Edição recupera texto de discurso proferido pelo jesuíta, em 1674, em Roma
CLÁUDIO
FIGUEIREDO
A disputa travada
entre os padres Antônio Vieira e Girolamo Cattaneo no dia 6 de dezembro de 1674, em Roma,
diante de uma platéia seleta composta de nobres, sábios e religiosos pode ser descrita
como um duelo. Mas os dois jesuítas não estavam armados de floretes ou pistolas. ''Foi
uma esgrima retórica e intelectual. Uma disputa acadêmica'', explica Sonia N. Salomão,
48 anos, do Centro de Estudos sobre Padre Vieira em Viterbo, na Itália. Graças à
professora, mais de três séculos mais tarde os leitores de hoje podem reviver aquele
embate, marcado pela oratória barroca, através do livro As lágrimas de Heráclito,
que será lançado hoje, com uma mesa-redonda, na Casa de Rui Barbosa.
Na origem dos dois discursos
reproduzidos no livro está a decisão da rainha Cristina da Suécia de encomendar aos
dois religiosos da Companhia de Jesus uma disputa oratória sobre o tema: o mundo é mais
digno de riso ou de lágrimas? Um dilema encarnado por duas figuras da antigüidade.
Enquanto Girolamo Cattaneo abraçou a causa de Demócrito, com seu riso, Vieira tomou o
partido de Heráclito e suas lágrimas.
Desde que abdicara do trono e se convertera ao catolicismo, a rainha havia se estabelecido
em Roma, onde mantinha uma corte pessoal, da qual também faziam parte cientistas, sábios
e pintores. Foi diante deles que os dois jesuítas se apresentaram. Durante mais de três
séculos ficaram esquecidos tanto o texto de Vieira como as circunstâncias em foi
escrito. Foi em 1999 que a pesquisadora brasileira Sonia Salomão descobriu uma edição
napolitana de As lágrimas de Heráclito e reconstituiu as condições em que o
discurso foi escrito e apresentado. Até então pensava-se que o texto seria uma oração
fúnebre ou um sermão.
Amigos e inimigos - O discurso de Vieira inaugurou a academia - mais tarde chamada de
Arcadia Romana - mantida pela rainha Cristina. ''Era um ambiente intelectualmente muito
sofisticado, no qual havia uma tradição que encarava a conversação como uma forma de
arte'', observa Sonia. ''Vieira morou em Roma entre 1669 e 1675. Depois de ter sido alvo
de um processo da inquisição, ele foi para a Itália tentar uma revisão do processo.
Aos 61 anos, ele já tinha desempenhado papel importante, como religioso e como diplomata.
Tinha amigos e inimigos poderosos'', lembra ela.
Ainda que marcados pelo gosto pelas imagens e metáfora, típico do barroco, segundo Sonia
os dois discursos procuram manter um tom natural. ''É um texto que flui, desliza, mas ao
mesmo tempo é denso. Nele, o autor procura esconder todo o artificialismo do esforço e
dos estudos necessários à sua redação'', diz.
Para Sonia, a Itália ainda guarda boas surpresas a respeito do padre Vieira. ''A Roma da
época era como a Nova Iorque de hoje. Por ali passavam as grandes questões de estado e
debates culturais e filosóficos. Foi na Itália que Vieira começou a reunir e publicar
sua obra, seus sermões, antes dispersos'', diz.
No momento, uma equipe de especialistas está empenhada no estudo e tradução do Clavis
Prophetarum, texto de quase mil páginas escritas em latim inéditas até hoje. O
grupo é coordenado pelo italiano Silvano Pelioso, que está no Rio para participar da
mesa-redonda de lançamento do livro. (Jornal do Brasil)
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