O quadrinista italiano que criou Valentina
morreu aos 70 anos e deixou órfã uma legião de fãs pelo mundo todo. Guido Crepax legou
ao mundo outras musas como Bianca, Emanuelle e Anita, um misto de ingenuidade e perversãoCAROL ALMEIDA
A Itália sempre foi pródiga na
produção de requintadas histórias em quadrinhos. Isso vale tanto para o popular Tex, de
Gianluigi Bonelli, como para o estiloso Corto Maltese, de Hugo Pratt. A lista de nomes que
se sobressaem no cenário internacional são vários: Ivo Milazzo, Sérgio Bonelli, Bonvi,
Roberto Raviola e outros. No entanto, se fosse para lembrar, rapidamente, quais os
quadrinistas que melhor representam a produção autoral italiana, possivelmente uma
grande parcela dos leitores de quadrinhos citariam esses três nomes: Milo Manara, Paolo
Serpieri e Guido Crepax. Durante várias décadas, esse trio foi responsável pela
produção de alguns dos melhores (senão os melhores) quadrinhos eróticos do mundo.
Mas, desde a quarta-feira passada, Crepax, o
mais velho dessa turma, deixou suas heroínas e seus fãs órfãos. Poucos dias depois de
ter completado 70 anos, o quadrinista morreu deixando como sua maior herança a musa
Valentina Rosseli, uma fotógrafa famosa, amante excepcional e, acima de tudo, uma mulher
bem- resolvida. Ao contrário das curvilíneas deusas de Manara, e da voluptuosa Druuna de
Serpieri, Valentina era lânguida, inteligente, cheia de tormentos filosóficos, e, no
mesmo bolo, sensual.
A personagem, que rendeu a Crepax uma
popularidade incrível (suas histórias estão sendo roteirizadas e filmadas para uma
série de 13 episódios de TV, que serão exibidos na Itália, Alemanha, Suíça e Estados
Unidos), surgiu em 1965, como coadjuvante da trama do detetive Philip Rembrant. Dois anos
depois, Valentina, esculpida segundo os traços da atriz Louise Brooks, assumiu seu posto
de protagonista e assim terminou logo se transformando na filha mais velha, e mais famosa,
de todas as outras que Crepax ainda criaria.
Anita, Bianca e Emmanuelle foram algumas das
outras mulheres nascidas das mãos do italiano, autor que, ciente de como podia explorar a
sensualidade de suas personagens, sempre as deixava confusas quanto ao que elas mesmas
representavam sexualmente. Todas exalavam sexo, mas dificilmente sabiam o que fazer com
isso. Essa ingenuidade pervertida, e charmosa, permitia uma liberdade sexual às
personagens, quase sempre envolvidas em cenas de sadomasoquismo.
Arquiteto por diploma, Crepax tinha um desenho
facilmente identificável, cheio de traços rápidos e sombras. Suas mulheres estavam
longe de ser aquele protótipo das musas dos quadrinhos eróticos, eram quase reais,
magras e de olhos semicerrados. Em suas histórias, o autor conseguiu subverter a
linearidade dos quadrinhos, criando imagens sobrepostas e quadros que dividiam uma só
cena em várias.
O italiano chegou ainda a desenhar e
roteirizar clássicos da literatura ocidental como Conde Drácula, Doutor Jekyll
e Mister Hide e Frankenstein, sendo este seu último trabalho publicado, em
2000. Sua obra no Brasil foi lançada basicamente por duas editoras: a Martins Fontes, que
colocou nas livrarias alguns álbuns maiores, e a L&PM, esta responsável pelas
edições nacionais de Valentina.
(© Jornal
do Commercio-Pe)
Guido Crepax elevou HQ ao
status de arte |
DIEGO ASSIS
da Folha de S.Paulo
Marquês de Sade, Simone de Beauvoir,
Jean-Paul Sartre, Louise Brooks, Kafka, Rembrandt, Samuel Beckett, Eisenstein e sexo. O
que isso tudo tem a ver? Eles ajudaram o italiano Guido Crepax, morto aos 70 anos em
decorrência de uma esclerose múltipla na última quarta-feira, em Milão, a conferir às
histórias em quadrinhos européias o status de arte.
Nascido em 15 de julho de 1933, Crepax formou-se em arquitetura, desenhou
soldadinhos de guerra para jogos infantis na década de 50 e ilustrou histórias
publicitárias para uma revista de medicina até ser descoberto pela equipe da revista
"Linus", que editava as histórias de Charlie Brown.
Mas seria só no quarto número da publicação, em julho de 1965, que o
desenhista e escritor italiano entraria para a história das histórias em quadrinhos. E a
culpa é de Valentina. Criada inicialmente como coadjuvante de Neutron, um crítico de
arte com poderes especiais, a morena chanel de corpo escultural roubou a atenção de Deus
e o mundo e se tornou protagonista da série, ganhando seu primeiro álbum solo em 1967.
Publicadas no Brasil pelos fanzines "Grilo" e "Balão" e,
posteriormente, pelas editoras LP&M e Martins Fontes, as aventuras de Valentina
reuniram as grandes paixões de Crepax: HQs de Flash Gordon, teorias oníricas freudianas
e a vamp do cinema Louise Brooks, declarada inspiração para o visual de Valentina
-veladamente, falava-se também em Luisa Crepax, a mulher do escritor.
Lidas em diversos planos, suas histórias transitavam da realidade de
Valentina -"uma mulher de carne e osso", como bem resumiu Marco Aurélio
Lucchetti em seu "As Sedutoras dos Quadrinhos" (Opera Graphica, 2001)- aos
sonhos, lembranças e, principalmente, às leituras de Valentina, o retrato da
"self-made woman" culta das décadas de 60 e 70.
"A grande contribuição de Crepax foi romper com os padrões de
narrativa e diagramação dos quadrinhos da época", lembra o pesquisador Álvaro de
Moya, sobre a forma irregular com que Crepax dividia as páginas, sempre em favor do
melhor ângulo para retratar as suas beldades, incluída aí a lourinha Anita, que
descobria diante do televisor que o aparelho era sua única e interminável fonte de
prazer. Sim, sexual.
A imaginação fértil do quadrinista italiano rendeu ainda verdadeiras
obras-primas baseadas em histórias de Sade ("Justine"), Arsan
("Emanuelle"), Pauline Réage ("História de O.") e Sacher-Masoch
("A Vênus das Peles"), além de adaptações para os clássicos
"Frankenstein" e "Drácula". Seu outro vício, o jazz, foi declarado
em "O Homem do Harlem", homenagem ao saxofonista Charlie "Bird" Parker
publicada em 1978. Pai, perdoai os seus pecados...
(© Folha
de S. Paulo)
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