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Crescem protestos contra clonagem humana prometida por italiano

09/08/2001

 

 


da Folha de S.Paulo

   A clonagem humana é contrária à ética européia, afirmou hoje a Comissão Européia, depois do anúncio do médico italiano Severino Antinori, feito diante da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, de que pretende iniciar experimentos de clonagem em novembro.

  "A Comissão Européia se pronuncia contra a clonagem de seres humanos pela simples razão de que essa tecnologia vai contra os sentimentos éticos dos cidadãos europeus", declarou a porta-voz Andrea Dahmen. "Além disso, essa tecnologia se encontra num estado muito precoce."

   O debate de ontem, do qual também participaram Panos Zavos, sócio de Antinori, e a química Brigitte Boisselier, chefe do projeto de clonagem humana da seita dos raelianos, deveria ser um pedido de explicações por parte da comunidade científica. Mas acabou virando um bate-boca entre os membros da academia _opostos à produção de cópias de seres humanos_ e os paladinos da clonagem.

   Durante o painel, Rudolf Jaenisch, biólogo pioneiro na clonagem de animais, disse que "isso [a clonagem] não é boa ciência".

   Jaenisch e Panos Zavos, que dirige uma clínica de fertilidade em Kentucky, repetidas vezes interromperam um ao outro, com Zavos protestando que não deixaria Jaenisch lhe dar lições de moral.

   Zavos e Antinori não estão mesmo dispostos a dar satisfações aos cientistas. Deixaram isso claro de saída, ao se recusar a revelar o país onde seu clone será produzido.

   Outra crítica feita à dupla pela comunidade científica é que seu suposto método de clonagem reprodutiva não foi submetido ao crivo de seus pares por meio de publicação _procedimento inerente a qualquer pesquisa. Mantendo-se à margem da ciência, os proponentes da clonagem ganham liberdade de ação.

Pedido à ONU

   Por outro lado, a aparição de Zavos, Antinori e Boisselier perante a Academia Nacional de Ciências dos EUA marca a abertura total do debate, já que a produção de um clone, agora, é uma questão de tempo. "Suas declarações são paradoxalmente construtivas", afirma editorial de hoje do jornal francês "Le Monde".

   A França, aliás, juntou-se à Alemanha para pedir ao secretário-geral da ONU, Kofi Annan, a abertura de negociações para a elaboração de uma convenção universal que proíba a clonagem humana com fins reprodutivos. França e Alemanha querem que esse assunto figure na agenda da 56ª sessão da Assembléia Geral das Nações Unidas, que acontecerá em setembro, em Nova York.

   O Vaticano também reagiu: "O valor de um homem não é o mesmo de um rato", disse o monsenhor Elio Sgreccia, vice-presidente da Pontifícia Academia para a Vida do Vaticano e conselheiro do papa João Paulo 2º.

   "Alguém disse que a clonagem é a pior manifestação de escravidão humana", afirmou Sgreccia. (FOLHA ONLINE)
"Pai" do 1º clone humano é herói para uns e vilão para outros

da France Presse, em Roma

   O ginecologista italiano Severino Antinori, 56, que costuma dizer que as "mães que já ultrapassaram todos os limites, são o seu desafio", causou polêmica nesta semana ao afirmar a sua intenção de clonar bebês humanos.

   O médico, que comemora o sucesso em ajudar mulheres que já passaram da menopausa a engravidarem, e quer clonar seres humanos foi comparado ao ditador Adolf Hitler pelo prefeito da Congregação pela Doutrina da Fé, o cardeal Joseph Ratzinger.

   Antinori, que se diz crente, mostra-se indignado com "esta Igreja que defende a vida e castiga aqueles que desejam ter filhos". O médico afirmou ainda que a ciência italiana deixa o futuro nas mãos dos "Talibãs" católicos.

   Nascido em Civitella del Tronto, uma pequena cidade próxima do braço adriático do Abruzzes, o doutor Antinori, ginecologista especializado em inseminação artificial, inaugurou com sua esposa, a bióloga Caterina Versaci, um Centro de Pesquisas para Reprodução Assistida (RAPRUI) em 1980.

   No seu rico consultório em Roma, próximo ao Vaticano, cuja oposição aos seus projetos cresce cada dia mais, este homem corpulento de cabelos e bigodes bem cuidados e grisalhos recebe milhares de casais estéreis do mundo inteiro, para tentar a inseminação artificial.

   O médico fez uma tentativa fracassada de entrar na política nas eleições regionais de 2000 no Lazio na sigla "Autonomia Liberal", que "defende o direito à vida". "O parteiro das avós" ou, segundo seus inimigos","aquele que avalia suas mulheres por seus úteros", é contra o aborto.

   Doutor Antinori não sai das primeiras páginas dos jornais desde dezembro de 1993, quando uma paciente de 59 anos, uma rica executiva inglesa, deu à luz a gêmeos.

   No dia 18 de julho de 1994, Rosanna Della Corte, teve um bebê aos 63 anos "para preencher sua vida depois da morte de seu primeiro filho num acidente". Desta forma, Antinori entrou para o livro Guiness de recordes e atraiu a reprovação geral da comunidade científica e da sociedade civil.

   Ele garante que hoje dezenas de milhares de "avós-mães" existem pelo mundo inteiro graças a sua técnica de inseminação. Em outubro de 1995, ele anunciou que um padre estéril seria pai. Entretanto, a Ordem dos Médicos interveio e o relato revelou-se um golpe de marketing.

   Em outubro de 1996, ele fez nascer um casal de gêmeos com uma técnica inovadora desenvolvida em suas experiências extremas para ultrapassar os limites da fertilidade.

   Desde março de 2001, ele tenta um passo a frente e anuncia que vai clonar 50 bebês em Israel. Entretanto, este país não permite clonagem no seu território.

   O ginecologista "aprendiz de feiticeiro", grande amante da mídia, reiterou neste mês sua intenção de clonar bebês, revelando o recrutamento de 200 casais voluntários.

   "Eu não farei crianças idênticas, eu farei milhares de casais felizes", afirmou ele antes de embarcar para Washington onde vai falar sobre seu projeto para a Academia Nacional de Ciências Norte-Americana.
(FOLHA ONLINE)
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