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Cartas de Anchieta voltam de Roma

02/08/2003

Fachada do Pátio do Colégio fundado por José de Anchieta e Manoel da Nóbrega, em 1554  Monica Zarattini/AE – 1/6/1999

 

Mostra vai exibir, pela primeira vez, 28 textos do jesuíta, fundador da cidade

LUIZ ROBERTO DE SOUZA QUEIROZ

   Quatro séculos e meio depois de terem sido escritas no recém-construído colégio de São Paulo, tão humilde que em vez de telhas era coberto de sapé, as 28 cartas que restaram, escritas pelo padre José de Anchieta, vão voltar pela primeira vez ao Brasil, para uma rápida exposição de apenas 30 dias, em janeiro do ano que vem. Quem vai buscá-las nos Arquivos Históricos da Companhia de Jesus, em Roma, é o diretor do Memorial do Pátio do Colégio, o jesuíta José Maria Fernandes, mas, antes mesmo da montagem da exposição, as cartas já acirram todas as discussões históricas, religiosas, médicas, científicas e até patrióticas que dizem respeito ao Apóstolo de São Paulo.

   Para os jesuítas atuais, os relatos de Anchieta são uma das indicações de que a fundação de São Paulo, tão isolado do litoral, faria parte da construção da "utopia" imaginada por Inácio de Loyola, que teria sonhado uma sociedade teocrática, sem os vícios da civilização portuguesa, espécie de república socialista católica, onde fossem reunidos os índios, sob governo dos padres.

   "A prova da importância do projeto é que em 1554 há 18 jesuítas em São Paulo, enquanto apenas 2 no colégio da Bahia, muito mais antigo", lembra o padre Fernandes. Outra prova seria a "Entrada" precoce de Nóbrega que, muito antes de qualquer bandeirante, penetra fundo no sertão acompanhando o Tietê e vai até Maniçoba, guiado por um mameluco, André, filho mais velho de João Ramalho. Maniçoba seria hoje Itu, mas a historiadora Nina Lomonaco, que prepara a exposição, discorda, e abre-se mais uma discussão.

   As cartas de Anchieta geram outras disputas. Se não há dúvida que São Paulo foi fundada no Pátio do Colégio, por que o Marco Zero da cidade está na Praça da Sé? Os jesuítas gostariam de mudá-lo para as ruínas da parede de taipa, testemunho de uma das quatro construções que se sucederam no local, ao longo dos séculos. Também os pesquisadores do Instituto Butantã estão entusiasmados com a vinda das cartas de Anchieta, das quais vários parágrafos serão incluídos na maior obra sobre ofídios jamais escrita no Brasil, a ser publicada também no ano que vem. Para eles, Anchieta é o primeiro naturalista brasileiro e um observador científico preciso, pelo "conteúdo médico-sanitário e ambiental de suas cartas".

   "Na carta de maio de 1560, Anchieta descreve o efeito hemorrágico do veneno da jararaca, identifica a peçonha neurotóxica da cascavel como responsável pela visão dupla das vítimas da picada daquela cobra e acertadamente indica a coral como a cobra mais rara e ainda explica que é subterrânea", fatos só comprovados cientificamente no século 20, explica o médico João Luiz Cardoso, do Hospital Vital Brazil, do Butantã.

   Muito mais impressionante, porém, é a reclamação de Anchieta em relação à nomenclatura tupi. Séculos antes de Lineu, ele escreve que "seria difícil exprimir por palavras as diversas espécies de formigas que são de várias naturezas e nomes, porque na língua brasílica é comum dar nomes diversos a espécies diversas, e raras vezes se nomeiam os gêneros por nome próprio". O padre achava complicado que içá, tocandira, caiapó, sabitu e tanajura, por exemplo, não tivessem um prefixo indicando que todas eram formigas.

   Também para os médicos, o testemunho de Anchieta é extremamente importante, pois ele é um dos jesuítas que descrevem as violentíssimas epidemias de varíola que na Bahia, por exemplo, chegam a matar mais de 7 mil, dos 8 mil índios de uma aldeia em poucos dias. E, embora os padres tentassem curar quase toda doença com sangrias, recurso usual na época, já identificam a origem européia das epidemias e a forma do contágio, pois registram que a doença teria vindo numa nau que aportou na Bahia.

   Seria, porém, efetivamente varíola? Se fosse, segundo os médicos atuais, Anchieta não teria podido curar tão rapidamente a tantos doentes, cujas pústulas furava com um alfinete, apesar do mau cheiro que se exalava das feridas. Para os defensores da canonização de Anchieta, seria varíola efetivamente e essas curas seriam realmente a prova de que era um santo, estariam entre os primeiros milagres. O tema voltará a ser discutido em dezembro. A Associação Pró-Canonização de Anchieta, dirigida pelo padre César Augusto dos Santos, vai reeditar os dez volumes da história da Companhia de Jesus, do padre Serafim Leite, publicada a partir de 1938.

   Reação - A exposição não é saudada por todos, porém. A importante comunidade portuguesa, mais de 100 mil pessoas apenas em São Paulo, teme que a mostra reforce o que consideram um erro histórico, que Anchieta, um canarino, portanto espanhol de nascimento, teria sido o fundador de São Paulo. Eles lembram que quando o coleginho foi construído em Piratininga, Anchieta tinha apenas 19 anos e não fora sequer ordenado. O verdadeiro fundador da cidade foi Manoel da Nóbrega, superior dos jesuítas no Brasil e quem decidiu pela construção do colégio. E a pressão que os portugueses fizeram foi tamanha que, para apaziguá-los, há alguns anos os jesuítas concordaram em mandar fundir um busto do padre Nóbrega o qual, com muita festa, foi instalado também no Pátio do Colégio, onde agora Anchieta não está mais sozinho.

   Apesar de efetivamente não ter sido o fundador da cidade, ninguém discute que Anchieta foi muito mais do que o Apóstolo de São Paulo. Tendo chegado ao Brasil para morrer - o laudo médico feito em Coimbra punha em dúvida se chegaria vivo ao Brasil, pois sofria possivelmente de tuberculose óssea -, o então irmão Anchieta recuperou-se, estudou tão arduamente que em três meses passou a dominar o tupi, que outros padres não aprenderam em dez anos, escreveu a gramática para ensinar essa língua e dormia apenas duas horas por noite, no afã de multiplicar à mão as cópias da gramática tupi, que eram enviadas a Portugal. O objetivo ambicioso era fazer com que os novos padres que viessem, já não fossem jejunos na "língua brasílica".

   Mais importante, porém (enquanto a maioria dos padres via o Demônio em tudo, abominava os costumes dos índios, perseguia os pajés, se horrorizava com o consumo de carne humana pelos tupis e lutava para eliminar a poligamia arraigada na cultura), Anchieta revela-se profundamente tolerante, quer conhecer e mesmo absorver os conhecimentos dos índios e busca aculturá-los de outra forma.

   O exemplo é uma criança enterrada viva pela mãe, uma índia, logo após o parto. Não há registro de reação exacerbada por parte de Anchieta. Ele cava a terra, recupera a criança já quase sufocada, pede às outras índias, mas não à mãe, que a amamentem, suporta as piadas segundo as quais tinha tido um filho, embora não tivesse mulher, e mantém o recém-nascido vivo por vários dias, mas não consegue que sobreviva. Da mesma forma, ele comprova que os índios não eram meros canibais, mas consumiam a carne humana em rituais de antropofagia com conotação religiosa, e descreve como alguns prisioneiros que seriam sacrificados e devorados se revoltam quando os padres tentam evitar sua morte. Esse conhecimento é o primeiro passo para eliminar o costume, o que realmente os padres conseguem em tempo relativamente curto.

   Internet - Essa aceitação da cultura dos índios teria sido mais fácil para Anchieta porque ele chegou muito jovem ao Brasil e com o espírito aberto, aventa o padre Fernandes. E as cartas, repositório imenso sobre os primeiros anos do Brasil, são uma obrigação que ainda hoje os jesuítas têm. Cada jesuíta deve escrever para Roma todos os anos, dando contas do que vivenciou, dos principais acontecimentos e padre Fernandes diz que "isso era a internet da época; as cartas eram enviadas ao superior, multiplicadas e distribuídas entre as missões jesuítas do mundo inteiro; dessa forma, uma maneira de evangelizar que deu certo com os índios brasileiros, as peças teatrais com motivos sacros de Anchieta, por exemplo, eram levadas ao conhecimento dos jesuítas da África, que poderiam adotar o método".

   Em sua carta mais famosa, datada do "fim do mês de maio do Ano do Senhor de 1560", e que é considerado o primeiro documento sobre História Natural da América Portuguesa, Anchieta descreve impressionado o efeito do óleo da copaíba (Copaifera officinalis), hoje industrializado como medicamento: "escorre a princípio como óleo por orifícios abertos pelo caruncho... e é muitíssimo próprio para curar feridas, de maneira que em pouco tempo nem sinal fica da cicatriz". O mesmo texto descreve pela primeira vez a piracema, "há então as enchentes dos rios e as grandes inundações dos campos, tempo em que com pouco trabalho se toma entre as ervas grande quantidade de peixes que saem dos leitos dos rios para pôr os ovos".

   A carta registra a observação do solstício de verão, "aos 13 de dezembro, o sol chega a Piratininga completando o seu curso, dia que é o mais comprido, em que não há nenhuma inclinação das sombras, tem 14 horas e não passa mais para o Sul, mas torna a voltar para o Norte". Curiosa a descrição da "caapivára, isto é, 'que pasta erva', não muito diferente dos porcos, de cor tirante a ruivo, dente como os da lebre, exceto os molares, parte dos quais se fixam nas mandíbulas, parte no meio do céu da boca". Também detalhada a descrição da jararaca, "cuja mordedura mata no espaço de vinte e quatro horas..." e o registro da formação de anticorpos que conferem a imunidade, base dos atuais soros antiofídicos: "E acontece entre os índios que, se são mordidos e escapam à morte e tornam a ser mordidos, não só não correm perigo de vida, mas também sentem menos dor."

   Com precisão, o padre Anchieta descreve o tamanduá, "a cabeça pequena muito desproporcionada ao tamanho do corpo, a boca redonda, da medida de um ou quando muito de dois anéis, a língua estirada com três palmos de comprimento na porção que pode deitar fora". E garante: "que eu medi." Mostrando ser observador acurado, Anchieta descreve como os bandos de andorinhas comem milhões de içás, quando as formigas aladas saem do sauveiro para acasalar e garante que "deste modo sucede que muito poucas escapam", desmentindo antecipadamente Saint Hilaire, que séculos depois se impressionaria tanto com o número de içás, que diria "ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil".

   Apesar de sua tentativa de precisão científica, a famosa carta termina com uma afirmação não comprovada. Ele descreve seriamente o Curupira, "que muitas vezes no mato acomete os índios e os ferem com açoites, atormentam e matam e disto são testemunhas os nossos irmãos que viram algumas vezes os mortos por eles". Até nesse caso, porém, indica a solução dada pelos índios os quais, quando "por montes íngremes vão ao sertão, ao passar no cimo do monte mais alto, costumam deixar penas de aves, abanos, flechas, rogando-lhes muito que lhes não faça mal".

(© O Estado de S. Paulo)

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