Para Luca
Targetti, público cresceu, mas é preciso acompanhar melhor seus interesses
O Scala de Milão vive neste momento uma fase de transição, em grande
parte provocada pela transformação dos "enti lirici" - os 11 teatros e duas
orquestras que eram subvencionados pelo Estado - em fundações de direito privado.
"A situação italiana não é fácil, pois a verba oficial, do Fundo Monetário para
o Espetáculo, diminuiu muito, o suplemento da iniciativa privada nem sempre corresponde
ao desejado e, com isso, não se pode fazer tudo o que se quer. Ainda assim, a ópera é
um mercado de trabalho muito grande para músicos e técnicos, pois o interesse do
público, estimulado pelo disco, DVD e os meios de comunicação, é crescente", diz
Luca Targetti, diretor de elenco do teatro.
"O público aumentou. O Scala tem 1.800 lugares; o Arcimboldi, onde
estamos agora, possui 2.400. É preciso, portanto, atender aos interesses de uma platéia
mais diversificada. Está em estudo um projeto de ópera a preços populares, com elenco
jovem, que será implementado em breve." Para Targetti, "é preciso repensar
constantemente a linguagem com que a ópera se comunica com o público, pois hoje ela
concorre com outros tipos de espetáculo: o cinema, a TV, a música em casa, e isso faz
com que seja necessária uma motivação muito definida para que o espectador se disponha
a sair de casa para ir ao teatro".
Targetti estabelece diferenças entre o assinante, que vai à ópera por
status; o público comum, que busca apenas entretenimento, e o conhecedor, desejoso de
alargar seus horizontes de experiência. "É necessário encontrar uma solução de
compromisso para atingir esses três níveis de público." Mas é o primeiro a
reconhecer que a maioria das pessoas é tradicionalista: "Em julho, em pleno verão,
fizemos um Barbeiro de Sevilha que, nas 12 récitas, teve casa cheia. Já o Otello, na
mesma época, atraiu pouca gente."
Patrick Shelley considera conservador o público inglês: "É um
público que, de modo geral, rejeita a música angulosa, feia e pouco melodiosa de certos
compositores contemporâneos." Ele próprio se confessa um tradicionalista, que não
gosta dos compositores ingleses - nem mesmo de Britten. Menno Feenstra tampouco demonstra
muito interesse por músicos modernos. Cita apenas o italiano Luciano Berio como um
contemporâneo importante. E não hesita em afirmar que considera "uma
enganação" um americano como John Corigliano, autor do aplaudido Fantasmas de
Versalhes, "uma salada de concessões para agradar ao público".
A situação de Andrés Rodríguez Pérez é muito particular: ele
consegue a proeza de ser, há 21 anos, o diretor-geral do Municipal de Santiago,
sobrevivendo às flutuações políticas do Chile desde que assumiu o cargo em 1981. E,
para ele, "o Municipal vive um momento de auge, graças à formação de um bom grupo
de artistas e de uma sólida base técnica". Do Chile saíram recentemente artistas
como as sopranos Verónica Villaroel e Cristina Gallardo-Domas.
No Municipal de Santiago, o preço dos ingressos da temporada
internacional tem de ser alto - em média o equivalente a R$ 300 -, porque o teatro não
recebe subvenção pública, vive da bilheteria, e tem um corpo de 500 funcionários,
entre músicos e técnicos. Mas o público aceita isso (há 22 mil assinantes, dos quais 7
mil para a ópera), desde que a qualidade oferecida seja boa, garante Rodríguez. E os
Encuentros con la Ópera trazem espetáculos com artistas locais, a preços mais baixos
(cerca de R$ 100, o que, para nossos padrões, ainda é caro).
Os chilenos, diz ele, formam "um público fiel, leal, exigente e, de
modo geral, aberto a certas novidades. Antes, predominava o repertório italiano mas,
entre 1983 e 2001, fizemos todas as óperas de Wagner com muito sucesso.
Nos últimos 20 anos, montamos todas as grandes óperas de Mozart e
Strauss - menos A Mulher Sem Sombra, porque o fosso não comporta o tamanho da orquestra -
óperas francesas e russas e, em anos recentes, a Jenufa de Janácek e o Wozzeck de Alban
Berg."
Problemas, portanto, existem. Divergências são comuns entre músicos e
diretores de cena. E agradar a todo o público é tarefa virtualmente impossível. Mas
visivelmente não tem razão quem pensar que Turandot foi a última ópera importante a
ser composta. Ouvindo esses profissionais, que vivem o dia-a-dia do teatro lírico em
grandes casas de espetáculo européias ou da América Latina, percebe-se que estava certo
o compositor americano William Bolcom ao comentar, tempos atrás: "Engraçado, diziam
que a ópera tinha morrido e, na verdade, ela não está nem sequer doente." (L.M.C.)
(© O Estado de S. Paulo)