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O neo-realismo fantástico de Vittorio De
Sica |
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14/09/2003
04/06/08

Milagre em Milão virou um marco
na história do movimento, que aprendeu a sonhar
LUIZ CARLOS
MERTEN
Como ator e diretor, Vittorio De Sica aceitou fazer tanta porcaria que sua
importância tende a ser diminuída, por causa disso. Três ou quatro de seus grandes
filmes são clássicos indiscutíveis e estão entre os maiores realizados, mas para cada
Ladrões de Bicicletas há um Condenado em Altona, para cada Umberto D um Girassóis da
Rússia. Até obras altamente recompensadas, como Duas Mulheres, pelo qual Sophia Loren
foi melhor atriz em Cannes e também ganhou o Oscar, ou O Jardim dos Finzi-Contini, que
valeu ao diretor seu quarto Oscar da academia, não resistem a uma análise mais rigorosa.
De Sica, que fez suas obras-primas com atores
não profissionais, moldou Duas Mulheres no estrelismo da Loren e errou no conceito do
Jardim o nazismo não é abominável só porque destruiu aquela utopia
aristocrática erigida entre muros , mas esses fracassos ainda são honrosos. A
decepção, mesmo, veio quando De Sica fez comédias em esquetes como Sete Vezes Mulher.
Ele sabia disso e, nos últimos 20 anos de sua carreira, lutou para adaptar Um Coração
Simples, de Gustave Flaubert. Dizia que aquele coração era o dele, mas os produtores que
enriqueceram aviltando o grande talento de De Sica lhe negaram a chance de concretizar o
projeto tão sonhado.
São idéias que surgem a propósito de um
importante lançamento em DVD da Versátil. Já está nas lojas, com o capricho
característico da distribuidora, o disco digital de Milagre em Milão. Os extras incluem
uma análise do neo-realismo, outra do diretor e até imagens da premiação do filme em
Cannes, onde Milagre em Milão dividiu o Grande Prêmio de 1951 com Senhorita Júlia, que
Alf Sjoberg adaptou da peça de Strindberg. Naquele ano, ainda não havia a Palma de Ouro,
mas a relação de premiados indica que foi uma das melhores seleções da história do
festival mais badalado do mundo. A Malvada, de Joseph L. Mankiewicz,. ganhou o prêmio
especial do júri e Luis Buñuel o de direção, por Los Olvidados. Chega ou querem mais?
É curioso como certos grandes do neo-realismo
tiveram parceiros que os ajudaram a esculpir suas concepções de cinema. O de Roberto
Rossellini era Sergio Amidei. O de De Sica, Cesare Zavattini. É o autor da história que
deu origem a Milagre em Milão. Chama-se Totò il Buono. É a história de um menino
abandonado no lixo. Criado por uma velha dama, vira Totò, o bom, sempre disposto a
aliviar as dores do mundo. Quando sua protetora morre, Totò segue sua missão e tenta
estabelecer a utopia na comunidade em que vive. As tensões internas, porém, são muito
grandes. A utopia, em De Sica, destina-se ao fracasso, mas aí a antiga protetora, que
virou um anjo, intervém para realizar o milagre do título.
Que milagre é esse? Só vendo para desvendar
o significado mágico e social desse filme que rompe com os cânones clássicos do
neo-realismo. Na obra de De Sica, situa-se, como obra intermediária, entre dois marcos
neo-realistas. Ladrões de Bicicletas, de 1948, é justamente considerada a obra-prima do
diretor, mas em Umberto D, de 1951, ele radicalizou a proposta fazendo o outro grande
filme de sua carreira. A história do aposentado que vive com seu cão, sem recursos para
alimentar a ambos, é um marco do cinema sobre a terceira idade. É triste, doloroso
mesmo, ver Umberto tentar manter sua dignidade, quando a ordem social e o mundo inteiro
conspiram contra ele.
Talvez Umberto D fosse o filme que a Versátil
devesse ter lançado agora, para aproveitar o debate sobre a reforma da Previdência. O
que nos veio foi Milagre em Milão, que teve ressonância, dez anos mais tarde, na obra do
próprio diretor, com um filme bem menos atraente, Juízo Universal. Comprometido com a
questão social, com os dramas das pequenas vidas, o neo-realismo, movimento que surgiu na
Itália derrotada na 2.ª Guerra Mundial, raramente sonhou. Quando o fez foi para produzir
esse filme mágico, por vezes desconcertante há críticos, e não poucos, que
acham que De Sica fez aqui uma celebração da miséria , mas que possui a aura das
grandes obras. Há episódios que são ambíguos, como o negro apaixonado pela garota
branca, outros excessivamente sentimentais, como o baile da estátua animada, mas todas as
cenas de Totò com a velha Lolota, culminando no enterro de sua protetora, ou a cena de
amor, beiram o sublime.
Esse sublime vem desenhado no
rosto dos atores, pois De Sica sabia, como poucos, dirigi-los. Ele próprio era
auto-indulgente e criava um estereótipo de italiano bonachão nos filmes que
interpretava. A grande exceção foi quando criou o general Della Rovere em De Crápula a
Herói, de Roberto Rossellini, contemporâneo de Duas Mulheres, por volta de 1960. O
elenco faz, até hoje, a graça insuperável, o encanto imorredouro de Milagre em Milão.
Francesco Gollisano nasceu para ser Totò, o bom, a grande dama do teatro Emma Gramatica
é inesquecível como Lolota, Paolo Stoppa faz um capitalista levemente caricatural (como
o próprio De Sica poderia ter feito) e o filme ainda tem Brunella Bovo, a atriz de
Federico Fellini em Abismo de Um Sonho. A crítica americana Pauline Kael gostava de dizer
que Brunella era aquilo que as heroínas das comédias de Charles Chaplin deveriam ser e
raramente foram. A linha fantasiosa e poética de Milagre em Milão, por sinal, pode
parecer um tanto estranha num universo (neo)realista como o de De Sica, mas descende de
experiências de Chaplin com Carlitos e de René Clair, o mestre da comédia francesa nos
primórdios do cinema sonoro.
Milagre em Milão (Miracolo a Milano). Itália, 1951.
Direção de Vittorio de Sica. DVD da Versátil. R$ 37,50
(© O Estado de S. Paulo)
| Reavaliando o legado de De
Sica |

Em DVD, dois filmes
do diretor italiano, 'Quando a Mulher Erra' e 'Duas Mulheres'
LUIZ ZANIN ORICCHIO
O lançamento em
DVD de Duas Mulheres e Quando a Mulher Erra, ambos de Vittorio De Sica, reabre, entre
aficionados, a discussão em torno desse cineasta polêmico. E por que polêmico? Porque
De Sica, sempre em parceria com Cesare Zavattini, é autor de uma das obras-primas do
cinema universal, Ladrões de Bicicleta, de 1948, mas nem por isso se livrou de toda uma
série de ataques ao longo de sua vida. Foi acusado de "traidor" do
neo-realismo, com seu apelo fácil para a emoção. De flertar com o cinema comercial, de
despolitizar temas, etc.
De certo modo, depois de sua morte, em 1974, seu legado foi
enfraquecendo.
Críticos como Jean
Tullard acabaram por atacar o conjunto da obra de De Sica, não lhe perdoando nem mesmo
aquelas obras consideradas sólidas e inexpugnáveis, como Ladrões de Bicicleta e Umberto
D. O fato é que depois de fazer filmes politicamente comprometidos que só lhe renderam
dívidas, De Sica tornou-se um grão-senhor do cinema italiano. Consagrou-se também no
exterior e ganhou três Oscars (por Ontem, Hoje e Amanhã, Casamento à Italiana e O
Jardim dos Finzi Contini). Não se perdoa tanto sucesso. Mas há também outro lado, e
este aponta para uma carreira realmente irregular, um pé no cinema autoral, outro no
sucesso comercial, o que dá rima, porém nem sempre boas soluções.
Quando a Mulher Erra (Stazione Termini) é um filme ambientado em
Roma e interpretado por americanos. Diálogos em inglês, escritos por Truman Capote,
exceto por um pequeno pano de fundo local. Tudo se passa na grande estação de trens
romana, onde uma mulher americana, casada, Mary (Jennifer Jones) despede-se do seu amante
italiano, Giovanni (Montgomery Clift). Há um expediente para o personagem de Monty falar
tão bem o inglês - ele seria filho de mãe americana e pai italiano.
O interessante no filme
é o paroxismo amoroso do casal, e a maneira como a separação é levada com a vitalidade
de um thriller. Mary vai pegar um trem, ir a Paris e, dali, para os Estados Unidos, onde a
espera o marido. Eles tentam se despedir, mas algo os atrai e, quando são surpreendidos
em um vagão vazio, tudo vira um grande escândalo. Tem clima, apesar de tudo. E a
ressalva diz respeito às tesouras dos produtores, e da censura. A primeira versão de De
Sica tinha 120 minutos, mas o produtor David Selznick (marido da atriz Jennifer Jones)
considerou-a inviável do ponto de vista comercial.
Reduziu-a para 87 minutos, mas o filme foi julgado muito forte pela
censura.
Novos cortes e expurgos
de cenas levaram-no a 63 minutos - e esta é a duração do filme no DVD lançado pela
Continental.
Duas Mulheres traz um De Sica no seu campo preferencial do
neo-realismo - a guerra e suas tragédias. A história é ambientada nos meses finais do
conflito. Viúva e filha adolescente, Cesira (Sophia Loren) e Rosetta (Eleanor Brown),
fogem de Roma para esperar pelo fim da guerra em região mais tranqüila. Essa bela
adaptação de um livro de Alberto Moravia dá bem idéia do que é um fim de guerra,
país devastado, pessoas esperando pelo fim das batalhas para retomar a vida normal, mas,
mesmo nesse estado de suspensão, tendo de sobreviver, resolver os problemas do dia-a-dia,
divertir-se, amar, existir. Há ternura e há violência na maneira como De Sica constrói
o drama de suas duas mulheres, perdidas num mundo de machos pouco propensos à piedade.
Sophia Loren faz uma
Cesira das mais convincentes. Há autenticidade na maneira como atua e ela mesma diz que
se valeu de suas memórias reais do tempo da guerra. O papel era da grande dama do
neo-realismo, Anna Magnani, substituída à última hora por Sophia.
Vittorio De Sica soube se conformar à ambigüidade do original
literário.
Moravia, como se sabe,
era escritor que não se conformava com um tratamento superficialmente realista. No caso,
não lhe bastava observar o sofrimento do povo italiano, espremido entre o Duce em queda e
os alemães que ainda infestavam o país. Busca a ambivalência das pessoas comuns nesse
tipo de situação-limite. Cesira deixa em Roma um homem bom, Giovanni (Raf Vallone), com
quem faz amor antes de fugir. Nem por isso deixa de se sentir atraída pelo idealista
Michele (Jean-Paul Belmondo). Michele também exerce atração sobre Rosetta, o que cria
um sutil triângulo amoroso, nunca realizado, com mãe e filha nos vértices.
Depois, o problema será o amadurecimento sexual precoce de Rosetta
que, depois de violentada por marroquinos, cai nos braços de um chofer de caminhão
(Renato Salvatori). A viagem de volta a Roma será o trajeto para reconciliação entre
mãe e filha, e a idéia de De Sica parece clara: 15 anos depois de finda a guerra (o
filme é de 1960) era tempo de cicatrizar feridas e voltar a viver sem as marcas do
passado. Um belo filme.
Quando a Mulher Erra (1953) e Duas
Mulheres (1960). Direção de Vittorio De Sica. DVDs da Continental
(© O Estado de S. Paulo)
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