O italiano Luchino
Visconti, um dos mais importantes realizadores da história do cinema e
uma forte expressão do movimento neo-realista, se vivo fosse, estaria
completando, no dia dois de novembro próximo, um século de existência.
Há pouco mais de 30 anos, mais exatamente no dia 17 de março de 1976,
ele morre. Por isso, ao longo desse ano, especialmente na Itália, uma
série de eventos e realizações registram as datas, reverenciando um dos
gênios artísticos mais representativos da cultura italiana e mundial.
Abaixo, reproduzimos
o texto Luchino Visconti: visão de mundo e visão de história, de
Oswaldo Munteal e Nashla Dahás, que aborda com muita pertinência
peculiaridades da obra de Visconti, além de fazer um rico sobrevôo sobre
a sua trajetória, especialmente como cineasta:
Se queremos que
tudo fique como está...
então é preciso
que tudo mude.
(O leopardo -
Giuseppe Tomasi di Lampedusa)
No filme O leopardo,
o diretor Luchino Visconti abre as primeiras cenas com um diálogo de
pureza clássica acerca do dilema do século XIX, através dos atores que
representam o padre jesuíta e o príncipe de Salina. A trama se apresenta
assim nos seus primeiros passos: Padre “– Dom Tancredi deveria evitar
certas amizades... e de andar com pessoas perigosas.”; Príncipe de
Salina “– A culpa não é dele, mas dos tempos que correm!”.
O sofrimento da
proximidade pode ser tão violento quanto o da distância, e esta é uma
máxima das relações afetivas. Pode-se supor, nesta mesma partida, que na
história contada por Visconti sobre a Itália contemporânea, a chegada do
novo faz sofrer tanto quanto a crise de valores da antiga ordem,
persistindo para não sucumbir por completo.
O diretor conduz a
trama do príncipe sob a defesa de uma concepção de história que procede
por saltos. O enredo ou a teia da política italiana do século XIX nas
obras Senso, O inocente e O leopardo, cedem freqüentemente à tentação
das grandes crises que provocam as mudanças sociais e de mentalidades. É
como se o tempo histórico se acelerasse nos momentos de ruptura. Ainda
que seja uma ilusão para os historiadores, no cinema funciona muito bem.
Luchino Visconti parece imerso numa dimensão de tempos simultâneos: a
Itália do renascimento, a península meridional durante a unificação, e o
fantasma do fascismo. Senso e O leopardo explicitam tensões em torno da
luta dos italianos pela autonomia política, contra os estrangeiros –
austríacos e franceses – e pela república.
Em O inocente, a
classe burguesa já estabelecida dá tudo que tem pela sua afirmação
ideológica e existencial, diante do rolo compressor representado pela
ofensiva aristocrática, que resistia aos novos tempos.
Os dilemas da
civilização
O embate entre as
forças conservadoras e a emergência do ideário liberal foi imortalizado
pela obra de Karl Polanyi, especialmente em A grande transformação. O
esforço analítico de Polanyi no sentido de compreender o significado do
século XIX e a virada para o século XX, até hoje representa um ponto de
transição para o entendimento do processo de mutação mental e econômica
do nosso tempo. A obra de Polanyi teve um impacto relevante para a
geração de intelectuais da primeira metade do século XX. Dentre os
artistas envolvidos nesta perspectiva pode-se indicar a filmografia de
Visconti como um criador preocupado com a crise civilizacional do seu
tempo.
Deve-se tomar aqui a
noção de civilização como uma relação entre o passado e o presente e
como forma de releitura do futuro. Portanto a civilização não se refere
necessariamente à experiência do passado de uma maneira imóvel ou
engessada, mas por outro lado pela capacidade que os povos têm de
resignificar a experiência civilizatória para o futuro.
Portanto, civilizar
refere-se a uma mobilização que aponta para uma dimensão analítica aonde
o indivíduo explicita a sua vontade a partir da quebra de hierarquias
com o passado. Visconti contribui para esta discussão a partir de um
exame sobre as origens dos valores ocidentais, e também pela
investigação sobre a crise civilizacional européia ensejada pela
ascensão do nazi-fascismo.
A trilogia sobre a
história da Itália reforça o peso do passado para Visconti e mostra como
é possível rever valores em pleno vôo da experiência histórica italiana.
Num dos diversos monólogos do príncipe de Salina, sozinho ou
acompanhado, aparece com destaque o dilema da civilização:
Sou um expoente
da velha classe... fatalmente comprometido com o Antigo Regime e ligado
a este por vínculos de decência mais que por afeto...A minha é uma
geração infeliz... dividida em dois mundos e pouco a vontade em nenhum
deles. Além disso, eu não tenho ilusões... Há mais ou menos vinte e
cinco séculos nós carregamos nos ombros essa civilização heterogênea...
mas estamos muito cansados, vazios e apagados.
Tradição e
desencantamento
No filme O Leopardo, Visconti mostra que o sofrimento da proximidade
pode ser tão violento quanto o da distância. Foto: Divulgação
O desencantamento do
mundo sentido por Luchino Visconti parece ter alguma relação com a sua
biografia e a sua trajetória familiar e afetiva. Além disso, com a
identidade demonstrada por ele relativamente ao sexo oposto para
realizar neste o seu próprio desejo, isto é, de ser o outro.
Nesta dimensão os
sentidos de Visconti ficaram ainda mais apurados para a compreensão
acerca do isolamento, da solidão e da violência do mundo contemporâneo.
Uma procura incessante do que ele não tinha como forma de obtenção do
prazer estético proporcionado pelos seus filmes. A diferença é uma marca
de Senso, O leopardo e O inocente.
A chegada ao poder de
uma classe bastarda, sem cultura e pusilânime, no entender de Visconti,
compromete todo o esforço representado pela tradição aristocrática a
partir da edificação de um mundo moderno marcado pela arquitetura, pela
música e pelo bom gosto.
Isto fica expresso
claramente em O leopardo. O príncipe de Salina olha para trás e vê a
história, olha para o presente e vislumbra a chegada de um
cosmopolitismo bárbaro, e ao contemplar as perspectivas para o futuro,
enxerga o triunfo dos oportunistas burgueses numa busca incessante por
posições sociais.
O cosmopolitismo
viscontinano está com os pés fincados na arte, e no prazer que ela pode
proporcionar, sobretudo através do belo como ideal de uma civilização
decadente. Os nacionalistas burgueses com seus hábitos rudes e
pragmáticos matam a cultura, e os seus significados. Os fascistas que
aparecem em outras obras do diretor também têm a capacidade de destruir,
e com uma maior sofisticação ao odiar a cultura apartando qual quer
possibilidade de valorização da diferença.
Raposas,
leões e leopardos
A zoologia política
moderna conferiu aos políticos denominações de animais a fim de
caracterizar determinados padrões de comportamento e ação social.
Maquiavel ajuda-nos a compreender a dinâmica das relações de poder na
modernidade, apresentando as raposas e os leões como dois modelos para
os príncipes italianos.
O primeiro bicho é a
raposa, que calcula, espreita e possui a capacidade de se tornar
invisível. Leões e leopardos são de outra ordem, pois têm a função da
proteção, do combate e da guerra. Maquiavel mostra ao moderno príncipe
que poucos podem ou conseguem reunir as duas qualidades num só político.
Visconti com o faro
da cultura política do seu tempo percebe que o livro de Lampedusa
incorpora a velha tradição renascentista para caracterizar o príncipe de
Salina. A arte da caça foi substituída pelo prazer da substituição do
Antigo Regime. O embate entre os aristocratas e os burgueses pode ser
traduzido nas próprias ações do príncipe leopardo. Ele mostra que o
desejo da nova classe dirigente, que chegou ao poder após a unificação
italiana, está localizado numa apropriação singular da modernidade. A
paixão da antiga nobreza proprietária de terras e de títulos refere-se a
uma Itália ancestral. Em O leopardo Visconti expõe seus protagonistas a
inúmeras cenas de choque com a tradição e com os valores morais,
estéticos e políticos dos personagens e também do diretor.
Notas sobre a
vida e a obra de Luchino Visconti
De origem nobre,
pertencente a uma poderosa família de Milão, Luchino Visconti nasceu
nessa cidade da Lombardia em dois de novembro de 1906. Teve uma sólida
educação clássica entre os seus costumes juvenis, como as corridas de
cavalo e as temporadas de verão no palácio da família. Estudou
violoncelo por dez anos e foi encenador teatral de peças dramáticas e
óperas antes de iniciar-se no cinema como assistente e figurinista do
cineasta francês Jean Renoir.
A partir desse
momento, Visconti iniciou uma trajetória de sucessos que o levou a ser
considerado um dos mais importantes realizadores da história do cinema e
uma forte expressão do movimento neo-realista. Com filmes renovadores na
temática, na linguagem e na relação com o público, uniu em sua obra a
percepção para ópera ao cinema e uma grande profundidade dramática. A
decadência, o estetismo e a crítica social são marcas da sua produção
artística e intelectual.
Pode-se observar na
vida de Luchino Visconti um caráter informativo acerca de sua obra, de
forma que o conhecimento de certos aspectos pessoais possibilita uma
melhor compreensão da sua arte. Os vínculos da hereditariedade, as
heranças familiares e as experiências adquiridas produzem certa
familiaridade do cineasta com os temas, problemáticas e críticas
abordados em seus filmes. A ostentação aristocrática de sua infância, o
período da Belle Époque vivido e a associação com o comunismo são
aspectos particulares da vida de Visconti que marcam obras em que
demonstra seu pleno conhecimento das estruturas de classe da Itália, seu
engajamento político e grande intimidade com a arte.
Visconti morreu em 17
de março de 1976 durante a produção de seu último filme, O inocente,
cuja montagem foi terminada por Ruggero Mastroianni. Para financiar seu
primeiro filme, Visconti vendeu algumas jóias da família. Ossessione
(1942; Obsessão) baseado no romance The Postman always Rings Twice (O
carteiro sempre toca duas vezes), do americano James Cain, foi filmado
em ambientes naturais, somando atores profissionais a residentes locais.
No filme Rocco e seus irmãos, Visconti apresenta um painel da
migração italiana. Foto: Divulgação
Além de uma temática
que gerou polêmica, – mulher planeja com o amante matar o marido – este
filme introduziu importantes preceitos do neorealismo. No fim da segunda
guerra mundial filmou a execução do chefe da polícia política italiana
Pietro Caruso, para o documentário realizado em 1945: Giorni di gloria.
Em 1948 documentou a
vida de pescadores da Sicília em La terra trema. Neste filme, ao
utilizar um elenco inteiramente amador composto por pescadores de
verdade, causou uma verdadeira revolução e com isso ganhou o prêmio do
Festival de Veneza. Ainda seguindo os preceitos do movimento
neo-realista, fez Belíssima, crítica à ilusão do estrelato propagada
pelo cinema.
Na década de 1950,
Visconti alternou a criação cinematográfica com a montagem de peças
teatrais e óperas. Na Itália introduziu a obra de dramaturgos como Jean
Cocteau, Sartre, Arthur Miller, Tennesee Williams e Erskine Caldwell. Na
produção de ópera estrelada pela soprano Maria Callas, obteve sucesso
internacional com a combinação de realismo e teatralidade em La traviata
(1955), La sonnambula (1955) e Don Carlos (1958).
A trajetória do
cineasta italiano Luchino Visconti ganhou novo sentido com Senso. Este é
o filme em que pela primeira vez surge o tema central que marcaria sua
obra: a decadência da aristocracia européia, do seu mundo e valores. A
adaptação do conto “Senso” de Camillo Boito se passa no norte de Veneza,
na primavera de 1866, durante o processo de unificação italiana
conhecida como Il Risorgimento. Retrata a luta dos venezianos pela
libertação da região do Vêneto do domínio da Áustria. O diálogo com a
ópera de Verdi, compositor símbolo da Unificação, e uma trama organizada
em atos mostram a grande influência do teatro e da ópera no estilo
cinematográfico de Visconti, que faz da sua interpretação da história da
Itália um espetáculo cênico.
O filme evidencia o
início de uma fase intimista e decadentista do cineasta, expressa
através do sentimento de horror à guerra explicitado, sobretudo pelas
falas de Mahler. O tenente austríaco vê na decadência do Império da
Áustria o seu próprio fim e na luta do primo revolucionário de Lívia, a
aristocrata italiana, o anúncio de um novo mundo do qual não fará parte.
A transição de
mundos, gerações e ideais é freqüentemente discutida por Visconti em sua
obra. O cineasta não retrata em seus filmes, apenas as transformações
progressivas que perpassam velhos e novos tempos, mas leva em conta a
permanência histórica e, sobretudo a interação entre ambas. A capacidade
das velhas forças e ideais para assimilar e retardar movimentos de
transformação é valorizada através da força que exerce a tradição nessas
sociedades.
Nos anos 1950,
adaptou ainda Dostoievski no pouco visto Noites brancas. Outro ponto
alto foi Rocco e i suoi fratelli (1960; Rocco e seus irmãos), dialogando
com o neo-realismo, este filme é um painel da migração italiana. Com
ele, ganhou o Grande Prêmio do Júri em Veneza. Três anos depois, Luchino
Visconti, herdeiro de uma linhagem nobre, um esteta aristocrata, reflete
sobre a decadência de sua própria classe em O leopardo, considerado uma
das obras mais importantes da história do cinema.
Baseado no romance de
Giuseppe Tomasi di Lampedusa, o tema da Unificação italiana é retomado,
desta vez no sul, especificamente na Sicília. Trata-se do período em que
a monarquia absolutista de Bourbon foi derrubada pelas forças
revolucionárias de Garibaldi, resultando na anexação do Reino das duas
Sicílias à Alta Itália formando o reino da Itália em 1861.
O leopardo
reconstitui o ambiente de transição entre uma aristocracia decadente
financeiramente e uma classe burguesa em ascensão. Nesse contexto,
através da sua leitura da história italiana, Visconti revela uma
perspectiva de decadência em relação aos tempos que estão por vir.
Protagonista, o príncipe de Salina, interpretado pelo americano Burt
Lancaster, é a unidade de sentido pela qual o espectador vê o mundo,
seus olhos refletem a percepção das mudanças na estrutura de poder então
dominante, o entendimento da irreversibilidade dessas transformações e
por fim, os sentimentos de recusa e repúdio aos novos valores burgueses.
A consciência histórica de Visconti passa pela sensibilidade e o
desencanto de dom Fabrizio de Salina ao ver a substituição do seu
próprio mundo aristocrático por outro unicamente capaz de vigorar no
futuro.
A obra conta ainda
com a beleza de Cláudia Cardinale e do ator Alain Delon. A atriz não
assume apenas um aspecto decorativo, mas enche o filme de um olhar
completamente diferente sobre a burguesia nascente. É com ela que
Tancredi, sobrinho direto de Dom Fabrizio, representado por Alain Delon,
se casa, garantindo através do matrimônio a continuidade da influência
da família no poder, e a sua própria sobrevivência social.
Era a velha
aristocracia resistindo e adaptando-se aos novos tempos. O leopardo
destaca-se ainda pela brilhante trilha sonora dirigida por Nino Rota,
que contém uma valsa inédita de Giuseppe Verdi, e pela bela fotografia
de Giuseppe Rotunno.
Em 1865, Visconti
atualizou o mito de Electra em Vagas estrelas da Ursa, abordando o tema
do incesto. Dois anos depois, Visconti adaptou O estrangeiro, de Albert
Camus. Em 1969, teve início a “trilogia da aristocracia alemã”, com Os
deuses malditos, radiografia da ascensão do nazismo na Alemanha a partir
da degradação de uma família de industriais. A segunda parte da trilogia
foi realizada em 1971 – Morte em Veneza, adaptação da novela de Thomas
Mann, um dos seus escritores favoritos.
A trilogia chegou ao
fim em 1973, com Ludwig, a paixão de um rei. Nos seus últimos anos de
vida, mesmo debilitado numa cadeira de rodas, controlou todas as etapas
de produção de dois filmes – Violência e paixão e O inocente
(L´Innocente, 1976). Este, seu último filme, é uma adaptação livre do
romance de Gabriele D’Annunzio no qual o cineasta encerra o seu retrato
da aristocracia decadente da Itália do século XIX.
Ao invés do grande
painel histórico do Risorgimento italiano apresentado em O leopardo, em
O inocente, Visconti expõe o cotidiano de tradição e luxúria da alta
aristocracia italiana através da vida conjugal do aristocrata Tullio e
da esposa Giulliana. O comportamento ambivalente de Tullio, personagem
central, se transforma em tragédia quando a esposa, desprezada pelo
marido, cai nos braços de um escritor, e anuncia sua gravidez.
Trata-se de um filme
sobre o vazio conjugal de uma classe em decadência. A vinculação
aristocrática se reflete na personalidade de Tullio tornando-o um homem
ambivalente e crivado de contradições íntimas. O filme exibe um desfilar
de gente refinada, bem vestida, cercada por trajes, objetos, móveis e
cenários aparentemente deslumbrantes, mas que ocultam grandes feridas
provocadas pelo nacionalismo europeu, pelas guerras que se aproximam e
deixando-se dominar e corromper pelas perversões sexuais.
A consciência histórica de Visconti passa pela sensibilidade e o
desencanto. Foto: Divulgação
A isso, Visconti
acrescenta ainda um quarto elemento: a vulgaridade dos tempos modernos
que invade e sufoca a elite por todos os lados. O afresco viscontiano
revela a contradição, tipicamente decadentista, entre um ambiente
dominado pelo tédio, luxo e requinte, onde se movem seus personagens, e
a percepção deles de uma ausência de futuro.
Visconti não realizou
um de seus maiores sonhos, o de levar para as telas Em busca do tempo
perdido, de Marcel Proust, mas deixou, no entanto, uma importante obra
cinematográfica e é sem dúvida um dos grandes nomes da história do
cinema.
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sobre Luchino Visconti