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"Esquecia datas, nomes, esquecia até dele próprio"

13/08/2001

O pintor Volpi nasceu em Lucca, na Itália e viveu no Cambuci

 


O crítico Walter Zanini tentou entrevistar o lacônico Volpi e quase fracassou na tentativa

WALTER ZANINI

   Nunca senti tanta dificuldade para entrevistar um artista, como desta vez. Realmente, fazer com que Volpi fale do seu passado, um passado não muito longo, é qualquer coisa de árduo, de penoso, de quase impossível.

   Fiquei duas ou três horas procurando exumar algo daquela cabeça que Bruno Giorgi esculpiu com tanta riqueza plástica, algo da sua vida artística, da sua existência humilde, mas repleta de colorido interior, do que pensa ou que pretende fazer. Desesperavamo-nos. Volpi esquecia as datas, esquecia os fatos, esquecia os nomes, esquecia tudo, até dele próprio.

   "Bem, isto foi antes da guerra, aí, no 37. Ou, espera: se não me engano, foi no 33. Bem, eu não me lembro. Só sei que foi antes da guerra; não da 1.ª, da 2.ª."

   Em sua linguagem característica, semibrasileira, semi-italiana, linguagem terrivelmente confusa e difícil para quem não está habituado a ouvi-lo e a compreendê-lo, somada à sua figura desengonçada e bela ao mesmo tempo, vestida indefectivelmente por um trajar despreocupado, grotesco, enganará fatalmente ao observador superficial. Ninguém enxergará nele, um dos valores mais depurados da pintura brasileira.

   Quando terminei a entrevista, mal tinha na mão algumas frases soltas, uns magros apontamentos, assim mesmo imprecisos, sem ordem cronológica - uma embrulhada. Não quisermos insistir, porque o artista, com sua mímica humorizada, apressava-se em dizer que o que tínhamos já dava para um livro.

   Um livro! Talvez, nem para uma página. Por isso, fui correndo à procura de Benedito Lacorte Peretto, o secretário do Clube dos Artistas, e perguntei a ele se existia alguma coisa que pelo menos permitisse reconstituir alguns lances da vida de Volpi. Deu-me então, Peretto, alguns recortes de jornais de diferentes épocas. Mas, o material pouco trazia de seus 58 anos de existência. Em todo caso, encontramos, em meio à papelada, algumas opiniões sobre o Volpi artista e sobre o Volpi homem, o que quase sempre vem a dar no mesmo. Por curiosidade, vou transcrevê-las.

   Sérgio Milliet afirmou, certa vez: "Um Volpi é sem dúvida alguma um artista de valor e passível pela sua obra, não só de suportar o cotejo com os artistas elogiados, mas ainda de suplantar a quase todos." Rubens Braga, encontrando Volpi em Paris, mandou para São Paulo uma crônica engraçada, na qual dizia que o pintor paulista se destacava por ser um exímio "manjador de polenta". O inquieto Valdemar Cordeiro gosta muito dele e nas vezes em que tem falado da sua obra, procurou fazer crítica: "Alfredo Volpi, o genial pintor que deu a verdadeira dimensão à arte sacra contemporânea no Brasil."

   De Quirino da Silva, é esta sentença: "Nasceu pintor. Vive com a pintura e da pintura vive." Menotti, arriscou: "A falta de ambiente encurta seus possíveis vôos." Por fim, um juízo de Osório Cesar: "Volpi no seu estilo aparentemente ingênuo, mas que no fundo demonstra uma sabedoria profunda, cada vez mais se apresenta purificado de tudo o que é superficial e acadêmico."

   Embora o pessoalíssimo pintor tenha se esquecido de tanta coisa de que ora foi ator, ora expectador, recorda-se do ano em que nasceu: 1896. E também que isso se deu na Itália, em Lucca, de onde seus pais o trouxeram para São Paulo, dois anos depois. Que eles eram pobres, não é preciso dizer. O menino cresceu ali pelos morros e baixadas do Cambuci. Quando vestiu calças compridas, foi aprender a decorar paredes. Aos 13 anos, já desenhava. Mais um autodidata das artes plásticas. O que muitos aprendem em Roma ou em Paris com uma simples aula, ele leva às vezes um ano para descobrir. Mas, aprende.

   É desses talentos a que Taine se refere quando lhes falta uma temperatura moral para o desenvolvimento. Com uma diferença: que Volpi se esforçava por abrir aquela passagem fechada. E abriu aos poucos. Foi um grão que germinou sozinho. E curioso: por uma razão inexplicável, sem o saber, tomou o caminho dos impressionistas. O artesanato ele o trazia da decoração das residências, das construções. "onde se aprende bem o métier".

   "Lá - afirma - 'um' aprende como se faz o afresco a têmpera; e torna-se prática das artes decorativas." E Volpi ri com gosto, quando se lembra do estilo "liberty", tão em uso há uns anos. (O Estado de S. Paulo)

Texto do crítico Walter Zanini publicado em 'O Tempo', em julho de 1952

Nasceu em Lucca e viveu no Cambuci

Começou pintando frisos e arabescos em casas de ricos paulistanos

   O pintor Alfredo Volpi (1896-1988) chegou ao Brasil com 2 anos, vindo da bela Lucca, na Itália. Na juventude, vivendo no Cambuci, pintava paredes e decorava interiores de casas de gente rica para ganhar a vida.

   Entre os 12 e os 16 anos viveu assim, entre carpintarias e tipografias. O pai vendia frutas e legumes pelas ruas. Aos 16, passou a pintar frisos e arabescos em residências. Só começou a viver de sua arte nos anos 40, quando já traduzia as paisagens rurais do interior de São Paulo, de Itanhaém a Piracicaba, em quadros que se revelavam cada vez mais abstratos, prescindindo da figura.

   Nos anos 40, já era reconhecido pela crítica como uma figura única dentro da arte moderna brasileira, mas também sofria preconceito por não ter um desenvolvimento acadêmico, por sua natureza autodidata.

   "Como explicar, pois, esse silêncio, essa indiferença em torno de seu nome?", escreveu o crítico Luís Martins em 1941. "Pela própria natureza retraída e gauche do pintor. Porque ele é modesto, tímido, não sabe dar palpites, não freqüenta lugares onde os mais sabidos brilham. Porque ele não expõe e, quando o faz, é apenas nas mostras coletivas. Porque ele não sabe procurar os jornalistas nem tem jeito para se insinuar entre os críticos de arte", respondeu o próprio Martins.

   Esse estilo Volpi manteve até o fim, um sujeito simples que via o mundo por um filtro especialíssimo. (J.M.) (O Estado de S. Paulo)

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