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Domenico de Masi: Falta alguém na Piazza Navona

02/08/2003

Piazza Navona

 

O Brasil é o país com o qual a Itália tem mais afinidade, por múltiplas razões. Pelo menos 25 milhões de brasileiros têm origem italiana e pelo menos 7 milhões deles têm passaporte italiano. Alguns Estados, sobretudo do sul do Brasil, orgulham-se de abrigar prósperas empresas criadas por cidadãos "oriundi" da península. São Paulo é a maior cidade "italiana" do mundo, maior que Roma e Milão juntas.

   Por sua vez, a Itália é ligada ao Brasil por um antigo fluxo migratório, por um intenso e constante intercâmbio cultural -basta citar a ligação da Itália com as obras de Sérgio Buarque de Holanda e de Oscar Niemeyer-, por fortes relações comerciais e até por uma surpreendente afinidade de temperamento.

   Esses fatores não devem ser considerados um ponto de chegada, mas sim valorizados como premissa de uma crescente sinergia e de uma nova estratégia que tenha por objetivo tornar sempre mais rico e fecundo o cruzamento dos dois destinos nacionais.

   É penoso, portanto, constatar que há muitos meses a embaixada brasileira na Itália esteja sem o seu titular.

   Dizem-me que o embaixador designado adia continuamente seu embarque, como se se tratasse do exílio primitivo num canto remoto da Terra. Pois bem, a Itália é um dos países mais "cortejados" pelo mundo inteiro, é o terceiro país que mais recebe turistas, que vêm de todos os cantos do planeta. Roma é uma cidade incomparável pelas obras-primas artísticas e históricas que abriga e pela sua qualidade de vida. A Piazza Navona, onde fica a Embaixada do Brasil, é uma das mais bonitas do mundo. O "palazzo" que hospeda a embaixada e o embaixador é obra de Borromini, um dos maiores arquitetos do século 18, e representa uma das maravilhas da cidade.

   Como se vê, seja pelas condições sociopolíticas, seja pelo ambiente estético, é extremamente invejável o papel do embaixador brasileiro na Itália.

   Que as embaixadas de Paris, Lisboa ou Berlim tenham sido rapidamente ocupadas, enquanto exatamente a de Roma reste ainda acéfala, constitui um grave sinal de desatenção em relação aos laços preciosos que merecem ser mantidos entre a Itália e o Brasil. Nos últimos anos, esses laços foram alimentados pelo intercâmbio cultural, encontros com grandes personagens da cultura brasileira em visita a Roma e por contratos comerciais de importância incisiva. O trabalho de relações públicas da embaixada brasileira na Itália chegou a rivalizar com o da embaixada francesa, líder da diplomacia estrangeira na capital italiana.

   Os italianos esperam com ansiedade que o governo Lula preencha urgentemente essa lacuna. Estamos prontos a acolher o novo embaixador, a fim de conhecer suas motivações e objetivos, e também para lhe oferecer toda a colaboração possível.

Domenico De Masi, 65, é professor de sociologia do trabalho e diretor da Faculdade de Ciências da Comunicação da Universidade La Sapienza (Roma). É autor de, entre outras obras, "O Ócio Criativo" (ed. Sextante).

(© Folha de S. Paulo)

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