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Umberto Eco volta à Idade Média

28/08/2001

No quarto romance de Umberto Eco, as mentiras do jovem Baudolino acabam afetando a história da Europa Foto: Evandro Teixeira

 

Em 'Baudolino', seu quarto romance, escritor italiano segue pegadas de personagem picaresco na Europa do século XII

CLÁUDIO FIGUEIREDO

   Vinte anos depois de planejar minuciosamente os assassinatos que prendiam a curiosidade dos leitores de O nome da rosa, Umberto Eco, 68 anos, volta à cena do crime - a Idade Média - em seu novo livro Baudolino. Mas se em seu romance de estréia ele mergulhava no mundo sombrio dos mosteiros e das polêmicas internas da Igreja, agora, ao entrar no mundo laico, da corte do Sacro Império Romano e de suas batalhas e cruzadas, ele é guiado por um personagem picaresco. Baudolino, o menino filho de camponeses que, no ano de 1155, conquista a simpatia do imperador germânico Frederico Barba Ruiva tornando-se um misto de bufão e conselheiro, é o herói do romance que o autor considera seu mais divertido e bem-humorado.

   ''O nome da Rosa era culto, este é popular'', explicou Eco em entrevista ao jornal La Repubblica na época do lançamento do livro, no fim do ano passado, na Itália. ''Rosa é em estilo elevado, este é em estilo baixo. A linguagem é aquela usada pelo camponeses da época ou dos estudantes de Paris, que falavam como os ladrões.''

   Em 1980, Umberto Eco conta que considerou o diretor da editora italiana Bompiani ''louco'' quando este lhe disse que ia rodar 30 mil exemplares de O nome da rosa. Duas décadas depois, seu romance já acumula 25 milhões de volumes vendidos nos cerca de 40 idiomas em que foi traduzido. O sucesso se repetiria, mas não na mesma proporção: seus dois romances seguintes, O pêndulo de Foucault (1988) e A ilha do dia anterior (1994) venderam juntos ''apenas'' cerca de 10 milhões de exemplares. Um indício de declínio, diriam seus críticos. Mas nada mal para um professor de Semiologia, poderia contra-argumentar Eco.

   Pergaminhos - Baudolino começa a escrever suas memórias sobre um pergaminho. As folhas preciosas foram roubadas do cofre de um bispo e para usá-las ele raspa a obra que o religioso levara décadas para escrever. Os alérgicos aos pergaminhos com que o romancista costuma rechear suas histórias não precisam se assustar. É um Baudolino já sexagenário que começa a contar sua própria história numa manhã de 1204 em Constantinopla, quando o exército bizantino é derrotado, não pelos turcos, mas pelas tropas de cruzados da Europa Ocidental que, ao saquearem a cidade, se mostram mais bárbaros do que os muçulmanos.

   O anti-herói do romance tem como principais dons uma facilidade para as línguas e um talento todo especial para mentir. ''Se queres transformar-te num homem de letras, e, quem sabe um dia escrever Histórias deves também mentir, e inventar histórias, pois senão a tua História ficaria monótona'', aconselha um bispo a Baudolino. ''Mas teria de fazê-lo com moderação. O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas ínfimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas.'' O recado, parece sugerir Eco, também vale para o próprio autor do romance.

   Assim, as mentiras do anti-herói de Eco seduzem o imperador e o arrastam em aventuras no Oriente, na tentativa de encontrar o reino utópico de Preste João, ou ''Presbyter Johannes'' como sopra a Baudolino o bispo Otto, à beira da morte. Esse monarca legendário e seu reino mítico enfeitiçariam durante séculos a imaginação de religiosos e viajantes europeus.

   Cruzada - É durante a maior destas empreitadas em que se mete Frederico I, a chamada Terceira Cruzada, rumo a Jerusalém, que o imperador Barba Ruiva morre. Afogado, segundo a história. Assassinado, de acordo com Baudolino.

   Mesmo trocando o clima soturno e austero de O nome da rosa pelas peripécias de um pequeno malandro em Baudolino, o escritor revisita, ainda que de uma forma diferente, algumas das suas obsessões, a começar pelas línguas. ''Não há nada em latim, a não ser uma ou outra palavra'', avisou Eco. Mas nas oito primeiras páginas, do novo romance, o escritor volta a brincar com as línguas ao inventar um dialeto no qual o personagem central da história começa a rabiscar suas reminiscências, salpicadas de palavras em alemão.

   Inventar é a palavra apropriada já que, explicou o próprio Eco, não existe registro da linguagem popular pelos conterrâneos de Baudolino, no campo, perto de Marengo, onde surgiu mais tarde Alessandria, cidade natal do próprio Eco. ''A hystoria é que havia hum samto heremita perto do Bosque et de quando em quando as pessoas levavam para elle huma galinha ou huma lepore et elle ficava em oração diante de um livro scripto...'', adapta o tradutor da edição brasileira, Marco Lucchesi. (Jornal do Brasil)


Maldição de Babel

   Num dia de outubro de 1983, Umberto Eco entrou numa livraria de obras raras em Londres e encontrou um exemplar do livro Essay toward a real character and a philosophical language, escrito em 1668 pelo bispo inglês John Wilkins. ''Começou daí minha paixão de colecionador de livros antigos sobre linguagens imaginárias, artificiais, loucas e ocultas, dando origem à minha Biblioteca semiótica estranha, lunática, mágica e pneumática''. A coleção de livros está na origem de A busca da língua perfeita, cujo lançamento no Brasil pela Editora da Universidade do Sagrado Coração coincide com a publicação do romance Baudolino. Lançado em 1992, o livro faz parte do projeto The making of Europe, coordenado pelo historiador francês Jacques Le Goff, que encomendou outras obras a especialistas diferentes.

   O bispo Wilkins integra a galeria de personagens reais cujas idéias são discutidas por Eco. A nostalgia por uma suposta língua universal, pela época que precedeu Babel e sua ''confusio linguarum'' é o que anima estes teóricos de épocas variadas revisitados pelo semiólogo italiano.

   Embora seu livro feche o foco sobre a Europa, o autor reconhece que ''o tema da confusão das línguas, bem como a tentativa de remediá-la mediante a descoberta ou invenção de uma língua comum ao gênero humano, perpassa a história de todas as culturas''.

   Se fosse rotular o livro, Eco explica na introdução, não o enquadraria na área da lingüística, nem da semiótica. A busca da língua perfeita seria antes uma obra no campo da história das idéias. No livro, nomes famosos como Dante, Descartes e Bacon se revezam com autores obscuros e eruditos excêntricos, alguns deles incluídos por Eco na categoria dos ''loucos da linguagem''. (C.F.) (Jornal do Brasil)


Baudolino e a História

Frederico I, o Barba Ruiva (1122-1190) - À frente do Sacro Império Romano, seus domínios se estendiam da Polônia até a Itália. O imperador germânico, que travou várias campanhas contra seus vassalos em cidades da Lombardia, morreu afogado durante a Terceira Cruzada, segundo os historiadores. Para Baudolino, o personagem de Eco, ele foi assassinado.

Terceira Cruzada (1189-1192) - Liderada por Frederico Barba Ruiva, pelo rei Ricardo Coração de Leão, da Inglaterra, e o rei Felipe II, da França, tinha como objetivo retomar Jerusalém das mãos dos muçulmanos liderados por Saladino. Frederico morreu a caminho de Jerusalém. Ricardo e Philipe acabaram brigando e a cruzada fracassou.

Preste João - Legendário monarca cristão cujo reino - mítico se localizaria a princípio na Ásia, mais tarde na África. A lenda surgiu no século 12, mas persistiu nos séculos seguintes. Cartas supostamente escritas por ele ou sobre ele circulavam na Europa Ocidental da época. (Jornal do Brasil)

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