|
Novas
biografias e ensaios aproximam obra e personalidade do italiano Dante Alighieri, autor de
A divina comédia
ALEXANDRE WERNECK
Dante Alighieri está no paraíso.
Redescoberto no século 19, desde então nunca mais deixou de ser considerado, ao lado de
Shakespeare, o maior nome da literatura ocidental. Mas enquanto a vida do bardo inglês
permanece um mistério, a história do poeta florentino que nasceu em 1265 segue
alimentando a curiosidade de sucessivas gerações de biógrafos. Em setembro sua morte
terá completado 680 anos. Mas a efeméride não basta para explicar o atual boom
de biografias, coletâneas de ensaios e exposições que tentam encontrar o homem por
trás da obra, no caso o Dante por trás do Inferno.
''Desde seu lançamento, sempre houve uma crítica à Comédia, a ponto de podermos
fazer uma história dessa crítica'', diz o tradutor e poeta Marco Lucchesi, de 37 anos,
que não verteu a obra de Dante para o português, mas que escolheu o poeta como tema de
seus trabalhos de mestrado e doutorado na UFRJ.
Duas biografias estão sendo lançadas
nos Estados Unidos. Com cerca de 230 páginas cada uma, são curtas se comparadas a outras
obras do gênero (que consagrou os calhamaços) e partem do princípio de que a melhor
fonte para narrar a vida de Dante Alighieri é a própria Divina comédia. Dante,
da série Penguin Lives - da Viking Press -, que deve ser lançado no Brasil no ano que
vem pela Objetiva, foi escrito pelo professor de inglês da universidade de Yale R. W. B.
Lewis. O autor é um consagrado biógrafo e já ganhou um prêmio Pulitzer por narrar a
vida da escritora Edith Warthon. Seu livro é uma biografia típica, com a vida do poeta
romanceada, chamando a atenção para as diversas tramas passadas na cidade de Florença.
Depois, desloca-se para Ravena, onde Dante se exilou por conta de uma acusação - dizem
os biógrafos - injusta, de corrupção.
Exílio - Autor de um estudo
sobre a Florença medieval, Lewis trabalha com imagens, o que se sente já nas primeiras
páginas do livro, onde ele retrocede à época de Dante a partir de cenas atuais da
cidade. Parte do livro é dedicada a narrar seu exílio e como foi a composição dos
poemas, mostrando a influência da vida do autor na produção da Comédia.
Já Dante: a life in works segue
o caminho inverso. Foi escrito pelo medievalista Robert Hollander, professor da
Universidade de Princeton e uma das maiores autoridades mundiais no poeta. Ele prepara com
a mulher, a poetisa Jean Hollander, a esperada primeira tradução completa e em verso de A
divina comédia em inglês (hoje, completo, em verso, só o Inferno). Em vez de
recorrer a fontes históricas para encontrar a influência que a vida teve na obra,
Hollander, munido de um profundo conhecimento da escrita de Dante, quando da realidade
medieval, busca no texto da Comédia e em outras obras anteriores do poeta a
história. Ele vai a Vita nuova, uma ode à beleza de Beatriz, eterna musa real de
Dante, que conheceu ainda menina. É ela a personagem imaginária que o guia no Paraíso,
quando finalmente deixa o Purgatório. Hollander caminha da bibliografia para a biografia,
reconstituindo o contexto da época a partir da leitura das entrelinhas dos poemas.
The poets Dante: essays on Dante by
twentieth century poets, lançado em abril, é uma compilação, feita pelos editores
Peter S. Hawkings e Rachel Jacoff, de 28 ensaios de poetas que se confessam influenciados
pela obra de Dante. O livro, que também tem pouco mais de 200 páginas, é dividido em
dois, através dos tipos de poetas que nele escrevem. Primeiro, os célebres e mortos,
como Ezra Pound, T. S. Eliot e Jorge Luis Borges; depois os atuais, como Seamus Heaney e
Robert Pinsky, autor de uma tradução do Inferno.
Botticelli - Além dos
lançamentos nos EUA, uma exposição entre março e julho na Londons Royal Academy of
Arts com os desenhos feitos por Botticelli para uma das edições italianas da Comédia,
criada a partir do livro Sandro Botticelli: the picture cycle for Dantes Divine comedy,
organizado pelo alemão Hein-Schulze Altcappenberg e lançado no final de 2000, deu mais
fôlego ao poeta na Europa. E Botticelli foi só um dos muitos artistas que fizeram
ilustrações para o livro. As litogravuras de Gustave Doré no século 19 permanecem até
hoje associadas à obra.
Mundo atual - Para Marco
Lucchesi, o que justifica a constante revisão de Dante, particularmente da Comédia,
é o espelhamento entre o mundo de hoje e o mundo em que viveu o autor. ''Em ambos os
momentos, vivemos crises de ideologia e de identidade'', diz. Ele vê diante das questões
como clonagem, fome e distribuição de renda, que tiram o sono dos homens da atualidade,
a mesma angústia causada nos tempos do poeta pela crise do papado e pelas reviravoltas
morais por que o mundo passava no final da Idade Média. Mas ele aponta na diferença
crucial entre os dois momentos uma chave para a adoração ao poema. ''Falta-nos hoje a
adesão metafísica dele. Dante confiava veementemente na justiça divina e hoje não
temos no que confiar'', diz, citando uma frase de Dante, ''um dos nomes de Deus é amor, o
outro é justiça''.
Ao mesmo tempo, no entanto, Lucchesi
admite que o poema se tornou um texto ''para ser lido na universidade''. Ele cita como
exemplo o título, cujo original era apenas Comédia e que virou Divina no
século 16, graças a um editor. ''Comédia tem o sentido aristotélico, por falar do
Inferno'', explica. Além disso, o texto é carregado de referências. Quem guia Dante
(que é o personagem da própria história) é o poeta romano Virgílio. No Limbo, antes
de ir ao Inferno, os dois encontram pensadores de épocas anteriores a ele, compondo um
mapa intelectual da antigüidade clássica e da Idade Média.
Folclore - Como explicar,
então, que um texto tão difícil, escrito em verso e cheio de peculiaridades
filosóficas tenha se tornado popular? Italo Eugenio Mauro, dedicou 15 dos seus 92 anos,
ao estudo do texto original de A divina comédia antes de vertê-lo para o
português em trabalho publicado pela editora 34. Ele admite que o texto, apesar de
famoso, é pouco lido de fato e aponta um motivo para isso: ''A dificuldade na leitura é
crescente ao passar do Inferno ao Purgatório, e deste ao Paraíso''. Segundo Mauro, o
grande desafio foi o de se manter fiel ao original. ''Resolvi fazer a tradução depois de
ler a do Canto V feita para o inglês por Byron'', conta. Daquele trecho, considerado uma
referência por vários autores, ele começou o trabalho, concluído há três anos. Para
ele, as versões feitas até então para o português ''não eram satisfatórias''.
Segundo
Lucchesi, apesar de o texto ser pesado, a história do homem que viaja pelo Inferno, pelo
Purgatório e pelo Paraíso se tornou pública, exerce fascínio como mito e foi
apropriada pelo folclore. ''A obra de Dante entrou tão profundamente no imaginário
popular que transcendeu sua autoria'', diz. O pesquisador cita como exemplo a obra Dante
Alighieri e a tradição popular do Brasil, de Luis da Câmara Cascudo, em que o
folclorista brasileiro busca na arte nordestina os elementos picarescos e fantásticos
utilizados pelo bardo florentino. Ele cita ainda uma obra de Ariano Suassuna, O auto da
compadecida, que colhe impressões do folclore local, para corroborar a idéia de que
o imaginário brasileiro usou elementos da viagem imaginária do próprio Dante pelas
esferas divinas. (Jornal do Brasil)
| Brasil terá
homenagens tímidas Em 1991, os 670 anos da morte de
Dante Alighieri foram marcados no Rio de Janeiro pela montagem do megaespetáculo A
divina comédia, dirigido pela coreógrafa Regina Miranda. O evento fechava o Museu de
Arte Moderna para uma montagem performática do poema, que fazia a platéia andar e passar
pelo Inferno, pelo Purgatório e pelo Paraíso. Eram 150 atores e dançarinos em cena, uma
equipe gigantesca e efeitos especiais. Agora, as comemorações pelos 680 anos são
tímidas.
A editora 34, que em 1998 lançou a
mais recente versão da obra em português, prepara para os próximos meses o lançamento
de uma coletânea de ensaios do crítico Erich Auerbach, especialista em Dante. Dos 15
textos do livro, que deve ter o título de Ensaios de literatura européia, quatro
são sobre o poeta italiano: A descoberta de Dante no romantismo, Dante e
Virgílio, Apelos ao leitor na Divina comédia e Natan e João Crisóstono.
Além disso, o ensaio Sermo umilis, em que o método do ensaísta é explicado,
mostra a importância do texto de Dante para a literatura ocidental. ''Acho que Dante
interessa tanto pelo paradoxo que simboliza como um homem absolutamente representativo do
pensamento medieval, o qual ele encarna, e que escreve uma obra que permanece viva durante
700 anos'', diz o tradutor dos ensaios, Samuel Titã.
O
Departamento de Línguas Neolatinas da Faculdade de Letras da UFRJ vai promover na 4ª
Semana de Letras Neolatinas, em setembro, uma exposição de 81 pinturas e gravuras feitas
por artistas italianos e inspiradas na Divina comédia. São 68 pranchas pequenas e
13 maiores que fazem parte do acervo do Instituto Italiano de Cultura. Elas foram feitas
nos anos 60 por artistas contemporâneos, como Alberto Zivere, Orfeo Tamburi, Lello
Scorzelli e Gianfillipo Usellini. As imagens compõem um painel de vários estilos, que
vão do expressionismo ao surrealismo. As obras serão apresentadas ao lado dos trechos do
poema que as inspiraram. A exposição começa no dia 10 e termina no dia 14, data exata
da morte de Dante. (A.W.) (Jornal do Brasil) |
|