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Verdi rejeitado: Maestro é contra mudar hino italiano

28/08/2001

ARAUJO NETTO

   ROMA - Um dos mais conhecidos e importantes regentes das maiores filarmônicas do mundo decidiu entrar na polêmica sobre a possível mudança do hino nacional italiano. O mais surpreendente da intervenção de Riccardo Muti, diretor musical do Teatro alla Scala de Milão, foi o ataque que desfechou contra o ''Và pensiero, sullali dorate'' (Vai pensamento, em asas douradas), ária da ópera Nabuco, universalmente proclamada como uma das criações mais inspiradas de Giuseppe Verdi - expressão máxima do drama lírico italiano e um dos compositores preferidos pelo maestro. Ele o repudiou durante um congresso da Comunhão e Libertação, uma ativa associação do catolicismo conservador.

   Para defender Fratelli dItalia (irmãos da Itália), marcha composta em 1847 por Goffredo Mameli, poeta de pouco talento e patriota fervoroso, que depois da Segunda Guerra Mundial foi adotada como hino da República Italiana, o maestro Muti foi implacável na crítica arrasadora que fez ao Nabuco de Verdi, obra que os maiores estudiosos e críticos musicais insistem em julgar ''um afresco coral, no qual a vida cênica e lírica atinge o máximo''.

   ''Não compreendo por que um país como a Itália, que não se preocupa em resolver os mais sérios problemas da música, perde tempo para discutir se o seu hino nacional é bonito ou feio; se deve ou não ser mudado. A esta altura, a substituição de Fratelli dItalia representaria uma afronta a todas as pessoas que por dezenas de anos acreditaram nesse hino. Seria um desrespeito àqueles que até mesmo morreram pelo país'', afirmou Muti, arrancando aplausos da platéia de jovens católicos que o ouviram num auditório da cidade de Rimini.

   Alegria - Sempre enfático, o maestro Muti disse não duvidar que o hino de Mameli, com versos incompreensíveis e quilométricos e que pouquíssimos italianos conseguem cantar, faz parte do DNA de todos os italianos. ''É muito alegre, enquanto o Và pensiero, apesar de ser uma composição maravilhosa, inspira tristeza e depressão.''

   Mencionando outras razões que o levam a preferir a marchinha de Mameli à composição de Verdi, Muti afirmou: ''Và pensiero é uma página maravilhosa do Nabuco cantada gravemente e em voz baixa por um povo no exílio, choroso e sem esperanças. Os hinos em geral são geradores de esperança, de confiança: devem ser exaltantes .''

   Futebol - Muti prosseguiu: ''E como os jogadores de futebol devem conhecer [coisa que não acontece com os jogadores italianos]e saber cantar as letras dos hinos, o presidente da República, Carlo Azeglio Ciampi, tem razão quando diz que é muito bonito ver e ouvir os nossos atletas cantarem o nosso hino. Mas vocês já imaginaram o que aconteceria aos nossos jogadores, alinhados, cantando em voz baixa o Và pensiero? Já imaginaram o que poderia acontecer depois que o árbitro apitasse o inicio da partida e ninguém se mexesse? Já imaginaram a tragédia que seria perder uma partida antes mesmo de ela começar, por causa do hino de um povo que canta, quase sussurrando, sua tristeza e falta de esperança por viver exilado?''

   O argumento do maestro Riccardo Muti em defesa da preservação da marchinha Fratelli dItalia de Mameli como hino da República italiana, despertou aplausos e risos da platéia de jovens católicos que o ouviram: ''Esse nosso e muito denegrido hino é também uma imagem do que nós italianos somos realmente: cheios de vitalidade e um pouco descarados.'' (Jornal do Brasil)

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