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Em
'Baudolino', seu quarto romance, escritor italiano segue pegadas de personagem picaresco
na Europa do século XII
CLÁUDIO
FIGUEIREDO
Vinte anos depois de
planejar minuciosamente os assassinatos que prendiam a curiosidade dos leitores de O
nome da rosa, Umberto Eco, 68 anos, volta à cena do crime - a Idade Média - em seu
novo livro Baudolino. Mas se em seu romance de estréia ele mergulhava no mundo
sombrio dos mosteiros e das polêmicas internas da Igreja, agora, ao entrar no mundo
laico, da corte do Sacro Império Romano e de suas batalhas e cruzadas, ele é guiado por
um personagem picaresco. Baudolino, o menino filho de camponeses que, no ano de 1155,
conquista a simpatia do imperador germânico Frederico Barba Ruiva tornando-se um misto de
bufão e conselheiro, é o herói do romance que o autor considera seu mais divertido e
bem-humorado.
''O nome da Rosa era culto,
este é popular'', explicou Eco em entrevista ao jornal La Repubblica na época do
lançamento do livro, no fim do ano passado, na Itália. ''Rosa é em estilo
elevado, este é em estilo baixo. A linguagem é aquela usada pelo camponeses da época ou
dos estudantes de Paris, que falavam como os ladrões.''
Em 1980, Umberto Eco conta que considerou o diretor da editora italiana Bompiani ''louco''
quando este lhe disse que ia rodar 30 mil exemplares de O nome da rosa. Duas
décadas depois, seu romance já acumula 25 milhões de volumes vendidos nos cerca de 40
idiomas em que foi traduzido. O sucesso se repetiria, mas não na mesma proporção: seus
dois romances seguintes, O pêndulo de Foucault (1988) e A ilha do dia anterior
(1994) venderam juntos ''apenas'' cerca de 10 milhões de exemplares. Um indício de
declínio, diriam seus críticos. Mas nada mal para um professor de Semiologia, poderia
contra-argumentar Eco.
Pergaminhos - Baudolino começa a escrever suas memórias sobre um pergaminho. As
folhas preciosas foram roubadas do cofre de um bispo e para usá-las ele raspa a obra que
o religioso levara décadas para escrever. Os alérgicos aos pergaminhos com que o
romancista costuma rechear suas histórias não precisam se assustar. É um Baudolino já
sexagenário que começa a contar sua própria história numa manhã de 1204 em
Constantinopla, quando o exército bizantino é derrotado, não pelos turcos, mas pelas
tropas de cruzados da Europa Ocidental que, ao saquearem a cidade, se mostram mais
bárbaros do que os muçulmanos.
O anti-herói do romance tem como principais dons uma facilidade para as línguas e um
talento todo especial para mentir. ''Se queres transformar-te num homem de letras, e, quem
sabe um dia escrever Histórias deves também mentir, e inventar histórias, pois senão a
tua História ficaria monótona'', aconselha um bispo a Baudolino. ''Mas teria de fazê-lo
com moderação. O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre
coisas ínfimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas.'' O recado,
parece sugerir Eco, também vale para o próprio autor do romance.
Assim, as mentiras do anti-herói de Eco seduzem o imperador e o arrastam em aventuras no
Oriente, na tentativa de encontrar o reino utópico de Preste João, ou ''Presbyter
Johannes'' como sopra a Baudolino o bispo Otto, à beira da morte. Esse monarca
legendário e seu reino mítico enfeitiçariam durante séculos a imaginação de
religiosos e viajantes europeus.
Cruzada - É durante a maior destas empreitadas em que se mete Frederico I, a chamada
Terceira Cruzada, rumo a Jerusalém, que o imperador Barba Ruiva morre. Afogado, segundo a
história. Assassinado, de acordo com Baudolino.
Mesmo trocando o clima soturno e austero de O nome da rosa pelas peripécias de um
pequeno malandro em Baudolino, o escritor revisita, ainda que de uma forma
diferente, algumas das suas obsessões, a começar pelas línguas. ''Não há nada em
latim, a não ser uma ou outra palavra'', avisou Eco. Mas nas oito primeiras páginas, do
novo romance, o escritor volta a brincar com as línguas ao inventar um dialeto no qual o
personagem central da história começa a rabiscar suas reminiscências, salpicadas de
palavras em alemão.
Inventar é a palavra apropriada já que, explicou o próprio Eco, não existe registro da
linguagem popular pelos conterrâneos de Baudolino, no campo, perto de Marengo, onde
surgiu mais tarde Alessandria, cidade natal do próprio Eco. ''A hystoria é que havia
hum samto heremita perto do Bosque et de quando em quando as pessoas levavam para elle
huma galinha ou huma lepore et elle ficava em oração diante de um livro scripto...'',
adapta o tradutor da edição brasileira, Marco Lucchesi. (Jornal do Brasil)
Maldição de Babel
Num dia de
outubro de 1983, Umberto Eco entrou numa livraria de obras raras em Londres e encontrou um
exemplar do livro Essay toward a real character and a philosophical language,
escrito em 1668 pelo bispo inglês John Wilkins. ''Começou daí minha paixão de
colecionador de livros antigos sobre linguagens imaginárias, artificiais, loucas e
ocultas, dando origem à minha Biblioteca semiótica estranha, lunática, mágica e
pneumática''. A coleção de livros está na origem de A busca da língua perfeita,
cujo lançamento no Brasil pela Editora da Universidade do Sagrado Coração coincide com
a publicação do romance Baudolino. Lançado em 1992, o livro faz parte do projeto
The making of Europe, coordenado pelo historiador francês Jacques Le Goff, que
encomendou outras obras a especialistas diferentes.
O bispo Wilkins integra a galeria de
personagens reais cujas idéias são discutidas por Eco. A nostalgia por uma suposta
língua universal, pela época que precedeu Babel e sua ''confusio linguarum'' é o
que anima estes teóricos de épocas variadas revisitados pelo semiólogo italiano.
Embora seu livro feche o foco sobre a Europa, o autor reconhece que ''o tema da confusão
das línguas, bem como a tentativa de remediá-la mediante a descoberta ou invenção de
uma língua comum ao gênero humano, perpassa a história de todas as culturas''.
Se fosse rotular o livro, Eco explica na introdução, não o enquadraria na área da
lingüística, nem da semiótica. A busca da língua perfeita seria antes uma obra
no campo da história das idéias. No livro, nomes famosos como Dante, Descartes e Bacon
se revezam com autores obscuros e eruditos excêntricos, alguns deles incluídos por Eco
na categoria dos ''loucos da linguagem''. (C.F.) (Jornal do Brasil)
Baudolino e a História
Frederico
I, o Barba Ruiva (1122-1190) - À frente do Sacro Império Romano, seus domínios se
estendiam da Polônia até a Itália. O imperador germânico, que travou várias campanhas
contra seus vassalos em cidades da Lombardia, morreu afogado durante a Terceira Cruzada,
segundo os historiadores. Para Baudolino, o personagem de Eco, ele foi assassinado.
Terceira
Cruzada (1189-1192) - Liderada por Frederico Barba Ruiva, pelo rei Ricardo Coração
de Leão, da Inglaterra, e o rei Felipe II, da França, tinha como objetivo retomar
Jerusalém das mãos dos muçulmanos liderados por Saladino. Frederico morreu a caminho de
Jerusalém. Ricardo e Philipe acabaram brigando e a cruzada fracassou.
Preste João - Legendário monarca cristão cujo
reino - mítico se localizaria a princípio na Ásia, mais tarde na África. A lenda
surgiu no século 12, mas persistiu nos séculos seguintes. Cartas supostamente escritas
por ele ou sobre ele circulavam na Europa Ocidental da época. (Jornal do Brasil) |