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Mais de 90 brasileiros são publicados na Itália

13/08/2001

 

 


A terra é nostra - Paulo Coelho não reina sozinho em pátria estrangeira • Mercado aposta em nomes como Moacyr Scliar e Ubaldo Ribeiro

RAUL MOREIRA, ESPECIAL PARA O CADERNO G

   Roma – Em 1882, quando o Brasil ainda era uma monarquia, a tipografia B. Sborgi, de Florença, com tradução de Riccardo Ceroni, publicou La Lega dei Tamoi (A Confederação dos Tamoios, 1856), do médico e poeta Gonçalves de Magalhães. Tratava-se, no caso, do primeiro livro de literatura genuinamente brasileira traduzido na Itália.

   Passados 119 anos, são mais de 90 os autores brasileiros publicados na Itália, número que merece todo respeito, como reconhece o próprio mercado editorial local, ainda que, com exceção de Jorge Amado – Paulo Coelho é um fenômeno à parte –, o grande público praticamente desconheça os demais escritores. "Seria muito exigir que a maioria dos italianos, que pouco lêem, saibam quem seja Clarice Lispector ou mesmo Murilo Mendes", diz a italiana Luciana Stegagno Picchio, a mais famosa brasilianista da Europa e autora do elogiado História da Literatura Brasileira.

   Segundo ela, mesmo com a febre pelos autores portugueses, que explodiu após o Nobel de Literatura conquistado por José Saramago e do esforço do governo lusitano em divulgar seus escritores, o Brasil continua a emplacar na Itália, ainda que para um público restrito. "A cada dia os editores descobrem novos autores", diz a italiana, creditando o fenômeno, também, ao fortalecimento dos laços que unem os dois países. "Itália e Brasil nunca estiveram tão juntos".

   Confirmando as palavras de Stegagno Picchio, o responsável pelo departamento de língua portuguesa da editora Einaudi, Paolo Collo, diz que o Nobel conquistado por José Saramago levantou a bola dos lusitanos na Itália, mas não deixou os primos brasileiros em segundo plano. "Certo que depois de Saramago o interesse por Portugal cresceu, com o público buscando escritores como Fernando Pessoa ou mesmo Lobo Antunes. Mas a literatura brasileira continua nos interessando", diz, para depois acrescentar: "Nosso critério para publicar um autor do Brasil passa pela qualidade do texto. Mas estamos abertos às novidades".

Descolado

   Eclética nas escolhas, a Einaudi publicou brasileiros dos mais diversos gêneros nos últimos anos. Assim, além de I Sotterranei della Libertà (Os Subterrâneos da Liberdade), de Jorge Amado – escritor de quem detém os direitos de todos os livros –, a editora de Turim resolveu apostar, por exemplo, em Jô Soares, ao lançar Samba per Sherlock Holmes (O Xangô de Baket Street) e L'uomo que Ucise Getúlio Vargas (O Homem que Matou Getúlio Vargas). "Para o público italiano, Jô era um mero desconhecido, mas nós julgamos que seus livros eram potencialmente interessantes", explica Collo.

   De acordo com o editor, de uma maneira geral o grande público italiano ainda pensa em Jorge Amado quando se fala de literatura do Brasil, mas, nos últimos anos, uma fatia mais seleta vem descobrindo outros autores. "João Ubaldo Ribeiro, Darcy Ribeiro, Diogo Mainardi, Paulo Lins e Machado de Assis são apenas alguns dos escritores apreciados pelos nossos leitores, sem falar daqueles publicados através de outras editoras", diz. Ainda segundo Collo, não vendem como Paulo Coelho, mas, certamente, quem os absorve é gente mais refinada intelectualmente e com interesses amplos.

   Quem também resolveu apostar nos autores brasileiros foi a Voland. Fundada há cinco anos, inicialmente a editora concentrou-se na publicação de livros eslavos, mas, depois, a sua proprietária, Daniela Di Sora, descobriu Moacyr Scliar. "Fiquei apaixonada pelo seu texto, tanto que publicamos L'orecchio de Van Gogh (A Orelha de Van Gogh) e estamos tentando comprar os direitos de O Centauro no Jardim, conta, para depois revelar: "Os italianos lêem os americanos só porque são os americanos, mas, no caso de Scliar, levam seu livro para casa pelo fato de tratar-se de um autor de qualidade".

   Na verdade, comprar os direitos de um livro de Moacyr Scliar, por exemplo, não é uma tarefa complicada, até mesmo para uma editora pequena, como é o caso da Voland. Para se ter uma idéia, A Orelha de Van Gogh custou aos seus cofres pouco mais de US$ 700, sendo que ao autor foi garantido entre 6% e 7% do montante das vendagens. "Não vislumbramos ganhar muito dinheiro. O importante é a satisfação", diz Di Sora, lembrando que o processo se repetiu com Felice Anno Nuovo (Feliz Ano Novo), de Rubem Fonseca, que vendeu 1,7 mil cópias. A Voland também publicou Undici (Onze), de Bernardo Carvalho.

   Mais do que os direitos autorais e os custos de impressão, falando-se das pequenas editoras, a publicação hoje na Itália de um autor brasileiro é encarecida pelo alto preço das traduções. As editoras divergem quanto aos valores, mas, segundo a brasilianista Luciana Stegagno Picchio, uma lauda de 20 linhas pode custar até US$ 10. "Levando-se em conta que cada página normalmente absorve duas laudas, para traduzir um livro de 300 páginas, por exemplo, um profissional do ramo fatura US$ 6 mil", calcula a italiana, célebre tradutora dos livros de Murilo Mendes e Carlos Drumond de Andrade, entre outros. (Gazeta do Povo)

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