ARAUJO
NETTO
ROMA - Na manhã de hoje,
o ministro do Interior da Itália, Claudio Scajola, encontrará em sua mesa de trabalho um
relatório que deixa mal a polícia encarregada de manter a ordem nos três dias da
reunião dos estadistas dos países do Grupo dos Oito (G-8), em Gênova. No documento,
três inspetores do ministério chegam a conclusões que agravam as responsabilidades dos
policiais pelas cenas de caos, violência e batalhas sangrentas que continuam causando
danos à imagem da Itália, da sua polícia e de seu governo.
''Houve erros, omissões e violência
gratuita'', afirmam os três inspetores, escolhidos pelo próprio ministro para uma
primeira sindicância sobre as acusações reiteradamente lançadas contra os desmandos e
atos de tortura psicológica e física praticados por muitos dos quase 19 mil homens das
várias polícias do Estado (muitos deles inexperientes e despreparados) para garantir o
bom andamento da cúpula que reuniu oito dos principais lideres mundiais.
Depois da completa divulgação desse relatório dos inspetores do Ministério do
Interior, que se espera seja autorizada pelo governo, o mais provável é que tanto
Scaloja quanto o primeiro-ministro Silvio Berlusconi deixem de insistir na versão de que
em Gênova as forças da ordem limitaram-se a responder à violência de quem se
manifestou contra os rumos atuais da globalização.
Depois de ouvir centenas de pessoas, todas elas envolvidas, participantes como agressores
e agredidos e testemunhas dos conflitos, episódios de vandalismo, agressões e revides
ocorridos nas praças, ruas, escolas e quartéis militares de Gênova, os três inspetores
- sem mencionar nomes dos culpados e suas vítimas - confirmam que se verificaram casos de
violência gratuita por parte de alguns grupos e divisões encarregados de garantir a
ordem pública. ''Muitas vezes, eles bateram não quando deviam investir, enfrentar ou
rechaçar assaltos e ameaças, em momentos e circunstâncias em que tudo pode acontecer,
mas friamente, depois de terminados os confrontos.''
Nos muitos documentários de TV realizados por diversos autores (profissionais e
amadores), os inspetores do Ministério do Interior mandados por Roma a Gênova
encontraram ''imagens muito eloqüentes'', que em certos casos permitirão inclusive a
identificação dos executores das violências e de funcionários que, presentes e
assistindo, não souberam conter os excessos de seus próprios comandados.
No quartel de Bolzanetto, foram recolhidos mais de 100 contestadores que dormiam numa
escola pública cedida ao Fórum Social de Gênova pela prefeitura; na madrugada do
domingo 22 de julho (dia do encerramento do G-8), eles foram acordados pelos cassetetes,
chutes, socos e gritos de um pelotão de policiais. No relatório, o inspetor Salvatore
Montanaro diz em poucas palavras tudo e o pior: ''Constatamos a prática de atos de
violência e abusos, antes e depois da chegada dos presos ao quartel gerido pela Digos [a
divisão de investigações e operações especiais]e pela esquadra móvel [espécie de
rádio-patrulha) de Gênova.''
As revelações feitas ontem e um discurso do presidente da República, Carlo Azeglio
Ciampi, recordando que a verdade não se negocia e recomendando a completa apuração das
responsabilidades sobre os ''fatos de Gênova'', obrigaram a coalizão partidária de
direita que o apóia o governo Berlusconi a aceitar o que até a véspera era considerado
inaceitável pelos líderes da maioria na Câmara e no Senado: a constituição de uma
comissão de sindicância, integrada por parlamentares de vários partidos, que na segunda
quinzena de setembro apresentará também um relatório sobre o comportamento dos
policiais italianos em Gênova.
Policiais que, segundo testemunho de presos de várias nacionalidades, espancados,
xingados e torturados em Gênova, no quartel de Bolzanetto, gritavam vivas a Pinochet, a
Mussolini e obrigavam suas vítimas a fazer a saudação fascista. (JORNAL DO
BRASIL) |