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Jardim barroco à italiana

25/08/2001

Alberto Sordi, como o xeque, e Brunella Bovo, como Wanda: a realidade invade a fotonovela

 


Um dos conjuntos de ponta da música à antiga faz sua estréia no Rio

CLÓVIS MARQUES

   Eles têm nomes que já soam como um miniconcerto: Sonatori della Gioiosa Marca, Il Giardino Armonico, Europa Galante. São os conjuntos italianos de música barroca que surgiram há pouco mais de 10 anos, bem depois dos holandeses, belgas, alemães e ingleses que abriram caminho na recuperação dos estilos de interpretar Bach, Händel ou Vivaldi. Depois da Europa Galante de Fabio Biondi, um violinista, e do Concerto Italiano de Rinaldo Alessandrini, cravista, os cariocas conhecerão neste final de semana o Giardino Armonico do flautista Giovanni Antonini, muito assíduo em efervescentes discos Teldec. Desta vez, o programa comporta também música vocal, a cargo da jovem e pura voz de Gemma Bertagnolli - lançada discograficamente ano passado nos Stabat Mater de Pergolesi e Alessandro Scarlatti com o Concerto Italiano. Em conversa por telefone de Curitiba, Antonini, instrumentista e diretor, fala das qualidades próprias da língua e do temperamento italianos que contribuem para a sonoridade vívida dos conjuntos da península. Mas não quer saber de uma ''escola italiana'' de tocar o barroco: seria engessar a liberdade que todos sentimos, embriagadora, na música que fazem os sonatori.

- Como foi escolhido o programa do Rio?

- Começamos com uma abertura de Veracini, violinista virtuoso da época de Vivaldi, que conclui num minueto com todos os instrumentos em uníssono, espécie de imitação da música árabe. Depois temos o salmo Laudate pueri de Vivaldi para soprano e orquestra, peça brilhante provavelmente escrita para uma das meninas do Ospedale della Pietà, onde ele ensinava; a Sena festeggiante, sinfonia de abertura de uma peça teatral escrita para Luís XV no estilo francês. Seguem-se um Concerto para oboé de Vivaldi e algumas árias de Händel, duas de Agrippina, primeira ópera importante escrita na Itália, e ''Piangerò la sorte mia'' de Júlio César.

- Que diz do chamado estilo italiano de tocar o barroco? Há quem já fale até de cacoetes: vibração excessiva, violência nos ataques e na dinâmica...

- Não creio que exista um estilo italiano, pois cada um dos principais grupos tem um som completamente diferente dos outros. O que há em todos é uma abordagem teatral da música, mais próxima do temperamento mediterrâneo. É o que nos diferencia dos holandeses e alemães, talvez mais cerebrais, mais analíticos. Mas uma escola italiana, não - seria um perigo, uma cristralização, a repetição de clichês. O perigo maior para os músicos é tornar-se imitadores de si mesmos.

- Que mais os diferencia dos nórdicos?

- É também uma diferença lingüística. Numa música em que a articulação, a maneira como se emite e produz o som, é tão importante, o próprio fato de falar italiano ou holandês influi incrivelmente. Considero por exemplo que a diferença entre o francês e o italiano pode ser sentida na maneira de tocar. Num momento em que se fala tanto de globalização, é importante conservar uma identidade.

- O que mudou para o Giardino em 10 anos de música?

- No início era a idéia de enfrentar este repertório, particularmente Vivaldi, acentuando e procurando aprofundar o aspecto dramático. Ou seja, um concerto de Vivaldi visto como uma apresentação teatral, com um solista que se contrapõe ao tutti quase sempre de maneira dramática. Se pensarmos que na palavra concertare estão ao mesmo tempo as idéias de convergência e luta... Começamos buscando os meios técnicos e musicais para esta dramatização, o colorido e a surpresa. Com os anos, veio a preocupação de refinar. No início o Giardino tinha um componente violento: foi um ponto de partida. Mas fomos nos refinando. O aspecto violento pode ter permanecido, mas como um menino que cuida mais da sua linguagem.

- Um jardim mais suave?

- Não mais suave, mas com a possibilidade de sê-lo, passando do suave ao rude, com a maior riqueza possível de meias-tintas e cores, os extremos mas também tudo que há no meio - o claro-escuro.

- Como fazer a mesma música, delicada e colorida, num salão das proporções da época barroca, num enorme hall sinfônico moderno e num estúdio de gravação?

- No estúdio os músicos não têm contato com o público; perde-se sobretudo a idéia da música como algo imediato, que é produzido e acaba num concerto. Na gravação, o músico sabe que aquilo ficará, o que pode ser um obstáculo, por medo dos erros - embora com os anos aprendamos a combater isto. Mas claramente uma sala de dimensões barrocas, não muito grande, continua sendo o ideal: quanto maior a sala, menor o impacto sonoro.

- Como o Giardino enfrenta esse desafio?

- Depende da qualidade da sala. Há salas grandes nas quais o som se projeta. Mas se além de grande for de acústica ruim... Há também salas pequenas nas quais o som não se projeta. Um hall de três mil lugares é algo penalizante com instrumentos barrocos. Mas também devo dizer que aos poucos o público, ante uma quantidade de som que não seja enorme, reduz o próprio limiar de escuta - o que é educativo numa civilização em que o barulho é tão presente. O silêncio absoluto não existe, mas entre a primeira parte e a segunda do concerto o ouvido se abre. E é bom forçá-lo a se abrir: é um sintoma de civilização.

- Como é passar da flauta à regência?

- Aprendi a música através da flauta doce, instrumento redescoberto há relativamente pouco tempo, depois da última guerra. A flauta doce tem algo de semelhante ao cravo, com a importância enorme da articulação clara das notas. Nenhum dos dois tem possibilidade de grande dinâmica: o recurso expressivo de que dispõem é a maneira como atacam o som, quase nunca soando forte. Os instrumentos de cordas têm maiores possibilidades dinâmicas, mas os instrumentistas de arco não aprofundaram tanto o aspecto da emissão, da variedade de articulação. O trabalho que tenho feito é de aprofundar a variedade da gestualidade nas arcadas. (Jornal do Brasil)

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