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Um poeta entre o Céu e o Inferno

27/08/2001

Dante Alighieri, (1265 - 1321), o poeta italiano. Detalhe do desenho na chamada Stanza Rafaello, no Vaticano

 

Novas biografias e ensaios aproximam obra e personalidade do italiano Dante Alighieri, autor de A divina comédia

ALEXANDRE WERNECK

   Dante Alighieri está no paraíso. Redescoberto no século 19, desde então nunca mais deixou de ser considerado, ao lado de Shakespeare, o maior nome da literatura ocidental. Mas enquanto a vida do bardo inglês permanece um mistério, a história do poeta florentino que nasceu em 1265 segue alimentando a curiosidade de sucessivas gerações de biógrafos. Em setembro sua morte terá completado 680 anos. Mas a efeméride não basta para explicar o atual boom de biografias, coletâneas de ensaios e exposições que tentam encontrar o homem por trás da obra, no caso o Dante por trás do Inferno.

   ''Desde seu lançamento, sempre houve uma crítica à Comédia, a ponto de podermos fazer uma história dessa crítica'', diz o tradutor e poeta Marco Lucchesi, de 37 anos, que não verteu a obra de Dante para o português, mas que escolheu o poeta como tema de seus trabalhos de mestrado e doutorado na UFRJ.

   Duas biografias estão sendo lançadas nos Estados Unidos. Com cerca de 230 páginas cada uma, são curtas se comparadas a outras obras do gênero (que consagrou os calhamaços) e partem do princípio de que a melhor fonte para narrar a vida de Dante Alighieri é a própria Divina comédia. Dante, da série Penguin Lives - da Viking Press -, que deve ser lançado no Brasil no ano que vem pela Objetiva, foi escrito pelo professor de inglês da universidade de Yale R. W. B. Lewis. O autor é um consagrado biógrafo e já ganhou um prêmio Pulitzer por narrar a vida da escritora Edith Warthon. Seu livro é uma biografia típica, com a vida do poeta romanceada, chamando a atenção para as diversas tramas passadas na cidade de Florença. Depois, desloca-se para Ravena, onde Dante se exilou por conta de uma acusação - dizem os biógrafos - injusta, de corrupção.

   Exílio - Autor de um estudo sobre a Florença medieval, Lewis trabalha com imagens, o que se sente já nas primeiras páginas do livro, onde ele retrocede à época de Dante a partir de cenas atuais da cidade. Parte do livro é dedicada a narrar seu exílio e como foi a composição dos poemas, mostrando a influência da vida do autor na produção da Comédia.

   Já Dante: a life in works segue o caminho inverso. Foi escrito pelo medievalista Robert Hollander, professor da Universidade de Princeton e uma das maiores autoridades mundiais no poeta. Ele prepara com a mulher, a poetisa Jean Hollander, a esperada primeira tradução completa e em verso de A divina comédia em inglês (hoje, completo, em verso, só o Inferno). Em vez de recorrer a fontes históricas para encontrar a influência que a vida teve na obra, Hollander, munido de um profundo conhecimento da escrita de Dante, quando da realidade medieval, busca no texto da Comédia e em outras obras anteriores do poeta a história. Ele vai a Vita nuova, uma ode à beleza de Beatriz, eterna musa real de Dante, que conheceu ainda menina. É ela a personagem imaginária que o guia no Paraíso, quando finalmente deixa o Purgatório. Hollander caminha da bibliografia para a biografia, reconstituindo o contexto da época a partir da leitura das entrelinhas dos poemas.

  The poets Dante: essays on Dante by twentieth century poets, lançado em abril, é uma compilação, feita pelos editores Peter S. Hawkings e Rachel Jacoff, de 28 ensaios de poetas que se confessam influenciados pela obra de Dante. O livro, que também tem pouco mais de 200 páginas, é dividido em dois, através dos tipos de poetas que nele escrevem. Primeiro, os célebres e mortos, como Ezra Pound, T. S. Eliot e Jorge Luis Borges; depois os atuais, como Seamus Heaney e Robert Pinsky, autor de uma tradução do Inferno.

   Botticelli - Além dos lançamentos nos EUA, uma exposição entre março e julho na Londons Royal Academy of Arts com os desenhos feitos por Botticelli para uma das edições italianas da Comédia, criada a partir do livro Sandro Botticelli: the picture cycle for Dantes Divine comedy, organizado pelo alemão Hein-Schulze Altcappenberg e lançado no final de 2000, deu mais fôlego ao poeta na Europa. E Botticelli foi só um dos muitos artistas que fizeram ilustrações para o livro. As litogravuras de Gustave Doré no século 19 permanecem até hoje associadas à obra.

   Mundo atual - Para Marco Lucchesi, o que justifica a constante revisão de Dante, particularmente da Comédia, é o espelhamento entre o mundo de hoje e o mundo em que viveu o autor. ''Em ambos os momentos, vivemos crises de ideologia e de identidade'', diz. Ele vê diante das questões como clonagem, fome e distribuição de renda, que tiram o sono dos homens da atualidade, a mesma angústia causada nos tempos do poeta pela crise do papado e pelas reviravoltas morais por que o mundo passava no final da Idade Média. Mas ele aponta na diferença crucial entre os dois momentos uma chave para a adoração ao poema. ''Falta-nos hoje a adesão metafísica dele. Dante confiava veementemente na justiça divina e hoje não temos no que confiar'', diz, citando uma frase de Dante, ''um dos nomes de Deus é amor, o outro é justiça''.

   Ao mesmo tempo, no entanto, Lucchesi admite que o poema se tornou um texto ''para ser lido na universidade''. Ele cita como exemplo o título, cujo original era apenas Comédia e que virou Divina no século 16, graças a um editor. ''Comédia tem o sentido aristotélico, por falar do Inferno'', explica. Além disso, o texto é carregado de referências. Quem guia Dante (que é o personagem da própria história) é o poeta romano Virgílio. No Limbo, antes de ir ao Inferno, os dois encontram pensadores de épocas anteriores a ele, compondo um mapa intelectual da antigüidade clássica e da Idade Média.

   Folclore - Como explicar, então, que um texto tão difícil, escrito em verso e cheio de peculiaridades filosóficas tenha se tornado popular? Italo Eugenio Mauro, dedicou 15 dos seus 92 anos, ao estudo do texto original de A divina comédia antes de vertê-lo para o português em trabalho publicado pela editora 34. Ele admite que o texto, apesar de famoso, é pouco lido de fato e aponta um motivo para isso: ''A dificuldade na leitura é crescente ao passar do Inferno ao Purgatório, e deste ao Paraíso''. Segundo Mauro, o grande desafio foi o de se manter fiel ao original. ''Resolvi fazer a tradução depois de ler a do Canto V feita para o inglês por Byron'', conta. Daquele trecho, considerado uma referência por vários autores, ele começou o trabalho, concluído há três anos. Para ele, as versões feitas até então para o português ''não eram satisfatórias''.

   Segundo Lucchesi, apesar de o texto ser pesado, a história do homem que viaja pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso se tornou pública, exerce fascínio como mito e foi apropriada pelo folclore. ''A obra de Dante entrou tão profundamente no imaginário popular que transcendeu sua autoria'', diz. O pesquisador cita como exemplo a obra Dante Alighieri e a tradição popular do Brasil, de Luis da Câmara Cascudo, em que o folclorista brasileiro busca na arte nordestina os elementos picarescos e fantásticos utilizados pelo bardo florentino. Ele cita ainda uma obra de Ariano Suassuna, O auto da compadecida, que colhe impressões do folclore local, para corroborar a idéia de que o imaginário brasileiro usou elementos da viagem imaginária do próprio Dante pelas esferas divinas. (Jornal do Brasil)

Brasil terá homenagens tímidas

   Em 1991, os 670 anos da morte de Dante Alighieri foram marcados no Rio de Janeiro pela montagem do megaespetáculo A divina comédia, dirigido pela coreógrafa Regina Miranda. O evento fechava o Museu de Arte Moderna para uma montagem performática do poema, que fazia a platéia andar e passar pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso. Eram 150 atores e dançarinos em cena, uma equipe gigantesca e efeitos especiais. Agora, as comemorações pelos 680 anos são tímidas.

   A editora 34, que em 1998 lançou a mais recente versão da obra em português, prepara para os próximos meses o lançamento de uma coletânea de ensaios do crítico Erich Auerbach, especialista em Dante. Dos 15 textos do livro, que deve ter o título de Ensaios de literatura européia, quatro são sobre o poeta italiano: A descoberta de Dante no romantismo, Dante e Virgílio, Apelos ao leitor na Divina comédia e Natan e João Crisóstono. Além disso, o ensaio Sermo umilis, em que o método do ensaísta é explicado, mostra a importância do texto de Dante para a literatura ocidental. ''Acho que Dante interessa tanto pelo paradoxo que simboliza como um homem absolutamente representativo do pensamento medieval, o qual ele encarna, e que escreve uma obra que permanece viva durante 700 anos'', diz o tradutor dos ensaios, Samuel Titã.

   O Departamento de Línguas Neolatinas da Faculdade de Letras da UFRJ vai promover na 4ª Semana de Letras Neolatinas, em setembro, uma exposição de 81 pinturas e gravuras feitas por artistas italianos e inspiradas na Divina comédia. São 68 pranchas pequenas e 13 maiores que fazem parte do acervo do Instituto Italiano de Cultura. Elas foram feitas nos anos 60 por artistas contemporâneos, como Alberto Zivere, Orfeo Tamburi, Lello Scorzelli e Gianfillipo Usellini. As imagens compõem um painel de vários estilos, que vão do expressionismo ao surrealismo. As obras serão apresentadas ao lado dos trechos do poema que as inspiraram. A exposição começa no dia 10 e termina no dia 14, data exata da morte de Dante. (A.W.) (Jornal do Brasil)

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