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Começa o Festival de Veneza, que tem filme brasileiro

29/08/2001

José Dumont em "Abril Despedaçado", adaptação de Walter Salles para livro de Ismael Kadaré e único filme brasileiro em competição em Veneza

 

Festival começa hoje com 20 filmes na mostra oficial e premiação dividida pela primeira vez; Brasil concorre a Leão de Ouro com "Abril Despedaçado", de Walter Salles

LEON CAKOFF
EM VENEZA

   Pelo telefone, de Paris, onde finaliza seu novo filme, Walter Salles parece aflito. Perfeccionista, diz que se tivesse mais dois meses seu "Abril Despedaçado" ficaria melhor ainda. Falava igual há três anos, quando foi a Berlim e ganhou o Urso de Ouro com "Central do Brasil".

   Na corrida contra o tempo e a pedido seu, "Abril Despedaçado" terá estréia mundial nos últimos dias da competição do Festival de Veneza. Será no dia 5 de setembro para a imprensa e no dia seguinte para o júri do 58º Festival de Veneza, presidido este ano pelo cineasta italiano Nanni Moretti, recém-laureado com a Palma de Ouro do Festival de Cannes pelo sensível e lacrimoso "O Quarto do Filho" ("La Stanza del Figlio").

   Depois de muito tempo de convulsão, há três anos o Festival de Veneza vem sendo dirigido por um cinéfilo de carteirinha, o sereno Alberto Barbera, saído do impecável festival do Cinema Jovem de Turim. Com Barbera, o festival deixou de ser a vitrine insipiente da temporada do cinema americano pós-verão europeu. Voltou a ser do mundo e da diversidade.

   Veneza abre hoje com 20 longas em competição na mostra oficial. O filme de abertura é o esperado "Dust" (Poeira), o segundo longa do macedônio Milcho Manchevski. O cineasta consagrado em 1994 com o Leão de Ouro de Veneza pelo belo e incômodo filme de estréia "Antes da Chuva", ficou este tempo todo sem filmar e cercado por muitas intrigas sobre o seu temperamento, suas disputas e rupturas com produtores.

   Pela primeira vez dividido em duas premiações, Barbera diz querer experimentar uma nova fórmula para que a imprensa não seja unicamente motivada, como era antes, pelos filmes em concurso, que naturalmente parecem ser os melhores de uma seleção.

   Apesar de o Leão de Ouro estar prometido também para a seleção paralela Cinema do Presente, a categoria em que se encontra o brasileiro "Abril Despedaçado" continua com as honras de ser o principal evento de Veneza.

   Honras que Walter Salles divide com "Address Unknown" (Endereço Desconhecido), de Kim Ki-Duk, o mesmo coreano que chocou na temporada passada com "A Ilha"; "The Navigators", do inglês Ken Loach; e "Loin" (Longe), do francês André Téchiné.

   Para os americanos, Veneza 2001 reservou apenas três espaços nas duas seleções. No concurso principal estão "Bully", de Larry Clark (de "Kids"), e "Waking Life", de Richard Linklater. "13 Conversations about One Thing", de Jill Sprecher, concorre no Cinema do Presente.

   Em nome da cinefilia, a produção americana continua fazendo bonito. Veneza guarda a primazia européia dos novíssimos de Woody Allen ("The Curse of the Jade Scorpion"), John Carpenter ("Fantasmas de Marte"), Steven Spielberg ("Inteligência Artificial") e David Mamet ("Heist").

   Mas o mesmo balaio das apresentações especiais também honra os últimos trabalhos do decano português Manoel de Oliveira, com o documentário "Porto da Minha Infância", e o egípcio Youssef Chahine, com "Silence... on Tourne!". Sem protecionismos, a Itália também fica restrita a "Luna Rossa" (Lua Vermelha), de Antonio Capuano, e "Luce dei Miei Occhi" (Luz de Meus Olhos), de Giuseppe Piccioni, na competição principal.

   O país também compete com as co-produções com Israel e França de "Eden", de Amos Gitai; com Irlanda, Inglaterra e França, no filme iugoslavo de Goran Paskaljevic "How Harry Became a Tree" (Como Harry Virou uma Árvore); "The Triumph of Love", da inglesa Clare Peploe, e com o Irã em "Secret Ballot" (Cédula Secreta), de Babak Payami.

   Mais uma sessão, chamada de Novos Territórios, é a reserva especial para as linguagens radicais. Nela estão o brasileiro Julio Bressane, com "Dias de Nietzsche em Turim", o italiano Tonino de Bernardi, com "Farelavita", e o americano Spike Lee, com "A Huey P. Newton Story".
Um seminário e um Leão de Ouro especial honrarão a carreira do francês Eric Rohmer, que mostra a sua polêmica versão da Revolução Francesa em "L'Anglaise et le Duc". Fazer um evento público com o arredio Rohmer será um dos grandes momentos deste festival, que contempla na gestão de Barbera o cinema sem fronteiras. (Folha de S. Paulo)

58º FESTIVAL DE VENEZA / CINEMA DO PRESENTE

Giuseppe Bertolucci aborda os caminhos da profissão de ator em "L'Amore Probabilmente"

Filme que abre a competição explora metalinguagem

FRANCESCA ANGIOLILLO
DA REPORTAGEM LOCAL

   O primeiro filme em competição exibido no 58º Festival de Veneza é um "road movie interior", na definição dos atores Sonia Bergamasco e Fabrizio Gifuni.

  Sofia e Cesare, personagens de Bergamasco e Gifuni -ambos de 35 anos, marido e mulher na vida real-, formam com Chiara (Rosalinda Celentano) o triângulo que provoca a ação de "L'Amore Probabilmente" (O Amor Provavelmente). O filme de Giuseppe Bertolucci, 54, abre a competição, na mostra Cinema do Presente.

   Um festival de cinema italiano realizado este mês em São Paulo os trouxe a cidade. Eles receberam a Folha uma hora antes de retornarem à Itália, para falar do filme do irmão mais novo de Bernardo Bertolucci ("Assédio").

   A narrativa começa em Lucca (Toscana, norte da Itália), onde Sofia estuda teatro. Os rumos possíveis para um ator, representados na viagem que Sofia fará após descobrir ser traída, constituem o fio condutor do filme, que brinca com a metalinguagem.

   A referência ao mundo dos atores aparece tanto na trama como na forma usada por Bertolucci. Rodando quase sempre em digital, captou mais de 60 horas, inclusive os ensaios para as cenas, que intercalou à ação, reforçando a questão metalinguística.

   A produção tem três capítulos: a mentira, a verdade e a ilusão. Cada um corresponde a uma forma possível de atuação -e de encarar os confrontos do dia-a-dia- que Sofia buscará como certa.

   É Gifuni quem explica a primeira parte: "Sofia é atriz, e sua professora de teatro é [a atriz" Mariangela Melato, que faz o papel dela mesma. Melato ensina que um ator não é um ator se não sabe mentir. É isso que faz com que Sofia conte uma série de mentiras".

   Bergamasco define sua personagem como "curiosa". "Está num momento de entender o que é e o que quer. Essa descoberta [do triângulo" a perturba muito."

   Sofia -não será à toa a escolha de um nome que significa, em grego, conhecimento- se mete num trem, sem saber seu destino e sem bilhete. Começa a sua "viagem de formação, artística e sentimental", nas palavras de Gifuni.

   Ela adormece e acorda em Lugano, na Suíça, onde encontra um ferroviário, Pietro (Teco Celio), que a encobre e com quem passa um dia -é quando começa o segundo capítulo, o da verdade. No trem, Sofia havia lido uma entrevista com a atriz Stefania Sandrelli, personificando a forma de atuar que busca a realidade.

   Inspirada por Sandrelli, Sofia resolve contar à mulher de Pietro sua pequena história romântica com o ferroviário. "Ela fala tudo o que houve, que não foi nada importante, sua "falsa história de amor", de modo muito cru", explica Bergamasco.

   "A última parte fala do terceiro caminho de cada ator", diz Gifuni. "E de todo homem, também, porque esse discurso sobre a atuação é muito existencial", completa, explicando o capítulo da ilusão, em que surge "o terceiro "anjo tutelar'" de Sofia: Alida Valli.

   A atriz, hoje com 80 anos, estava doente e não pôde participar do filme. A forma como Bertolucci a inseriu se mostra adequada a quem representa a ilusão: ela aparece em cenas de outros filmes, dialogando com Sofia.

   A jovem protagonista acaba em Roma, para uma audição de cinema. "Por fim, Sofia deixa a estrada para lá. O final é como uma porta aberta: na verdade, os portões de Cinecittà", conclui Bergamasco. (Folha de S. Paulo)


Nicole Kidman vira "arroz-de-festival"

MILLY LACOMBE
FREE-LANCE PARA A FOLHA, EM LOS ANGELES

   Não se pode ter tudo na vida. Justamente quando sua carreira começa a decolar em velocidade meteórica, os problemas da vida privada da atriz Nicole Kidman são expostos com lupa.

   Após ter sido a sensação de Cannes ao abrir o festival deste ano com "Moulin Rouge", agora se prepara para aportar em Veneza com duas novas produções: "Os Outros", que compete pelo Leão de Ouro, e "Birthday Girl", fora de concurso.

   Recém-separada de Tom Cruise, Kidman se vê sob as luzes mais fortes dos holofotes da imprensa mundial, que já tratou de colocá-la como cabeça-de-chave para o Oscar de 2002 por "Os Outros".

   Ao mesmo tempo, tem de sorrir e desconversar quando o assunto é seu conturbado final de casamento e o aborto não provocado que sofreu no começo do ano.

   Contudo as apostas profissionais de Kidman, 34, têm sido bem lucrativas. Ela deu o primeiro passo arrojado de sua carreira ao assinar contrato para interpretar uma cortesã de cabaré em "Moulin Rouge", musical pop que estreou na última sexta no Brasil.

   O sucesso de "Moulin Rouge" já seria suficiente para coroá-la, mas é com "Os Outros" que Kidman vem mostrar a que veio. "Elaborei uma lista de dez atrizes que poderiam fazer o papel para ver se Alejandro [Amenábar, que escreveu e dirigiu o longa] me deixava em paz", contou explicando estar exausta após "Moulin Rouge".

   Mas o jovem cineasta espanhol não seria convencido, e Kidman acabou aceitando. Foi seu primeiro suspense, produzido por Cruise, na época seu marido.

   Segundo ela, a experiência foi válida. "Alejandro não tem medo de visitar lugares sombrios e obscuros e me deu coragem para visitá-los com ele." O diretor/roteirista devolve o elogio: "O que me fez não desistir dela foi a inegável capacidade de seu olhar".

   E, nas ondas da maré positiva, até a comédia sem fôlego "Birthday Girl" vai flutuar. O filme tem apresentação fora de competição em Veneza amanhã à meia-noite.

   Mas o melhor deve estar por vir. Atualmente, está sob a direção de Stephen Daldry ("Billy Elliot") filmando "The Hours". No papel de Virginia Woolf, ela terá como coadjuvantes um time de primeiríssima grandeza: Julianne Moore, Meryl Streep e Ed Harris. (Folha de S. Paulo)


Festival de Veneza terá 41 filmes em competição

da France Presse, em Veneza

   Vinte filmes disputam o Leão de Ouro na 58ª edição do Festival de Veneza, que acontece entre os dias 29 de agosto e 8 de setembro.

   Este ano, além do Leão de Ouro, a organização do evento lançou o Leão do Ano, prêmio destinado ao "Cinema do Presente", e o Leão do Futuro, que premiará a melhor das obras presentes na programação.

   O vencedor do Leão do Futuro será escolhido por um júri presidido pelo cineasta francês Cédric Kahn. O premiado ganhará US$ 100 mil e 20 mil metros de filme Kodak.

   O Festival de Veneza exibe este ano 146 filmes - 78 longas, 12 documentários e 56 curtas e médias. Divididos em quatro grandes grupos, eles serão projetados em seis salas. Ao todo, serão 600 projeções em onze dias.

   Veja a seguir a lista dos 20 filmes que disputam o Leão de Ouro deste ano:

"Los Otros", de Alejandro Amenábar (Espanha/EUA)
"Quem era você?", de João Botelho (Portugal)
"Lua Vermelha", de Antonio Capuano (Itália)
"Hollywood Hong Kong",de Fruit Chan (Hong Kong/França/Japão)
"Bully", de Larry Clark (EUA)
"Y tu mamá también", de Alfonso Cuarón (México)
"Selvagem Inocência", de Philippe Garrel (França/Holanda)
"Éden", de Amos Gitai (França/Itália/Israel)
"Direção Desconhecida", de Ki-duk Kim (Coréia)
"Caminhando a Vida", de Richard Linklater (EUA)
"The Navigators", de Ken Loach (Inglaterra/Alemanha/Espanha)
"Casamento com Monção", de Mira Nair (India)
"Como Harry se Tornou Árvore", de Goran Pakaljevic (Irlanda/Itália/Inglaterra/França)
"Votos Vazios", de Babak Payami (Irã/Itália)
"O Triunfo do Amor", de Clare Peploe (Itália/Inglaterra)
"Tesouro dos Meus Olhos", de Giuseppe Piccioni (Itália)
"A Tarde de um Torturador", de Lucian Pintilie (Romênia-França)
"Detrás do Sol", de Walter Salles (Brasil/Suíça/França)
"Hundstage", de Ulrich Seidl (Áustria)
"Longes", de André Téchiné (França)

Veja a lista das 21 produções que disputam o Leão do Ano:

"O Amor, Provavelmente", de Giuseppe Bertolucci (Itália/Suíça)
"Filhos", de Marco Bechis (Itália)
"Sestry", de Sergei Bodrov Jr. (Rússia)
"O Emprego do Tempo", de Laurent Cantet (França)
"Eu Sem Você", de Sandra Goldbacher (Inglaterra)
"Invencível", de Werner Herzog (Alemanha/Inglaterra)
"Tuhog", de Jeffrey Jeturian (Filipinas)
"Tirana Ano Zero", de Fatmi Koçi (Albânia/França/Bélgica)
"O Amor Imperfeito", de Giovanni Davide Maderna (Itália/Espanha)
"O Sopro", de Damien Odoul (França)
"Fifi Martingale", de Jacques Rozier (França)
"Gaichu", de Akihiko Shiota (Japão)
"Flor da Ilha", de Il-gon Song (Coréia/França)
"O Homem Demais", de Paolo Sorrentino (Itália)
"13 Conversas Sobre Uma Só Coisa", de Jill Sprecher (EUA)
"Rainhas por Um Dia", de Marion Vernoux (França)
"Água e Sal", de Teresa Villaverde (Portugal/França)
"Sábado", de Juan Villegas (Argentina)
"A Febre do Louco", de Andres Wood (Chile/Espanha/México)
"Zuo Tian", de Yang Zhang (China)
"Haixian", de Zhu Wn (Hong Kong)

(Folha Online)

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