Gênio cada
vez mais reconhecido, Bellini é lembrado em seu bicentenário com montagem integral de
'La sonnambula' no Rio
ANA CECILIA MARTINS
Bellini foi verdadeiramente um craque. Mas não estamos falando de Hideraldo Luiz Bellini,
outro craque, capitão da seleção brasileira de 1958, imortalizado com uma estátua em
bronze em frente ao Maracanã. O Bellini em questão pode não ser tão popular no país
como o zagueiro, mas em sua área, a da música lírica, poucos no mundo foram tão
geniais quanto ele. Autor de óperas como Norma e I puritani, o compositor
italiano Vicenzo Bellini é considerado o grande responsável pela valorização da
palavra e da expressão dramática dos cantores nas produções operísticas. Um divisor
de águas. Suas sofisticadas melodias acabaram por influenciar artistas como Donizetti e
Pacini, Mercadante e Verdi. No ano de seu bicentenário, Bellini, cuja obra é um dos
pilares da ópera italiana, é lembrado em todo o mundo com encenações de seus
principais títulos.
No Rio, as homenagens chegam com a
montagem integral de La sonnambula, ópera composta pelo italiano em 1831 e uma de
suas peças mais conhecidas, mais raramente vista no Brasil. A produção brasileira,
assinada por Luiz Fernando Malheiro (direção musical) e pelo inglês Aidan Lang
(direção cênica) - uma dobradinha já experimentada em Manon, no Festival
Amazonas de Ópera deste ano - sobe ao palco do Teatro Municipal do Rio a partir da
próxima sexta-feira para quatro récitas.
Nos papéis principais figuram a
soprano brasileira Rosana Lamosa (Amina), o tenor argentino Raul Gimenez (Elvino), uma das
maiores vozes do bel canto do mundo hoje, e o baixo uruguaio Erwin Schrott (Conde
Rodolfo). ''Na escolha do título nos preocupamos em selecionar uma peça em que as vozes
brasileiras pudessem se sobressair, ao lado de grandes intérpretes internacionais. No
caso de La sonnambula, temos a Rosana Lamosa atuando no papel principal ao lado de
Gimenez, um especialista no papel, que já cantou essa ópera em todos os grandes teatros
do mundo'', diz o maestro Luiz Fernando Malheiro.
Integral - Mais de 40 anos
separam esta montagem de La sonnambula da sua última encenação no país. ''E
acredito que integralmente ela nunca tenha sido montada no Brasil. Essa é uma das razões
que nos fizeram optar por esta obra. Norma, por exemplo, que é a principal ópera
de Bellini, já teve, dos anos 70 pra cá, duas montagens no país'', acrescenta Malheiro,
que convidou o inglês Aidan Lang para criar um releitura mais ''atraente'' da história
recheada de lirismo criada pelo libretista Felice Romani.
A história, ambientada numa aldeia
suíça do século 19 e que tem como foco principal os mal-entendidos causados pelo
sonambulismo da jovem Amina, ganha moldes surrealistas pelas mãos de Aidan Lang. ''Quis
trazer para esta montagem a dimensão do inconsciente revelado por Freud e os sonhos, sem
desconectar a narrativa da realidade'', afirma o inglês, que acumula passagens por casas
de ópera de várias partes do mundo. Aidan, que dirige o título pela primeira vez,
idealizou cenários que remetem ao céu surrealista do pintor René Magritte. ''Essa foi a
forma que encontrei de valorizar a trama dessa ópera, que tem personagens riquíssimos e
muito expressivos'', diz ele.
A música composta por Bellini, morto
em 1835, se mantém em sua forma original.''Nós nos mantemos totalmente fiéis à
partitura original'', comenta Malheiro, sublinhando o trabalho de seu assistente, Marcelo
Jesus, em criar as variações para os cantores em cima das harmonias das árias escritas
por Bellini. ''Essas inserções, comuns nas peças de Bellini, fazem a montagem ainda
mais singular'', acredita o maestro.
Malabarismo - As suaves melodias
do compositor italiano presentes em La sonnambula escondem grandes desafios
técnicos. ''Esta é uma ópera difícil para os cantores, pois a voz ocupa o papel
principal'', diz Rosana Lamosa, uma das mais conhecidas sopranos brasileiras, que se
depara com a obra de Bellini pela primeira vez. ''O bel canto exige muito da voz da
soprano, tem uma tessitura aguda e verdadeiros malabarismos vocais'', diz ela.
Talvez por isso as obras de Bellini
não estejam sendo montadas com a freqüência que mereceriam. ''É muito difícil
encontrarmos um elenco adequado para esse tipo de ópera. São poucos os cantores que têm
estofo para agüentar uma peça de Bellini até o fim'', avalia Malheiro. ''Esses títulos
são realmente muito densos para um cantor. Uma Norma, por exemplo, exige vozes
heróicas'', observa Rosana, apostando que seria difícil sua voz suportar mais que as
quatro récitas programadas no Municipal, com cerca de duas horas e meia cada uma.
No ano em que comemora-se o centenário
de morte de Verdi, um dos mais populares compositores líricos italianos, a comemoração
do bicentenário de nascimento de Bellini poderia ficar ameaçado. ''Mas Bellini desfruta
do reconhecimento que merece no meio musical. Ele foi um criador importantíssimo,
realmente genial. Trata-se do primeiro compositor para o qual a parte dramática, do
texto, começou a ter importância. Antes dele a palavra não tinha tanto valor. Em seu
trabalho ela ganha outra dimensão. Por isso Bellini é tido como um divisor de águas da
ópera italiana desse período'', ressalta o maestro.
Callas - Durante algum tempo,
principalmente no começo do século 20, a produção de Bellini permaneceu na
obscuridade, tendo sido recuperado pela arqueologia da mítica Maria Callas, que
estimulou a volta dos títulos bellinianos aos palcos de todo o mundo, interpretando
papéis como a própria Almina, de La sonnambula, em montagens memoráveis como a
dirigida por Visconti e regida por Leonard Bernstein na década de 50. ''Agora, dos anos
70 pra cá, está havendo um trabalho de recuperação também de Rossini, principalmente
as suas óperas sérias, e também de Donizetti, o que tem estimulado uma volta dos
estudos do bel canto'', observa Malheiro.
''A obra de Bellini, de tão bela,
chega a ter uma dimensão onírica. A nossa intenção é, portanto, reafirmar essa
mágica, com beleza e refinamento'', afirma Aidan Lang, que se permitiu lançar mãos de
algumas adaptações na encenação, lembrando que La sonnambula, como todo grande
clássico, pode ter sempre algo de novo para dizer. (Jornal do Brasil)
| Obra interrompida aos 33
anos
Vicenzo Bellini viveu pouco. Mas seus 33 anos de vida foram suficientes para expressar uma
genialidade musical em obras como Norma e I puritani, clássicos da ópera
italiana. A primeira delas foi feita aos 16 anos, momento em que Bellini já evidenciava o
talento de refinado melodista e sua preocupação com o casamento entre texto e compassos
musicais. Mas foi a partir de seu terceiro título, Il pirata, que o compositor
encontrou o sucesso, consolidado depois com La Sonnambula , I Capuleti e i
Montecchi e I puritani. Ao todo, o repertório do compositor compreende nove
óperas, marcadas por uma indiscutível sofisticação harmônica que influenciou de
Wagner a Chopin.
Em novembro de 1801, Bellini nasceu na cidade siciliana de Catânia, na Itália. Seu
primeiro contato com a música deu-se através do pai, organista, aos 5 anos. Suas
primeiras criações tinham caráter sacro e logo podiam ser ouvidas em igrejas de sua
cidade natal. Mais tarde ingressou com a ajuda financeira de um nobre italiano no
Conservatório de Nápoles, onde se dedicou principalmente ao estudo de Mozart e Haydn.
Rossini - Sua primeira grande estréia foi com Il pirata, em 1927, no La Scala,
em Milão. Nesse trabalho inaugurou uma fecunda parceria com o libretista Felice Romani,
que se tornou a partir de então seu invariável colaborador, exceto em I puritani.
Bellini passou algum tempo em Londres, onde produziu Beatrice di Trenda, em 1833.
Nesse mesmo ano mudou-se para Paris, onde, sob a influência do também italiano Rossini,
compôs I puritani, que estreou com grande sucesso em 1835, tendo como estrelas a
soprano Giulia Grasi e o tenor G. B. Rubini, dois pesos pesados do cenário operístico do
período.
A grande importância de Bellini reside na valorização dada pelo compositor ao texto e
à sua conexão com a melodia, o que o tornou um dos mais importantes artífices do
bel-canto. As óperas bellinianas apresentaram aos cantores o que se costuma chamar de
responsabilidade dramática. Conta-se que essa preocupação de Bellini com a palavra
cantada acabou gerando conflitos com as grandes estrelas do período, como G.B. Rubini,
que não aceitava as exigências de interpretação do compositor.
Vicenzo
Bellini morreu na cidade de Puteaux, perto de Paris, em dezembro de 1835 de ''inflamação
aguda no intestino grosso complicada por um abcesso no fígado'', como revelou o
relatório da autópsia. Deixou um notável legado musical escorado na sofisticação
melódica e harmônica que voltam com toda força à cena no ano em que se comemoram 200
anos de seu nascimento. (A.C.M.) (Jornal do Brasil)
''Quero ir além do palco''
O
tenor Raul Gimenez, 50 anos, é reverenciado como a grande estrela da atualidade do bel
canto, estilo característico da ópera italiana marcado pela beleza do timbre e
ornamentação vocal. De origem argentina e com 23 anos de carreira, já interpretou os
principais personagens de Donizetti, Rossini e Bellini mundo afora. A partir da próxima
semana, ele se apresenta no Brasil pela primeira vez, vivendo Elvino na montagem de La
sonnambula, papel que já interpretou cerca de 100 vezes. ''No mundo só existem três
cantores capazes de fazer este papel'', garante ele, preferindo não revelar os nomes dos
outros dois cantores. Dono de uma das mais extensas discografias da última década,
Gimenez diz que não se sente cansado em cantar repetidamente o repertório belliniano.
''Bellini escreveu as mais belas páginas da história da música operística. Suas
melodias são inigualáveis.''
- Existe espaço no cenário lírico
internacional para produções de óperas ligadas ao bel canto?
- O bel canto continua presente em teatros de todo o
mundo. É um estilo muito respeitado pelos amantes da boa música. Nem todo mundo gosta
apenas de La traviata, Rigoletto e Turandot. Mas é certo que
atualmente não existem muitos cantores capazes de interpretar esse repertório. Digo, sem
modéstia, que é difícil encontrar mais de três cantores de nível internacional
capazes de cantar o papel de Elvino.
- O que o bel canto oferece ao cantor?
- O bel canto é um estilo que lida com a clareza do
fraseado e a ornamentação da voz. Ficou representado por três grandes compositores:
Rossini, Bellini e Donizetti. É um canto que tem beleza e elegância, mas exige
habilidade técnica e um certo dom natural.
- Que papéis interpreta com mais freqüência?
- Os mozartianos e principalmente os italianos. Já
interpretei papéis de Rossini, Bellini e Donizetti em todo o mundo. De Buenos Aires a
Milão, de Los Angeles a Tóquio. Do repertório bufo de Rossini, acredito que já gravei
tudo. O Conde Almaviva, de O barbeiro de Sevilha, também de Rossini, é um dos
papéis mais recorrentes na minha carreira; já cantei mais de 400 vezes.
- O senhor tem notado, ao longo dos anos, alguma
mudança na tonalidade de sua voz?
- Claro que sim. Tenho 50 anos, 23 de carreira e a
minha voz sente isso. Mas a mudança é pequena. A minha voz ficou um pouco mais densa,
mas nada que atrapalhe o meu trabalho e que me impeça de cantar o meu repertório
habitual. Mas tomo mais cuidados hoje com ela, que é, mais que meu instrumento de
trabalho, meu canal de expressão com o mundo.
- Qual a importância de Elvino na sua carreira?
- Já interpretei Elvino cerca de 100 vezes. É um
papel que exige muito do cantor vocalmente e tem um fraseado extremamente difícil. Mas
Elvino é familiar para mim, canto esse papel há cerca de 15 anos.
- Qual a importância de Bellini para a história
da ópera?
- Bellini foi um compositor de grande inspiração
melódica e responsável pela criação das mais belas páginas da história da música
operística. Suas melodias são inigualáveis e esse é, sem dúvida, o grande legado
desse compositor.
- Quais suas expectativas acerca desta montagem
de La sonnambula?
- Estamos trabalhando muito e encontrando grande
harmonia nos ensaios. Mas, em relação a minha interpretação, minhas expectativas são
sempre as mesmas, desde o primeiro dia em que subi em um palco: poder manifestar a minha
arte, mantendo-me fiel à beleza da obra do compositor, sem me privar do direito de
emprestar traços meus para recriação artística dessas óperas. O principal em meu
trabalho é conseguir ir além do palco e tocar a platéia com a emoção. (A.C.M.)
(Jornal do
Brasil) |
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