Mostra vai exibir, pela primeira vez, 28 textos do jesuíta, fundador da
cidade
Quatro séculos e meio depois de terem sido escritas no
recém-construído colégio de São Paulo, tão humilde que em vez de telhas era coberto
de sapé, as 28 cartas que restaram, escritas pelo padre José de Anchieta, vão voltar
pela primeira vez ao Brasil, para uma rápida exposição de apenas 30 dias, em janeiro do
ano que vem. Quem vai buscá-las nos Arquivos Históricos da Companhia de Jesus, em Roma,
é o diretor do Memorial do Pátio do Colégio, o jesuíta José Maria Fernandes, mas,
antes mesmo da montagem da exposição, as cartas já acirram todas as discussões
históricas, religiosas, médicas, científicas e até patrióticas que dizem respeito ao
Apóstolo de São Paulo.
Para os jesuítas atuais, os relatos de Anchieta são uma das indicações
de que a fundação de São Paulo, tão isolado do litoral, faria parte da construção da
"utopia" imaginada por Inácio de Loyola, que teria sonhado uma sociedade
teocrática, sem os vícios da civilização portuguesa, espécie de república socialista
católica, onde fossem reunidos os índios, sob governo dos padres.
"A prova da importância do projeto é que em 1554 há 18 jesuítas
em São Paulo, enquanto apenas 2 no colégio da Bahia, muito mais antigo", lembra o
padre Fernandes. Outra prova seria a "Entrada" precoce de Nóbrega que, muito
antes de qualquer bandeirante, penetra fundo no sertão acompanhando o Tietê e vai até
Maniçoba, guiado por um mameluco, André, filho mais velho de João Ramalho. Maniçoba
seria hoje Itu, mas a historiadora Nina Lomonaco, que prepara a exposição, discorda, e
abre-se mais uma discussão.
As cartas de Anchieta geram outras disputas. Se não há dúvida que São
Paulo foi fundada no Pátio do Colégio, por que o Marco Zero da cidade está na Praça da
Sé? Os jesuítas gostariam de mudá-lo para as ruínas da parede de taipa, testemunho de
uma das quatro construções que se sucederam no local, ao longo dos séculos. Também os
pesquisadores do Instituto Butantã estão entusiasmados com a vinda das cartas de
Anchieta, das quais vários parágrafos serão incluídos na maior obra sobre ofídios
jamais escrita no Brasil, a ser publicada também no ano que vem. Para eles, Anchieta é o
primeiro naturalista brasileiro e um observador científico preciso, pelo "conteúdo
médico-sanitário e ambiental de suas cartas".
"Na carta de maio de 1560, Anchieta descreve o efeito hemorrágico do
veneno da jararaca, identifica a peçonha neurotóxica da cascavel como responsável pela
visão dupla das vítimas da picada daquela cobra e acertadamente indica a coral como a
cobra mais rara e ainda explica que é subterrânea", fatos só comprovados
cientificamente no século 20, explica o médico João Luiz Cardoso, do Hospital Vital
Brazil, do Butantã.
Muito mais impressionante, porém, é a reclamação de Anchieta em
relação à nomenclatura tupi. Séculos antes de Lineu, ele escreve que "seria
difícil exprimir por palavras as diversas espécies de formigas que são de várias
naturezas e nomes, porque na língua brasílica é comum dar nomes diversos a espécies
diversas, e raras vezes se nomeiam os gêneros por nome próprio". O padre achava
complicado que içá, tocandira, caiapó, sabitu e tanajura, por exemplo, não tivessem um
prefixo indicando que todas eram formigas.
Também para os médicos, o testemunho de Anchieta é extremamente
importante, pois ele é um dos jesuítas que descrevem as violentíssimas epidemias de
varíola que na Bahia, por exemplo, chegam a matar mais de 7 mil, dos 8 mil índios de uma
aldeia em poucos dias. E, embora os padres tentassem curar quase toda doença com
sangrias, recurso usual na época, já identificam a origem européia das epidemias e a
forma do contágio, pois registram que a doença teria vindo numa nau que aportou na
Bahia.
Seria, porém, efetivamente varíola? Se fosse, segundo os médicos
atuais, Anchieta não teria podido curar tão rapidamente a tantos doentes, cujas
pústulas furava com um alfinete, apesar do mau cheiro que se exalava das feridas. Para os
defensores da canonização de Anchieta, seria varíola efetivamente e essas curas seriam
realmente a prova de que era um santo, estariam entre os primeiros milagres. O tema
voltará a ser discutido em dezembro. A Associação Pró-Canonização de Anchieta,
dirigida pelo padre César Augusto dos Santos, vai reeditar os dez volumes da história da
Companhia de Jesus, do padre Serafim Leite, publicada a partir de 1938.
Reação - A exposição não é saudada por todos, porém. A importante
comunidade portuguesa, mais de 100 mil pessoas apenas em São Paulo, teme que a mostra
reforce o que consideram um erro histórico, que Anchieta, um canarino, portanto espanhol
de nascimento, teria sido o fundador de São Paulo. Eles lembram que quando o coleginho
foi construído em Piratininga, Anchieta tinha apenas 19 anos e não fora sequer ordenado.
O verdadeiro fundador da cidade foi Manoel da Nóbrega, superior dos jesuítas no Brasil e
quem decidiu pela construção do colégio. E a pressão que os portugueses fizeram foi
tamanha que, para apaziguá-los, há alguns anos os jesuítas concordaram em mandar fundir
um busto do padre Nóbrega o qual, com muita festa, foi instalado também no Pátio do
Colégio, onde agora Anchieta não está mais sozinho.
Apesar de efetivamente não ter sido o fundador da cidade, ninguém
discute que Anchieta foi muito mais do que o Apóstolo de São Paulo. Tendo chegado ao
Brasil para morrer - o laudo médico feito em Coimbra punha em dúvida se chegaria vivo ao
Brasil, pois sofria possivelmente de tuberculose óssea -, o então irmão Anchieta
recuperou-se, estudou tão arduamente que em três meses passou a dominar o tupi, que
outros padres não aprenderam em dez anos, escreveu a gramática para ensinar essa língua
e dormia apenas duas horas por noite, no afã de multiplicar à mão as cópias da
gramática tupi, que eram enviadas a Portugal. O objetivo ambicioso era fazer com que os
novos padres que viessem, já não fossem jejunos na "língua brasílica".
Mais importante, porém (enquanto a maioria dos padres via o Demônio em
tudo, abominava os costumes dos índios, perseguia os pajés, se horrorizava com o consumo
de carne humana pelos tupis e lutava para eliminar a poligamia arraigada na cultura),
Anchieta revela-se profundamente tolerante, quer conhecer e mesmo absorver os
conhecimentos dos índios e busca aculturá-los de outra forma.
O exemplo é uma criança enterrada viva pela mãe, uma índia, logo após
o parto. Não há registro de reação exacerbada por parte de Anchieta. Ele cava a terra,
recupera a criança já quase sufocada, pede às outras índias, mas não à mãe, que a
amamentem, suporta as piadas segundo as quais tinha tido um filho, embora não tivesse
mulher, e mantém o recém-nascido vivo por vários dias, mas não consegue que sobreviva.
Da mesma forma, ele comprova que os índios não eram meros canibais, mas consumiam a
carne humana em rituais de antropofagia com conotação religiosa, e descreve como alguns
prisioneiros que seriam sacrificados e devorados se revoltam quando os padres tentam
evitar sua morte. Esse conhecimento é o primeiro passo para eliminar o costume, o que
realmente os padres conseguem em tempo relativamente curto.
Internet - Essa aceitação da cultura dos índios teria sido mais fácil
para Anchieta porque ele chegou muito jovem ao Brasil e com o espírito aberto, aventa o
padre Fernandes. E as cartas, repositório imenso sobre os primeiros anos do Brasil, são
uma obrigação que ainda hoje os jesuítas têm. Cada jesuíta deve escrever para Roma
todos os anos, dando contas do que vivenciou, dos principais acontecimentos e padre
Fernandes diz que "isso era a internet da época; as cartas eram enviadas ao
superior, multiplicadas e distribuídas entre as missões jesuítas do mundo inteiro;
dessa forma, uma maneira de evangelizar que deu certo com os índios brasileiros, as
peças teatrais com motivos sacros de Anchieta, por exemplo, eram levadas ao conhecimento
dos jesuítas da África, que poderiam adotar o método".
Em sua carta mais famosa, datada do "fim do mês de maio do Ano do
Senhor de 1560", e que é considerado o primeiro documento sobre História Natural da
América Portuguesa, Anchieta descreve impressionado o efeito do óleo da copaíba
(Copaifera officinalis), hoje industrializado como medicamento: "escorre a princípio
como óleo por orifícios abertos pelo caruncho... e é muitíssimo próprio para curar
feridas, de maneira que em pouco tempo nem sinal fica da cicatriz". O mesmo texto
descreve pela primeira vez a piracema, "há então as enchentes dos rios e as grandes
inundações dos campos, tempo em que com pouco trabalho se toma entre as ervas grande
quantidade de peixes que saem dos leitos dos rios para pôr os ovos".
A carta registra a observação do solstício de verão, "aos 13 de
dezembro, o sol chega a Piratininga completando o seu curso, dia que é o mais comprido,
em que não há nenhuma inclinação das sombras, tem 14 horas e não passa mais para o
Sul, mas torna a voltar para o Norte". Curiosa a descrição da "caapivára,
isto é, 'que pasta erva', não muito diferente dos porcos, de cor tirante a ruivo, dente
como os da lebre, exceto os molares, parte dos quais se fixam nas mandíbulas, parte no
meio do céu da boca". Também detalhada a descrição da jararaca, "cuja
mordedura mata no espaço de vinte e quatro horas..." e o registro da formação de
anticorpos que conferem a imunidade, base dos atuais soros antiofídicos: "E acontece
entre os índios que, se são mordidos e escapam à morte e tornam a ser mordidos, não
só não correm perigo de vida, mas também sentem menos dor."
Com precisão, o padre Anchieta descreve o tamanduá, "a cabeça
pequena muito desproporcionada ao tamanho do corpo, a boca redonda, da medida de um ou
quando muito de dois anéis, a língua estirada com três palmos de comprimento na
porção que pode deitar fora". E garante: "que eu medi." Mostrando ser
observador acurado, Anchieta descreve como os bandos de andorinhas comem milhões de
içás, quando as formigas aladas saem do sauveiro para acasalar e garante que "deste
modo sucede que muito poucas escapam", desmentindo antecipadamente Saint Hilaire, que
séculos depois se impressionaria tanto com o número de içás, que diria "ou o
Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil".
Apesar de sua tentativa de precisão científica, a famosa carta termina
com uma afirmação não comprovada. Ele descreve seriamente o Curupira, "que muitas
vezes no mato acomete os índios e os ferem com açoites, atormentam e matam e disto são
testemunhas os nossos irmãos que viram algumas vezes os mortos por eles". Até nesse
caso, porém, indica a solução dada pelos índios os quais, quando "por montes
íngremes vão ao sertão, ao passar no cimo do monte mais alto, costumam deixar penas de
aves, abanos, flechas, rogando-lhes muito que lhes não faça mal".