CARLOS HEITOR CONY RIO DE JANEIRO - O governo
italiano, na semana passada, negou a extradição do banqueiro Cacciola, pedida
formalmente pela Justiça brasileira. A impressão que ficou do episódio policial foi a
de armação. Sabia-se que a extradição seria negada.
Com isso, mais um episódio de corrupção fica sem a devida apuração.
Evidente que o banqueiro está com o nome sujo -mas dinheiro, como dizia um imperador
romano, ""non olet", não cheira.
O problema é que a corrupção não é um episódio de mão única. Não
é ato solitário, tem necessariamente um parceiro, só é possível em regime de mão e
contramão.
E os parceiros de Cacciola, sejam os corrompidos sejam os corruptores -ou
as duas categorias juntas-, continuam no Brasil e não precisam da licença da Itália
para serem investigados e punidos.
Por sinal, a Itália ganhará mais uma atração turística, tal como o
Brasil ganhou Ronald Biggs, o ladrão inglês que cobrava por fotos, almoços e passeios
das agências de viagens. Uma foto ao lado do ladrão, aos pés do Cristo Redentor ou em
cima do Pão de Açúcar, era um suvenir disputado e caro.
Rica em monumentos históricos, a Itália terá, agora, além do Coliseu,
da torre de Pisa e do papa, mais uma atração para os turistas brasileiros. Tirar uma
foto ao lado de Cacciola, junto às ruínas do Foro Romano ou da Fontana di Trevi, será
um troféu, um certificado de globalização e de modernidade.
Tivemos exilados ilustres. José Bonifácio, d. Pedro 2º, Ruy Barbosa,
Washington Luiz, JK, Jango, Prestes, Arraes, Brizola. O instituto do asilo se justifica em
casos assim, de trapalhadas políticas.
Ganha a Itália mais um atrativo, ganha Cacciola a liberdade, e ganham
seus parceiros aqui no Brasil, que, livres, poderão financiar outros trambiques com o
dinheiro da nação. (FOLHA DE S. PAULO)
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