Fiquei duas ou três horas
procurando exumar algo daquela cabeça que Bruno Giorgi esculpiu com tanta riqueza
plástica, algo da sua vida artística, da sua existência humilde, mas repleta de
colorido interior, do que pensa ou que pretende fazer. Desesperavamo-nos. Volpi esquecia
as datas, esquecia os fatos, esquecia os nomes, esquecia tudo, até dele próprio.
"Bem, isto foi antes da guerra, aí, no 37. Ou, espera: se não me
engano, foi no 33. Bem, eu não me lembro. Só sei que foi antes da guerra; não da 1.ª,
da 2.ª."
Em sua linguagem característica, semibrasileira, semi-italiana, linguagem
terrivelmente confusa e difícil para quem não está habituado a ouvi-lo e a
compreendê-lo, somada à sua figura desengonçada e bela ao mesmo tempo, vestida
indefectivelmente por um trajar despreocupado, grotesco, enganará fatalmente ao
observador superficial. Ninguém enxergará nele, um dos valores mais depurados da pintura
brasileira.
Quando terminei a entrevista, mal tinha na mão algumas frases soltas, uns
magros apontamentos, assim mesmo imprecisos, sem ordem cronológica - uma embrulhada. Não
quisermos insistir, porque o artista, com sua mímica humorizada, apressava-se em dizer
que o que tínhamos já dava para um livro.
Um livro! Talvez, nem para uma página. Por isso, fui correndo à procura
de Benedito Lacorte Peretto, o secretário do Clube dos Artistas, e perguntei a ele se
existia alguma coisa que pelo menos permitisse reconstituir alguns lances da vida de
Volpi. Deu-me então, Peretto, alguns recortes de jornais de diferentes épocas. Mas, o
material pouco trazia de seus 58 anos de existência. Em todo caso, encontramos, em meio
à papelada, algumas opiniões sobre o Volpi artista e sobre o Volpi homem, o que quase
sempre vem a dar no mesmo. Por curiosidade, vou transcrevê-las.
Sérgio Milliet afirmou, certa vez: "Um Volpi é sem dúvida alguma
um artista de valor e passível pela sua obra, não só de suportar o cotejo com os
artistas elogiados, mas ainda de suplantar a quase todos." Rubens Braga, encontrando
Volpi em Paris, mandou para São Paulo uma crônica engraçada, na qual dizia que o pintor
paulista se destacava por ser um exímio "manjador de polenta". O inquieto
Valdemar Cordeiro gosta muito dele e nas vezes em que tem falado da sua obra, procurou
fazer crítica: "Alfredo Volpi, o genial pintor que deu a verdadeira dimensão à
arte sacra contemporânea no Brasil."
De Quirino da Silva, é esta sentença: "Nasceu pintor. Vive com a
pintura e da pintura vive." Menotti, arriscou: "A falta de ambiente encurta seus
possíveis vôos." Por fim, um juízo de Osório Cesar: "Volpi no seu estilo
aparentemente ingênuo, mas que no fundo demonstra uma sabedoria profunda, cada vez mais
se apresenta purificado de tudo o que é superficial e acadêmico."
Embora o pessoalíssimo pintor tenha se esquecido de tanta coisa de que
ora foi ator, ora expectador, recorda-se do ano em que nasceu: 1896. E também que isso se
deu na Itália, em Lucca, de onde seus pais o trouxeram para São Paulo, dois anos depois.
Que eles eram pobres, não é preciso dizer. O menino cresceu ali pelos morros e baixadas
do Cambuci. Quando vestiu calças compridas, foi aprender a decorar paredes. Aos 13 anos,
já desenhava. Mais um autodidata das artes plásticas. O que muitos aprendem em Roma ou
em Paris com uma simples aula, ele leva às vezes um ano para descobrir. Mas, aprende.
É desses talentos a que Taine se refere quando lhes falta uma temperatura
moral para o desenvolvimento. Com uma diferença: que Volpi se esforçava por abrir aquela
passagem fechada. E abriu aos poucos. Foi um grão que germinou sozinho. E curioso: por
uma razão inexplicável, sem o saber, tomou o caminho dos impressionistas. O artesanato
ele o trazia da decoração das residências, das construções. "onde se aprende bem
o métier".
"Lá - afirma - 'um' aprende como se faz o afresco a têmpera; e
torna-se prática das artes decorativas." E Volpi ri com gosto, quando se lembra do
estilo "liberty", tão em uso há uns anos. (O Estado de S. Paulo)
Texto do crítico Walter Zanini
publicado em 'O Tempo', em julho de 1952
| Nasceu em Lucca e viveu no Cambuci Começou pintando frisos e
arabescos em casas de ricos paulistanos
O pintor Alfredo Volpi (1896-1988)
chegou ao Brasil com 2 anos, vindo da bela Lucca, na Itália. Na juventude, vivendo no
Cambuci, pintava paredes e decorava interiores de casas de gente rica para ganhar a vida.
Entre os 12 e os 16 anos viveu assim, entre carpintarias e tipografias. O
pai vendia frutas e legumes pelas ruas. Aos 16, passou a pintar frisos e arabescos em
residências. Só começou a viver de sua arte nos anos 40, quando já traduzia as
paisagens rurais do interior de São Paulo, de Itanhaém a Piracicaba, em quadros que se
revelavam cada vez mais abstratos, prescindindo da figura.
Nos anos 40, já era reconhecido pela crítica como uma figura única
dentro da arte moderna brasileira, mas também sofria preconceito por não ter um
desenvolvimento acadêmico, por sua natureza autodidata.
"Como explicar, pois, esse silêncio, essa indiferença em torno de
seu nome?", escreveu o crítico Luís Martins em 1941. "Pela própria natureza
retraída e gauche do pintor. Porque ele é modesto, tímido, não sabe dar palpites, não
freqüenta lugares onde os mais sabidos brilham. Porque ele não expõe e, quando o faz,
é apenas nas mostras coletivas. Porque ele não sabe procurar os jornalistas nem tem
jeito para se insinuar entre os críticos de arte", respondeu o próprio Martins.
Esse estilo Volpi manteve até o fim, um sujeito simples que via o mundo
por um filtro especialíssimo. (J.M.) (O Estado de S. Paulo) |