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Luchino Visconti, 100 anos: raposas, leões e leopardos

2006: 100 anos do nascimento e 30 da morte de um dos mais importantes nomes do cinema mundial: Luchino Visconti

 

O italiano Luchino Visconti, um dos mais importantes realizadores da história do cinema e uma forte expressão do movimento neo-realista, se vivo fosse, estaria completando, no dia dois de novembro próximo, um século de existência.  Há pouco mais de 30 anos, mais exatamente no dia 17 de março de 1976, ele morre. Por isso, ao longo desse ano, especialmente na Itália, uma série de eventos e realizações registram as datas, reverenciando um dos gênios artísticos mais representativos da cultura italiana e mundial.

 

Abaixo, reproduzimos o texto  Luchino Visconti: visão de mundo e visão de história, de Oswaldo Munteal e Nashla Dahás, que aborda com muita pertinência peculiaridades da obra de Visconti, além de fazer um rico sobrevôo sobre a sua trajetória, especialmente como cineasta:

 

Se queremos que tudo fique como está...

então é preciso que tudo mude.

(O leopardo - Giuseppe Tomasi di Lampedusa)

 

No filme O leopardo, o diretor Luchino Visconti abre as primeiras cenas com um diálogo de pureza clássica acerca do dilema do século XIX, através dos atores que representam o padre jesuíta e o príncipe de Salina. A trama se apresenta assim nos seus primeiros passos: Padre “– Dom Tancredi deveria evitar certas amizades... e de andar com pessoas perigosas.”; Príncipe de Salina “– A culpa não é dele, mas dos tempos que correm!”.

 

O sofrimento da proximidade pode ser tão violento quanto o da distância, e esta é uma máxima das relações afetivas. Pode-se supor, nesta mesma partida, que na história contada por Visconti sobre a Itália contemporânea, a chegada do novo faz sofrer tanto quanto a crise de valores da antiga ordem, persistindo para não sucumbir por completo.

 

O diretor conduz a trama do príncipe sob a defesa de uma concepção de história que procede por saltos. O enredo ou a teia da política italiana do século XIX nas obras Senso, O inocente e O leopardo, cedem freqüentemente à tentação das grandes crises que provocam as mudanças sociais e de mentalidades. É como se o tempo histórico se acelerasse nos momentos de ruptura. Ainda que seja uma ilusão para os historiadores, no cinema funciona muito bem. Luchino Visconti parece imerso numa dimensão de tempos simultâneos: a Itália do renascimento, a península meridional durante a unificação, e o fantasma do fascismo. Senso e O leopardo explicitam tensões em torno da luta dos italianos pela autonomia política, contra os estrangeiros – austríacos e franceses – e pela república.

 

Em O inocente, a classe burguesa já estabelecida dá tudo que tem pela sua afirmação ideológica e existencial, diante do rolo compressor representado pela ofensiva aristocrática, que resistia aos novos tempos.

 

Os dilemas da civilização

 

O embate entre as forças conservadoras e a emergência do ideário liberal foi imortalizado pela obra de Karl Polanyi, especialmente em A grande transformação. O esforço analítico de Polanyi no sentido de compreender o significado do século XIX e a virada para o século XX, até hoje representa um ponto de transição para o entendimento do processo de mutação mental e econômica do nosso tempo. A obra de Polanyi teve um impacto relevante para a geração de intelectuais da primeira metade do século XX. Dentre os artistas envolvidos nesta perspectiva pode-se indicar a filmografia de Visconti como um criador preocupado com a crise civilizacional do seu tempo.

 

Deve-se tomar aqui a noção de civilização como uma relação entre o passado e o presente e como forma de releitura do futuro. Portanto a civilização não se refere necessariamente à experiência do passado de uma maneira imóvel ou engessada, mas por outro lado pela capacidade que os povos têm de resignificar a experiência civilizatória para o futuro.

 

Portanto, civilizar refere-se a uma mobilização que aponta para uma dimensão analítica aonde o indivíduo explicita a sua vontade a partir da quebra de hierarquias com o passado. Visconti contribui para esta discussão a partir de um exame sobre as origens dos valores ocidentais, e também pela investigação sobre a crise civilizacional européia ensejada pela ascensão do nazi-fascismo.

 

A trilogia sobre a história da Itália reforça o peso do passado para Visconti e mostra como é possível rever valores em pleno vôo da experiência histórica italiana. Num dos diversos monólogos do príncipe de Salina, sozinho ou acompanhado, aparece com destaque o dilema da civilização:

 

Sou um expoente da velha classe... fatalmente comprometido com o Antigo Regime e ligado a este por vínculos de decência mais que por afeto...A minha é uma geração infeliz... dividida em dois mundos e pouco a vontade em nenhum deles. Além disso, eu não tenho ilusões... Há mais ou menos vinte e cinco séculos nós carregamos nos ombros essa civilização heterogênea... mas estamos muito cansados, vazios e apagados.

 

Tradição e desencantamento


 
No filme O Leopardo, Visconti mostra que o sofrimento da proximidade pode ser tão violento quanto o da distância. Foto: Divulgação

 

O desencantamento do mundo sentido por Luchino Visconti parece ter alguma relação com a sua biografia e a sua trajetória familiar e afetiva. Além disso, com a identidade demonstrada por ele relativamente ao sexo oposto para realizar neste o seu próprio desejo, isto é, de ser o outro.

 

Nesta dimensão os sentidos de Visconti ficaram ainda mais apurados para a compreensão acerca do isolamento, da solidão e da violência do mundo contemporâneo. Uma procura incessante do que ele não tinha como forma de obtenção do prazer estético proporcionado pelos seus filmes. A diferença é uma marca de Senso, O leopardo e O inocente.

 

A chegada ao poder de uma classe bastarda, sem cultura e pusilânime, no entender de Visconti, compromete todo o esforço representado pela tradição aristocrática a partir da edificação de um mundo moderno marcado pela arquitetura, pela música e pelo bom gosto.

 

Isto fica expresso claramente em O leopardo. O príncipe de Salina olha para trás e vê a história, olha para o presente e vislumbra a chegada de um cosmopolitismo bárbaro, e ao contemplar as perspectivas para o futuro, enxerga o triunfo dos oportunistas burgueses numa busca incessante por posições sociais.

 

O cosmopolitismo viscontinano está com os pés fincados na arte, e no prazer que ela pode proporcionar, sobretudo através do belo como ideal de uma civilização decadente. Os nacionalistas burgueses com seus hábitos rudes e pragmáticos matam a cultura, e os seus significados. Os fascistas que aparecem em outras obras do diretor também têm a capacidade de destruir, e com uma maior sofisticação ao odiar a cultura apartando qual quer possibilidade de valorização da diferença.

 

Raposas, leões e leopardos

 

A zoologia política moderna conferiu aos políticos denominações de animais a fim de caracterizar determinados padrões de comportamento e ação social. Maquiavel ajuda-nos a compreender a dinâmica das relações de poder na modernidade, apresentando as raposas e os leões como dois modelos para os príncipes italianos.

 

O primeiro bicho é a raposa, que calcula, espreita e possui a capacidade de se tornar invisível. Leões e leopardos são de outra ordem, pois têm a função da proteção, do combate e da guerra. Maquiavel mostra ao moderno príncipe que poucos podem ou conseguem reunir as duas qualidades num só político.

 

Visconti com o faro da cultura política do seu tempo percebe que o livro de Lampedusa incorpora a velha tradição renascentista para caracterizar o príncipe de Salina. A arte da caça foi substituída pelo prazer da substituição do Antigo Regime. O embate entre os aristocratas e os burgueses pode ser traduzido nas próprias ações do príncipe leopardo. Ele mostra que o desejo da nova classe dirigente, que chegou ao poder após a unificação italiana, está localizado numa apropriação singular da modernidade. A paixão da antiga nobreza proprietária de terras e de títulos refere-se a uma Itália ancestral. Em O leopardo Visconti expõe seus protagonistas a inúmeras cenas de choque com a tradição e com os valores morais, estéticos e políticos dos personagens e também do diretor.

 

Notas sobre a vida e a obra de Luchino Visconti

 

De origem nobre, pertencente a uma poderosa família de Milão, Luchino Visconti nasceu nessa cidade da Lombardia em dois de novembro de 1906. Teve uma sólida educação clássica entre os seus costumes juvenis, como as corridas de cavalo e as temporadas de verão no palácio da família. Estudou violoncelo por dez anos e foi encenador teatral de peças dramáticas e óperas antes de iniciar-se no cinema como assistente e figurinista do cineasta francês Jean Renoir.

 

A partir desse momento, Visconti iniciou uma trajetória de sucessos que o levou a ser considerado um dos mais importantes realizadores da história do cinema e uma forte expressão do movimento neo-realista. Com filmes renovadores na temática, na linguagem e na relação com o público, uniu em sua obra a percepção para ópera ao cinema e uma grande profundidade dramática. A decadência, o estetismo e a crítica social são marcas da sua produção artística e intelectual.

 

Pode-se observar na vida de Luchino Visconti um caráter informativo acerca de sua obra, de forma que o conhecimento de certos aspectos pessoais possibilita uma melhor compreensão da sua arte. Os vínculos da hereditariedade, as heranças familiares e as experiências adquiridas produzem certa familiaridade do cineasta com os temas, problemáticas e críticas abordados em seus filmes. A ostentação aristocrática de sua infância, o período da Belle Époque vivido e a associação com o comunismo são aspectos particulares da vida de Visconti que marcam obras em que demonstra seu pleno conhecimento das estruturas de classe da Itália, seu engajamento político e grande intimidade com a arte.

 

Visconti morreu em 17 de março de 1976 durante a produção de seu último filme, O inocente, cuja montagem foi terminada por Ruggero Mastroianni. Para financiar seu primeiro filme, Visconti vendeu algumas jóias da família. Ossessione (1942; Obsessão) baseado no romance The Postman always Rings Twice (O carteiro sempre toca duas vezes), do americano James Cain, foi filmado em ambientes naturais, somando atores profissionais a residentes locais.

 


 
No filme Rocco e seus irmãos, Visconti apresenta um painel da migração italiana. Foto: Divulgação
 

Além de uma temática que gerou polêmica, – mulher planeja com o amante matar o marido – este filme introduziu importantes preceitos do neorealismo. No fim da segunda guerra mundial filmou a execução do chefe da polícia política italiana Pietro Caruso, para o documentário realizado em 1945: Giorni di gloria.

 

Em 1948 documentou a vida de pescadores da Sicília em La terra trema. Neste filme, ao utilizar um elenco inteiramente amador composto por pescadores de verdade, causou uma verdadeira revolução e com isso ganhou o prêmio do Festival de Veneza. Ainda seguindo os preceitos do movimento neo-realista, fez Belíssima, crítica à ilusão do estrelato propagada pelo cinema.

 

Na década de 1950, Visconti alternou a criação cinematográfica com a montagem de peças teatrais e óperas. Na Itália introduziu a obra de dramaturgos como Jean Cocteau, Sartre, Arthur Miller, Tennesee Williams e Erskine Caldwell. Na produção de ópera estrelada pela soprano Maria Callas, obteve sucesso internacional com a combinação de realismo e teatralidade em La traviata (1955), La sonnambula (1955) e Don Carlos (1958).

 

A trajetória do cineasta italiano Luchino Visconti ganhou novo sentido com Senso. Este é o filme em que pela primeira vez surge o tema central que marcaria sua obra: a decadência da aristocracia européia, do seu mundo e valores. A adaptação do conto “Senso” de Camillo Boito se passa no norte de Veneza, na primavera de 1866, durante o processo de unificação italiana conhecida como Il Risorgimento. Retrata a luta dos venezianos pela libertação da região do Vêneto do domínio da Áustria. O diálogo com a ópera de Verdi, compositor símbolo da Unificação, e uma trama organizada em atos mostram a grande influência do teatro e da ópera no estilo cinematográfico de Visconti, que faz da sua interpretação da história da Itália um espetáculo cênico.

 

O filme evidencia o início de uma fase intimista e decadentista do cineasta, expressa através do sentimento de horror à guerra explicitado, sobretudo pelas falas de Mahler. O tenente austríaco vê na decadência do Império da Áustria o seu próprio fim e na luta do primo revolucionário de Lívia, a aristocrata italiana, o anúncio de um novo mundo do qual não fará parte.

 

A transição de mundos, gerações e ideais é freqüentemente discutida por Visconti em sua obra. O cineasta não retrata em seus filmes, apenas as transformações progressivas que perpassam velhos e novos tempos, mas leva em conta a permanência histórica e, sobretudo a interação entre ambas. A capacidade das velhas forças e ideais para assimilar e retardar movimentos de transformação é valorizada através da força que exerce a tradição nessas sociedades.

 

Nos anos 1950, adaptou ainda Dostoievski no pouco visto Noites brancas. Outro ponto alto foi Rocco e i suoi fratelli (1960; Rocco e seus irmãos), dialogando com o neo-realismo, este filme é um painel da migração italiana. Com ele, ganhou o Grande Prêmio do Júri em Veneza. Três anos depois, Luchino Visconti, herdeiro de uma linhagem nobre, um esteta aristocrata, reflete sobre a decadência de sua própria classe em O leopardo, considerado uma das obras mais importantes da história do cinema.

 

Baseado no romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, o tema da Unificação italiana é retomado, desta vez no sul, especificamente na Sicília. Trata-se do período em que a monarquia absolutista de Bourbon foi derrubada pelas forças revolucionárias de Garibaldi, resultando na anexação do Reino das duas Sicílias à Alta Itália formando o reino da Itália em 1861.

 

O leopardo reconstitui o ambiente de transição entre uma aristocracia decadente financeiramente e uma classe burguesa em ascensão. Nesse contexto, através da sua leitura da história italiana, Visconti revela uma perspectiva de decadência em relação aos tempos que estão por vir. Protagonista, o príncipe de Salina, interpretado pelo americano Burt Lancaster, é a unidade de sentido pela qual o espectador vê o mundo, seus olhos refletem a percepção das mudanças na estrutura de poder então dominante, o entendimento da irreversibilidade dessas transformações e por fim, os sentimentos de recusa e repúdio aos novos valores burgueses. A consciência histórica de Visconti passa pela sensibilidade e o desencanto de dom Fabrizio de Salina ao ver a substituição do seu próprio mundo aristocrático por outro unicamente capaz de vigorar no futuro.

 

A obra conta ainda com a beleza de Cláudia Cardinale e do ator Alain Delon. A atriz não assume apenas um aspecto decorativo, mas enche o filme de um olhar completamente diferente sobre a burguesia nascente. É com ela que Tancredi, sobrinho direto de Dom Fabrizio, representado por Alain Delon, se casa, garantindo através do matrimônio a continuidade da influência da família no poder, e a sua própria sobrevivência social.

 

Era a velha aristocracia resistindo e adaptando-se aos novos tempos. O leopardo destaca-se ainda pela brilhante trilha sonora dirigida por Nino Rota, que contém uma valsa inédita de Giuseppe Verdi, e pela bela fotografia de Giuseppe Rotunno.

 

Em 1865, Visconti atualizou o mito de Electra em Vagas estrelas da Ursa, abordando o tema do incesto. Dois anos depois, Visconti adaptou O estrangeiro, de Albert Camus. Em 1969, teve início a “trilogia da aristocracia alemã”, com Os deuses malditos, radiografia da ascensão do nazismo na Alemanha a partir da degradação de uma família de industriais. A segunda parte da trilogia foi realizada em 1971 – Morte em Veneza, adaptação da novela de Thomas Mann, um dos seus escritores favoritos.

 

A trilogia chegou ao fim em 1973, com Ludwig, a paixão de um rei. Nos seus últimos anos de vida, mesmo debilitado numa cadeira de rodas, controlou todas as etapas de produção de dois filmes – Violência e paixão e O inocente (L´Innocente, 1976). Este, seu último filme, é uma adaptação livre do romance de Gabriele D’Annunzio no qual o cineasta encerra o seu retrato da aristocracia decadente da Itália do século XIX.

 

Ao invés do grande painel histórico do Risorgimento italiano apresentado em O leopardo, em O inocente, Visconti expõe o cotidiano de tradição e luxúria da alta aristocracia italiana através da vida conjugal do aristocrata Tullio e da esposa Giulliana. O comportamento ambivalente de Tullio, personagem central, se transforma em tragédia quando a esposa, desprezada pelo marido, cai nos braços de um escritor, e anuncia sua gravidez.

 

Trata-se de um filme sobre o vazio conjugal de uma classe em decadência. A vinculação aristocrática se reflete na personalidade de Tullio tornando-o um homem ambivalente e crivado de contradições íntimas. O filme exibe um desfilar de gente refinada, bem vestida, cercada por trajes, objetos, móveis e cenários aparentemente deslumbrantes, mas que ocultam grandes feridas provocadas pelo nacionalismo europeu, pelas guerras que se aproximam e deixando-se dominar e corromper pelas perversões sexuais.


 
A consciência histórica de Visconti passa pela sensibilidade e o desencanto. Foto: Divulgação

 

A isso, Visconti acrescenta ainda um quarto elemento: a vulgaridade dos tempos modernos que invade e sufoca a elite por todos os lados. O afresco viscontiano revela a contradição, tipicamente decadentista, entre um ambiente dominado pelo tédio, luxo e requinte, onde se movem seus personagens, e a percepção deles de uma ausência de futuro.

 

Visconti não realizou um de seus maiores sonhos, o de levar para as telas Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust, mas deixou, no entanto, uma importante obra cinematográfica e é sem dúvida um dos grandes nomes da história do cinema.

 

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(© Oriundi)


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