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O Brasil é o país com o qual a Itália tem mais afinidade, por múltiplas
razões. Pelo menos 25 milhões de brasileiros têm origem italiana e pelo menos 7
milhões deles têm passaporte italiano. Alguns Estados, sobretudo do sul do Brasil,
orgulham-se de abrigar prósperas empresas criadas por cidadãos "oriundi" da
península. São Paulo é a maior cidade "italiana" do mundo, maior que Roma e
Milão juntas.
Por sua vez, a Itália é ligada ao Brasil por
um antigo fluxo migratório, por um intenso e constante intercâmbio cultural -basta citar
a ligação da Itália com as obras de Sérgio Buarque de Holanda e de Oscar Niemeyer-,
por fortes relações comerciais e até por uma surpreendente afinidade de temperamento.
Esses fatores não devem ser considerados um
ponto de chegada, mas sim valorizados como premissa de uma crescente sinergia e de uma
nova estratégia que tenha por objetivo tornar sempre mais rico e fecundo o cruzamento dos
dois destinos nacionais.
É penoso, portanto, constatar que há muitos
meses a embaixada brasileira na Itália esteja sem o seu titular.
Dizem-me que o embaixador designado adia
continuamente seu embarque, como se se tratasse do exílio primitivo num canto remoto da
Terra. Pois bem, a Itália é um dos países mais "cortejados" pelo mundo
inteiro, é o terceiro país que mais recebe turistas, que vêm de todos os cantos do
planeta. Roma é uma cidade incomparável pelas obras-primas artísticas e históricas que
abriga e pela sua qualidade de vida. A Piazza Navona, onde fica a Embaixada do Brasil, é
uma das mais bonitas do mundo. O "palazzo" que hospeda a embaixada e o
embaixador é obra de Borromini, um dos maiores arquitetos do século 18, e representa uma
das maravilhas da cidade.
Como se vê, seja pelas condições
sociopolíticas, seja pelo ambiente estético, é extremamente invejável o papel do
embaixador brasileiro na Itália.
Que as embaixadas de Paris, Lisboa ou Berlim
tenham sido rapidamente ocupadas, enquanto exatamente a de Roma reste ainda acéfala,
constitui um grave sinal de desatenção em relação aos laços preciosos que merecem ser
mantidos entre a Itália e o Brasil. Nos últimos anos, esses laços foram alimentados
pelo intercâmbio cultural, encontros com grandes personagens da cultura brasileira em
visita a Roma e por contratos comerciais de importância incisiva. O trabalho de
relações públicas da embaixada brasileira na Itália chegou a rivalizar com o da
embaixada francesa, líder da diplomacia estrangeira na capital italiana.
Os italianos esperam com ansiedade que o
governo Lula preencha urgentemente essa lacuna. Estamos prontos a acolher o novo
embaixador, a fim de conhecer suas motivações e objetivos, e também para lhe oferecer
toda a colaboração possível.
Domenico De Masi, 65, é professor de sociologia do
trabalho e diretor da Faculdade de Ciências da Comunicação da Universidade La Sapienza
(Roma). É autor de, entre outras obras, "O Ócio Criativo" (ed. Sextante).
(© Folha
de S. Paulo)
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