a esposa de meia-idade, perseguida
pelos fantasmas da infância, em especial pela educação católica e repressiva, e entra
em crise ao pressentir que está perdendo o marido para uma amante jovem.
É a primeira experiência de Fellini com
cores e esse aspecto não é circunstancial nem negligenciável. Todo o filme se expõe
numa paleta hipercolorida, lisérgica, francamente exagerada. Mesmo em cineasta da
profusão, como Fellini, o tom causa estranheza. São cores berrantes, figurinos
gritantes, atuações muitas vezes alguns degraus acima da escala média. Na ocasião,
Fellini fazia suas experiências com o LSD, controladas por médicos. Estava também
encantado com a teoria junguiana do inconsciente.
Tudo isso conta para o resultado final.
Mas, em meio ao caos, salta à vista o que
procurou fazer: uma espécie de Oito e Meio feminino (quando não feminista), tendo
Giulietta Masina por epicentro teórico. Teórico porque procura falar não de uma mulher
em particular, embora tratasse daquela muito especial companheira de toda uma vida, mas do
gênero feminino de maneira geral.
Assim, a pudica Giulietta será exposta aos
seus fantasmas pessoais, corporificados (e como!) na magnífica Suzy (Sandra Milo), a
"outra" de Giulietta. Se esta é a dona de casa perfeita, aquela é a senhora
dos instintos, sexo em estado puro, a prostituta cerimonial. Esse confronto, brutal, entre
o sagrado e o profano, criou muitos inimigos para Fellini, principalmente no seio da
Igreja católica, poderosa na Itália dos anos 60, mais ainda do que é hoje.
Mesmo que se assista a esse filme com um pé
atrás (excesso de psicanálise, sobrecarga simbólica, delírio de imagens, etc.) é
impossível negar seu encanto. Na desordem aparente, tudo remete a tudo e todos os pontos
se ligam com que por magia. A mulher relativamente simplória de Abismo de Um Sonho
tornou-se um ser rico e misterioso, assediada por fantasias e significados que, no fundo,
apenas ela tem condições de decodificar. A essa altura de sua vida, o mistério feminino
apresentava-se a Fellini em toda a sua complexidade. É o tributo à mulher, por parte de
um artista que idiotas da objetividade já classificaram como machista.
Abismo de Um Sonho (Lo Sceicco Bianco), Itália, 1952.
Julieta dos Espíritos (Giulietta degli Spiriti), Itália, 1965. Versátil, R$ 42,90 cada
um
(© O Estado de S. Paulo)
Roma
prepara evento para lembrar Fellini
Roma - Um evento em Roma vai
lembrar os dez anos de morte do maior cineasta italiano Federico Fellini. Batizado de
Romarcord, nome que mistura a capital italiana com o belíssimo Amarcord, filme de
Fellini sobre sua infância em Rimini, o evento acontecerá entre setembro e dezembro.
Fellini morreu em 31 de outubro de 1993. O Romarcord vai ter filmes do mestre, concertos
musicais e mesas redondas. O logo do evento será desenhado pelo cartunista Milo Manara,
de quem Fellini era admirador confesso. Para o prefeito de Roma, Walter Veltroni, Fellini
inventou um modo novo de contar Roma, ele era enamorado por esta cidade.
Tanto era um amante
de Roma que, antes de filmar Amarcord, produziu um longa-metragem delirante e
apaixonado em homenagem à cidade eterna. O nome do filme, claro, ficou Roma.
Através de cenas aleatórias, algumas fantásticas e outras aparentemente sem sentido, o
diretor comparou a Roma de sua época com a dos anos 70. Um lamento pela perda de parte do
lirismo e da poesia que marcavam a Roma de outros tempos. (Ansa-AE)
(© estadao.com.br)
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