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Scala de Milão vive delicado momento de transição

16/09/2002

Montagem de ‘O Barbeiro de Sevilha’ e da ópera ‘Therese Raquin’, estreada no ano passado: entre os títulos consagrados e novas obras J.F. Diorio/AE-22/2/00

 

Para Luca Targetti, público cresceu, mas é preciso acompanhar melhor seus interesses

   O Scala de Milão vive neste momento uma fase de transição, em grande parte provocada pela transformação dos "enti lirici" - os 11 teatros e duas orquestras que eram subvencionados pelo Estado - em fundações de direito privado. "A situação italiana não é fácil, pois a verba oficial, do Fundo Monetário para o Espetáculo, diminuiu muito, o suplemento da iniciativa privada nem sempre corresponde ao desejado e, com isso, não se pode fazer tudo o que se quer. Ainda assim, a ópera é um mercado de trabalho muito grande para músicos e técnicos, pois o interesse do público, estimulado pelo disco, DVD e os meios de comunicação, é crescente", diz Luca Targetti, diretor de elenco do teatro.

   "O público aumentou. O Scala tem 1.800 lugares; o Arcimboldi, onde estamos agora, possui 2.400. É preciso, portanto, atender aos interesses de uma platéia mais diversificada. Está em estudo um projeto de ópera a preços populares, com elenco jovem, que será implementado em breve." Para Targetti, "é preciso repensar constantemente a linguagem com que a ópera se comunica com o público, pois hoje ela concorre com outros tipos de espetáculo: o cinema, a TV, a música em casa, e isso faz com que seja necessária uma motivação muito definida para que o espectador se disponha a sair de casa para ir ao teatro".

   Targetti estabelece diferenças entre o assinante, que vai à ópera por status; o público comum, que busca apenas entretenimento, e o conhecedor, desejoso de alargar seus horizontes de experiência. "É necessário encontrar uma solução de compromisso para atingir esses três níveis de público." Mas é o primeiro a reconhecer que a maioria das pessoas é tradicionalista: "Em julho, em pleno verão, fizemos um Barbeiro de Sevilha que, nas 12 récitas, teve casa cheia. Já o Otello, na mesma época, atraiu pouca gente."

   Patrick Shelley considera conservador o público inglês: "É um público que, de modo geral, rejeita a música angulosa, feia e pouco melodiosa de certos compositores contemporâneos." Ele próprio se confessa um tradicionalista, que não gosta dos compositores ingleses - nem mesmo de Britten. Menno Feenstra tampouco demonstra muito interesse por músicos modernos. Cita apenas o italiano Luciano Berio como um contemporâneo importante. E não hesita em afirmar que considera "uma enganação" um americano como John Corigliano, autor do aplaudido Fantasmas de Versalhes, "uma salada de concessões para agradar ao público".

   A situação de Andrés Rodríguez Pérez é muito particular: ele consegue a proeza de ser, há 21 anos, o diretor-geral do Municipal de Santiago, sobrevivendo às flutuações políticas do Chile desde que assumiu o cargo em 1981. E, para ele, "o Municipal vive um momento de auge, graças à formação de um bom grupo de artistas e de uma sólida base técnica". Do Chile saíram recentemente artistas como as sopranos Verónica Villaroel e Cristina Gallardo-Domas.

    No Municipal de Santiago, o preço dos ingressos da temporada internacional tem de ser alto - em média o equivalente a R$ 300 -, porque o teatro não recebe subvenção pública, vive da bilheteria, e tem um corpo de 500 funcionários, entre músicos e técnicos. Mas o público aceita isso (há 22 mil assinantes, dos quais 7 mil para a ópera), desde que a qualidade oferecida seja boa, garante Rodríguez. E os Encuentros con la Ópera trazem espetáculos com artistas locais, a preços mais baixos (cerca de R$ 100, o que, para nossos padrões, ainda é caro).

   Os chilenos, diz ele, formam "um público fiel, leal, exigente e, de modo geral, aberto a certas novidades. Antes, predominava o repertório italiano mas, entre 1983 e 2001, fizemos todas as óperas de Wagner com muito sucesso.

   Nos últimos 20 anos, montamos todas as grandes óperas de Mozart e Strauss - menos A Mulher Sem Sombra, porque o fosso não comporta o tamanho da orquestra - óperas francesas e russas e, em anos recentes, a Jenufa de Janácek e o Wozzeck de Alban Berg."

   Problemas, portanto, existem. Divergências são comuns entre músicos e diretores de cena. E agradar a todo o público é tarefa virtualmente impossível. Mas visivelmente não tem razão quem pensar que Turandot foi a última ópera importante a ser composta. Ouvindo esses profissionais, que vivem o dia-a-dia do teatro lírico em grandes casas de espetáculo européias ou da América Latina, percebe-se que estava certo o compositor americano William Bolcom ao comentar, tempos atrás: "Engraçado, diziam que a ópera tinha morrido e, na verdade, ela não está nem sequer doente." (L.M.C.) (© O Estado de S. Paulo)

 

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