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Projeto Luar faz parceria com Itália

31/08/2001

Crianças participam do grupo com apoio da comunidade

 

Grupo que atua na Baixada Fluminense leva seu método de atuação para Roma

KARLA DUNDER

   Há 11 anos Rita Serpa resolveu deixar sua vida de bailarina profissional para fazer algo que ela mesma considerou "uma coisa de gente doida": largar tudo e dedicar-se a um projeto social - ensinar a dança para pessoas carentes.

   Rita passou a freqüentar os bairros da Baixada Fluminense - um cinturão que cerca a cidade do Rio -, que possui uma população estimada em 4 milhões de habitantes, marcada por altos índices de violência. O local escolhido para dar início às aulas foi o fundo de uma igreja no bairro do Jardim Primavera, em Duque de Caxias. "Não sabia se iria ficar, mas queria fazer algo pelas crianças e adolescentes que estavam ali. Começamos com uma turma de 20, naquela época era apenas um projeto. Hoje, o Luar conta com mais de 700 meninos e meninas, estamos até na Itália," comenta Rita.

   "Quando as crianças começaram a chegar e a fazer aulas, decidi não sair mais dali. Estudei como manter o projeto, como fazê-lo crescer e, ao mesmo tempo, estava me desdobrando para atender a todos que chegavam", lembra Rita. O projeto progrediu, recebeu o nome de Luar e começou a tomar forma.

   Para dar continuidade às suas idéias, Rita preparou alunos de dança para se tornarem professores. "Aqueles que se destacavam começaram a ensinar os mais novos, sempre com a minha supervisão. Não fazemos diferença entre as crianças. Os que têm interesse em dançar participam, tendo jeito ou não.

   Assim, conseguimos democratizar nosso funcionamento."

   "O Deco é um exemplo, começou comigo, aprendeu, se desenvolveu e hoje está na Itália coordenando meninos do grupo lá." Uma parte do projeto Luar está na Itália para ensinar a maneira de fazer arte e auxiliar na educação de pessoas carentes. "No ano passado, um padre franciscano, dom Franco, veio ao Brasil para conhecer o projeto e a companhia. Ele gostou do resultado e resolveu fazer um intercâmbio entre brasileiros e italianos. Levou os meninos brasileiros para a Europa e um grupo de lá veio ao País." Além das trocas, foi encomendada à companhia a criação de uma coreografia.

   O roteiro foi definido por dom Franco - o extermínio de crianças na América Latina. "Apesar de ser extremamente difícil, é um assunto que está presente em todo o mundo e nosso desafio foi criar um trabalho acessível, com uma linguagem abrangente", observa. Após meses de ensaios e discussões, surgiu O Grito de Raquel, com trilha sonora em tupi-guarani. Uma peça que aborda a situação de risco em que vivem tantos meninos e meninas em todo o País.

   "Para completar, pedi um texto ao escritor Eduardo Galeano, que comentou a situação dos meninos de rua na Colômbia."

   "Dom Franco 'importou' nossa proposta, pretende organizar uma escola nos moldes da nossa, porque há muitos imigrantes em Roma, que ficam à margem, além de sofrerem com o preconceitos e todas as dificuldades inerentes à vida em uma terra estrangeira."

   A parceria foi estabelecida com a organização Noi Ragazzi del Mondo, que prentede criar 'filiais' do projeto na Itália. "A dança não conhece barreiras culturais nem de idiomas, é uma linguagem comum a todas as pessoas, que auxilia no processo de integração." Neste ano, o convite foi reforçado e, além das apresentações em Roma, a turma do Luar também dançou em Bérgamo. Foram três meses numa turnê que terminou neste mês.

   Funcionamento - O Luar trabalha com as crianças em suas comunidades, com a intenção de fixar sua identidade e suas referências. As famílias acompanham de perto o desenvolvimento do grupo. "Também buscamos dar uma formação cultural, colocando os meninos em contato com a música erudita, literatura e história da arte; não basta dar aulas de dança, é preciso estimular o gosto por outros assuntos." Como o projeto é ligado à ordem dos franciscanos, existe o cuidado com a natureza, com os animais e com a alimentação.

   Outra característica marcante: "Dançamos em qualquer lugar da comunidade; nas ruas, praças, escolas, igrejas. O público assiste com muito respeito e percebemos que há um orgulho muito grande por parte dessas pessoas em ver um trabalho como esse em seu bairro. É uma oportunidade de ter a cultura bem próxima e, acima de tudo, ver que essa arte é feita por pessoas dali."

   Por essa razão, o Luar não tem sede. "Foi uma opção. Assim, a arte torna-se solidária, itinerante. A dança é um patrimônio e um direito de todos." Para Rita, quando a arte faz parte do cotidiano das pessoas, propicia a criação de um novo público. "As pessoas que têm contato, passam a acompanhar e assistir aos espetáculos."

   Para pôr em prática a questão da educação foram feitas parcerias com escolas municipais da região. "Integramos a arte ao currículo escolar." As atividades envolvem cinco escolas em Duque de Caxias e a expectativa é que se estenda a todas as escolas da região.

   Em 1998, a Shell do Brasil fechou parceria com o grupo fornecendo ajuda de custo para transporte e alimentação dos artistas e integrantes da Companhia Luar. Para este ano, o grupo está trabalhando em duas novas coreografias: Imagens do Inconsciente, inspirado no trabalho da psiquiatra Nise da Silveira, e Histórias da Central do Brasil, que relata o dia-a-dia dos que circulam pela estação. (O Estado de S. Paulo)

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