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Sergio Leone revitaliza gênero do western em decadência com ópera

26/08/2004

 

Versão americana de "Três Homens em Conflito" é restaurada para se aproximar da original
 

PEDRO BUTCHER
CRÍTICO DA FOLHA

   Disse Quentin Tarantino, em mais uma de suas sérias piadas referenciais, que existem dois tipos de pessoas no mundo: as que viram e as que não viram "The Good, the Bad and the Ugly" (1966), do cineasta italiano Sergio Leone.

   A frase, na verdade, recria o bordão de Tuco, o vértice "feio" deste faroeste triangular que, no Brasil, perdeu a ótima alcunha de "O Bom, o Mau e o Feio" para um insosso "Três Homens em Conflito". Aqueles que ainda pertencem ao time dos que não viram já podem passar para o outro lado assistindo à ótima edição dupla que está saindo em DVD.

   Em "Kill Bill", Tarantino mostrou veneração por Leone com referências explícitas ao seu estilo na seqüência do violento casamento da noiva.

   Leone foi o maior gênio deste gênero híbrido e politicamente incorreto que, não por acaso, foi pejorativamente batizado de faroeste-espaguete (quer coisa mais irritante aos defensores de culturas nacionais puras do que um "western" não-americano?).

   Como bem explica o crítico Richard Schiekel na faixa de comentários deste DVD, o cineasta italiano deu nova vida a um gênero decadente ao transformá-lo em ópera, alternando grandes trechos sinfônicos e coro (as paisagens amplas e profundas que marcam seus filmes) a belas árias (os closes).

   Leone rodava seus faroestes na Itália e na Espanha, em paisagens semelhantes às do Oeste americano. Chamava atores subestimados ou em ascensão em Hollywood para os papéis principais e preenchia o restante do elenco com atores europeus ou não-profissionais locais.

   Filmava simultaneamente em inglês e italiano. A versão de "Três Homens em Conflito" que chega por aqui é a americana, restaurada e estendida para se aproximar ao máximo da italiana "Il Buono, il Brutto, il Cattivo" (no lançamento americano o filme teve suas três horas violentamente cortadas pelo distribuidor).

   Além de ser um dos trabalhos mais inspirados de Leone, "Três Homens em Conflito" mostra a gênese da criação da persona silenciosa e obscura de Clint Eastwood, jovem ator que topou a aventura de filmar faroestes na Itália e que, mais tarde, como cineasta, refletiria essa influência européia.

   O filme traz, ainda, o impressionante Lee van Cleef no papel do "mau" e o absolutamente genial Eli Wallach como o "feio" Tuco.

   O segundo DVD traz dois bons documentários complementares sobre Leone, um sobre o processo de restauração do filme, outro sobre o autor da trilha, Ennio Morricone, e ainda "O Homem que Perdeu a Guerra Civil", sobre um dos personagens que inspiraram o pano de fundo do filme, a Guerra Civil Americana.

Três Homens em Conflito
The Good, the Bad and the Ugly
    
Direção: Sergio Leone
Produção: Itália, 1966
Lançamento: MGM Home Entertainment
Quanto: R$ 47,50

(© Folha de S. Paulo)

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