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A tradução cênica de 'A Montanha Mágica'

17/08/2001

Peça explora consciência da finitude não só no plano existencial, mas ainda político e social

 


Depois do belo 'Oblomov', o italiano Roberto Bacci volta ao Brasil com adaptação do livro de Thomas Mann

BETH NÉSPOLI

   Exatamente um ano após ter apresentado no Brasil o belo espetáculo Oblomov - que explorava o confronto entre ação e contemplação numa linguagem sofisticada e original -, o diretor italiano Roberto Bacci volta ao País para duas apresentações, hoje e amanhã no Sesc Pompéia, de Ciò Che Resta (Só o Que Resta), adaptação do romance A Montanha Mágica, de Thomas Mann. O espetáculo já passou pelo Sesc de Ribeirão Preto e será apresentado ainda no Sesc São Carlos, no domingo, e no Sesc Araraquara, na terça-feira. Em ambas as cidades, Bacci realiza palestras com atores e estudantes de teatro, como já fez em Ribeirão Preto.

   No elenco de Ciò Che Resta estão seis atores do Centro de Experimentação e Pesquisa Teatral de Pontedera, criado em 1974, na Itália, onde Jerzy Grotowsky trabalhou nos últimos anos de sua vida e Bacci, atualmente, é o diretor artístico. Confrontando, desta vez, vida e morte, o espetáculo estreou na Itália e já excursionou por países como Rússia e Alemanha.

   O Brasil entrou no roteiro das turnês do Centro de Pontedera desde que o ator Cacá Carvalho viajou para a Itália, passou a integrar o núcleo de criação e tornou-se parceiro artístico de Bacci, por quem foi dirigido em O Homem com A Flor na Boca. Na ficha técnica de Ciò, Cacá aparece como colaborador artístico. "Era para eu ser assistente de direção, mas não pude ir para a Itália em tempo. Quando cheguei lá, o processo já estava em andamento", explica o ator. Não é o único brasileiro na equipe de criação.

   Assim como em Oblomov, Márcio Medina assina a cenografia do espetáculo.

   Como traduzir em linguagem teatral um complexo romance de 800 páginas?

   "Antes de falar sobre o espetáculo, é preciso entender algo importante sobre a relação entre vida, morte e doença", argumenta Bacci em entrevista ao Estado. "Sempre que alguma coisa rompe o equilíbrio do organismo como uma doença, sempre que nos confrontamos com o perigo da morte, passamos a nos perguntar: O que é a vida? O que somos nós? Como aceitar o que fizemos de nossas vidas durante todo aquele tempo que vivemos como se fôssemos eternos?"

   Segundo o diretor, essas são as questões da peça, exploradas não apenas de forma individual ou existencial, mas também política. "Como conciliar a consciência da finitude com uma vida ordinária? Se eu vou morrer amanhã, então eu quero mudar o mundo. Se eu penso que sou eterno, vou tocando a minha vidinha, aceito ser mais uma engrenagem da máquina social", afirma o diretor.

   "O livro de Thomas Mann é um grande romance sobre a iniciação." No início do século, ainda não existia cura para a tuberculose. Como a doença era contagiosa, os pacientes ficavam isolados. Os que tinham posses, ficavam em sanatórios com razoável conforto. É o caso do personagem central de A Montanha Mágica. "Ele vai até um sanatório nos alpes suíços visitar seu primo, interno, com a intenção de ficar três semanas, mas acaba passando sete anos lá. Ali ele faz sua iniciação espiritual, filosófica, afetiva."

   A tuberculose não mata rápido, portanto os sanatórios se transformavam em pequenas comunidades, onde os pacientes se relacionavam, podiam fazer sexo, criar vínculos afetivos. "O hotel/hospital do romance é um microcosmo da sociedade, porém com uma diferença - a morte é uma presença constante, uma consciência permanente."

   Sete anos depois, o personagem abandona o sanatório, já um homem maduro, e volta para a vida "normal" em plena guerra, a 1.ª Grande Guerra. "O fim comporta um grande pessimismo. Toda a grande cultura sedimentada nele durante aquele período de internação, de nada vale. Na verdade, toda a grande cultura européia de nada vale diante da destruição mecânica e cega da guerra."

   Bacci tem uma explicação original para definir sua preferência pela adaptação de obras literárias. "A linguagem dramática é sintética. A gente tem de imaginar tudo a partir dos diálogos. Na literatura, os cenários, figurinos, os gestos, o temperamente dos personagens, tudo está descrito até a exaustão. A gente só tem de optar pelo essencial." Seis portas ajudam a destacar o essencial em Ciò Che Resta. "Os personagens dialogam com essas portas que são as portas do hospital e do quarto, mas também portas que dão para outro mundo, para o desconhecido." (O Estado de S. Paulo)

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