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JOÃO BONTURI
Em 2001, enquanto o Teatro Municipal de SP completa o seu 90º aniversário,
também é comemorado o centenário da morte do compositor italiano Giuseppe Verdi. Há
exatos 50 anos, na legendária temporada lírica oficial de 1951, Renata Tebaldi, "la
voce d'angelo" ("A voz de anjo"), assim denominada pelo maior dos regentes
do século 20, Arturo Toscanini, cantou "La Traviata" em uma noite de gala.
Não bastassem esses marcos, na mesma semana em que Renata Tebaldi maravilhou
a platéia como Violetta, em "La Traviata", Maria Callas, a mais badalada diva
do século passado, estrelou o mesmo papel numa vesperal, também no Municipal de São
Paulo. Certamente, os grandes templos da ópera (Metropolitan, de Nova York, e Scala, de
Milão) não tiveram essa honra, especialmente depois que Tebaldi e Callas se tornaram as
mais conhecidas rivais da cena lírica.
A "La Traviata" deste ano também é um espetáculo digno de
registro para a posteridade, começando pelos cenários do argentino Enrique Bordolini, e
pelo guarda-roupa da chilena Imme Möller, ambos de acordo com a época em que passa a
ação, na segunda metade da década de 1840.
Os requintes estão corretos, desde os penteados femininos até a
reprodução de um detalhe do quadro "O Rapto das Sabinas", de Jacques-Louis
David, inspirado na fase final da Revolução Francesa, que ornamenta o quarto de Violetta
no terceiro ato.
O uso do palco giratório em cena é executado com eficiência.
A soprano americana Patricia Racette, que encarna Violetta, desempenha o
papel com dignidade, atingindo acima da média as qualidades necessárias.
Na partitura de Verdi, Violetta requer três vozes diferentes de soprano: no
primeiro ato deve ter uma voz flexível e ágil (coloratura, no vocabulário operístico);
no segundo deve apresentar-se como spinto (soprano lírica e dramática ao mesmo tempo);
no terceiro deve ser soprano dramática, para representar o estágio terminal da
tuberculose que aniquila a personagem.
Patricia têm dificuldades para atingir com intensidade precisa os
agudíssimos requeridos na cabaletta (ária curta, de andamento rápido, vinda após uma
lenta) "Sempre libera", do primeiro ato; nos demais atos é perfeita como
soprano spinto e dramática.
O tenor uruguaio Carlo Ventre desempenhou um Alfredo sensível, que expressa
a paixão juvenil necessária no primeiro ato, quando declara o seu amor por Violetta, e
representa convincentemente o desespero exigido no terceiro ato, nos últimos instantes de
vida de Violetta.
O único senão fica por conta de uma rouquidão quando emite as notas mais
graves nas árias (melodias cantadas por um só personagem) "Lunge da lei...De' miei
bollenti spiriti", do segundo ato, e no dueto "Parigi, o cara", do terceiro
ato.
Os desempenhos de Patricia e Carlo são brilhantes, mas a primeira grandeza
cabe ao barítono italiano Renato Bruson, que viveu Giorgio Germont, o pai de Alfredo.
Aos 65 anos de idade, completando 40 anos de carreira, certamente um dos
cinco melhores barítonos da segunda metade do século 20, Bruson continua com um timbre
marcante e um volume de voz que enche o teatro. Os poucos vibratos (oscilações
periódicas e regulares da voz) que emite são consequências da idade e não comprometem
em nada o seu desempenho.
Como Germont, Bruson expressa com altivez a arrogância do patriarca burguês
ao exigir o sacrifício de Violetta para abandonar Alfredo e não manchar a honra da
família; no outro extremo, emociona a platéia ao perdoar Violetta no final. Só o seu
canto na célebre ária "Di Provenza il mare, il suol ", basta para que seja
aplaudido de pé, como tem ocorrido ao final do segundo ato.
A regência do argentino Reinaldo Censabella é correta. Dentro do estilo
italiano, o regente controla o volume da orquestra e privilegia os cantores. Merece
destaque o uso do efeito "sul palco" (uma parte da orquestra se desloca do poço
para o interior do teatro, para reproduzir a sonoridade de uma música vinda da rua ou de
outro aposento de uma casa).
O restante do elenco comporta-se no mesmo nível do trio principal, com
destaque para Sebastião Teixeira (baixo) como o Marquês D'Obigny, e Paulo Queiroz
(tenor) como o visconde de Letorières.
No total, o Theatro Municipal de São Paulo revive com essa temporada de
"La Traviata" os seus melhores momentos. Tomara que os próximos espetáculos
mantenham o mesmo nível. (free-lance para a Folha Online) |