A série Latina 2001 - um projeto conjunto do governo da
Itália com a Secretaria da Cultura do Paraná e patrocínio da Petrobrás -- que este ano
tem como novidade a abertura do evento para a Europa Latina, através de parcerias com os
governos da Espanha e da França, apresentando músicos desses países, além dos
italianos -- prossegue no próximo dia 24 de Agosto de 2001, às 21
horas, em Curitiba, com a Orquestra de Câmera Il Giardino Armonico. Criado
em 1985 em Milão, Il Giardino Armonico é um dos notáveis conjuntos barrocos da
atualidade. O grupo reúne intérpretes formados pelas melhores escolas de música da
Europa e todos eles são especialistas na execução, em instrumentos de época, das
melhores páginas do repertório musical dos séculos XVII e XVIII. Diversos dos
integrantes do conjunto são também solistas de concerto e colaboram freqüentemente com
músicos como Nikolaus Harnoncourt, Gustav Leonhardt, Trevor Pinnock, Christophe Coin e
Jordi Savall.
Aplaudidos pelo público e festejados pela crítica especializada, os
artistas de Il Giardino Armonico vêm-se apresentando em salas e festivais de música de
prestígio internacional, como o Concertgebouw de Amsterdã, o Wigmore Hall
de Londres, o Tonhalle de Zurique, a Konzerthaus e o Musikverein de
Viena, a Salle Gaveau de Paris, as Óperas de Frankfurt e Berlim, o Festival de
Salzburgo, os Festivais de Schleswig-Holstein, Ludwigsburgo e Montreux, a Biblioteca do
Congresso Norte-americano, em Washington, o Berkley Early Music Festival e a Frick
Collection de Nova Iorque.
O conjunto também tem sido aplaudido por suas colaborações com grandes
cantoras líricas da atualidade, dentre as quais se destacam Cecilia Bartoli, Anna
Caterina Antonacci, Sumi Jo, Lynn Dawson e Eva Mei, dentre outras.
Desde 1989 o flautista Giovanni Antonini, um dos fundadores do grupo, vem
atuando também como regente e solista das temporadas de Il Giardino Armonico em vários
países europeus e asiáticos, e também nos Estados Unidos e no Canadá.
As apresentações ocorrem sempre, no
Canal da Música, Rua Júlio Perneta, 695, 0xx41 335-5273, Curitiba.
| Timbres da Itália renascentista Grupo de música antiga se aventura em repertório seiscentista e descobre a
música instrumental da Lombardia inspirada na lírica vocal de Monteverdi
Por Lauro Machado Coelho
Percorrendo toda a Lombardia, norte da Itália, de
Cremona a Veneza, passando por Mântua, Parma e Faenza, o grupo milanês dedicado à
interpretação histórica Il Giardino Armonico se propõe, em Viaggio Musicale
(Teldec, foto), a fazer um panorama das grandes cortes renascentistas italianas
mediante a música de época composta para festividades aristocráticas. À exceção de
Claudio Monteverdi, cuja brevíssima e célebre sinfonia da ópera Il Ritorno
dUlisse in Patria dá início ao percurso, é provável que os outros
compositores não sejam nomes familiares do grande público. E, no entanto, há entre eles
figuras de primeiro plano no período seiscentista, aqui representado por um programa que
cobre os anos de 1607 a 1645. Conforme observa Giovanni Antonini, líder do grupo, é o
espírito do inaugurador da ópera e de toda uma aventura lírica
Monteverdi que motiva o repertório, como um ponto de confluência. São, de fato,
peças que refletem um desejo incontido de imitar os modelos vocais e o inventário de
gestos do nascente teatro operístico burguês, sonoridade essa que os 14 integrantes do
conjunto conseguem produzir à perfeição.
Tarquínio Merula, mestre-de-capela ora em Bérgamo ora
em Cremona, ficou famoso por seus livros de Capricci, sonatas e Canzoni
Strumentali. Monteverdi o admirava muito; prova disso é que, em sua virtuosística Ciaccona,
pode-se reconhecer o tema do madrigal Torna Zeffiro, que o compositor da Favola
dOrfeo lhe tomou emprestado. Autor de Giove di Elide Fulminato, balé
cortesão apresentado em Parma, em 1677, o padre Marco Uccellini era importante sobretudo
como autor de música instrumental: é ele um dos responsáveis pelo desenvolvimento da
técnica violinística italiana que viria a se desenvolver no século seguinte pela grande
escola de Corelli e Vivaldi. Os irresistíveis rodopios melódicos da Aria sopra
La Bergamasca o mostram em um de seus mais exuberantes momentos de
invenção melódica.
Quanto ao mantuano Salomone Rossi, ele era filho de
Asaria dei Rossi, filósofo humanista. A condição de membro da comunidade judaica o
impedia de ter um emprego na corte. Mas, protegido pelo príncipe Vincenzo Gonzaga e com
sua orquestra privada, foi um dos primeiros a desenvolver a técnica da variação
instrumental, com base em temas populares judeus. Peças como a Sinfonia a 3, ou as
Gagliarde Zambalina e Norsina, incluídas neste
disco, explicam a admiração de Monteverdi, que o convidou a escrever a quatro mãos a
música incidental para a peça La Maddalena, de Guarini.
Chama a atenção o fato de não figurarem, no
repertório, supostos compositores menores, mas criadores de primeira grandeza
cujos nomes acabaram esquecidos. Basta conferir as ousadias harmônicas de Dario Castello
em suas Sonate IV e X. Esse veneziano, provável aluno de Monteverdi, foi um
dos mais respeitados violinistas da Sereníssima República, a ponto de o mestre o ter
convidado a encarregar-se da música instrumental na catedral de San Marco, de que era ele
o mestre-de-capela.
Viaggio Musicale traz o frescor da sonoridade
dos instrumentos renascentistas o arciliuto, a dulciana, os cornetti,
o ceterone , e o comportamento do grupo beira o preciosismo da investigação
musicológica, com obediência à afinação de época (um pouco mais aguda) e leitura das
22 partituras legitimadas por fontes primárias, ou seja, pelo acesso direto a originais,
em alguns casos manuscritos, datados da primeira metade do século 17. O álbum,
luxuosamente produzido, só teria a ganhar com um texto mais substancioso sobre a época e
seus autores. (Bravo Online) |
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