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Estudo recupera a trilha do mestre Ruggero Jacobbi

16/09/2002

A direção de Ruggero Jacobbi para ‘O Mentiroso’, no TBC, com Sérgio Cardoso no papel central, mereceu um capítulo especial no livro

 

Tese da pesquisadora Berenice Raulino analisa a trajetória do diretor italiano que viveu 14 anos no Brasil

BETH NÉSPOLI

   Num fórum de debates ocorrido no espaço Ágora, reunindo 17 importantes criadores da cena brasileira – entre eles Gianni Ratto, Fernando Peixoto, Antunes Filho, Gianfrancesco Guarnieri e Paulo Autran –, chama atenção a quantidade de vezes em que é citado o diretor italiano Ruggero Jacobbi (1920-1981), que viveu no Brasil durante 14 anos, entre 1946 e 1960. “Uma pessoa fabulosa que nos incentivava, nos ensinava o caminho das pedras”, diz Guarnieri. “O Ruggero foi a pessoa que formou minha cabeça em todos os sentidos – culturalmente, artisticamente e politicamente”, diz Peixoto. Em todas as declarações, Jacobbi surge como um mestre, cuja atuação foi essencial no desenvolvimento no teatro brasileiro.

   Por mais que esteja reconhecida a contribuição de Jacobbi para a cena nacional – destacada em diversas historiografias e estudos já publicados, sobretudo sobre as décadas de 40 e 50 no teatro nacional – esse artista ainda não havia merecido um estudo exclusivo e em profundidade. Lacuna preenchida com o lançamento do livro Ruggero Jacobbi, de Berenice Raulino (305 págs., R$ 30,00), que se debruçou sobre a vida e a atuação do diretor italiano em sua tese de doutoramento, agora publicada pela Editora Perspectiva na coleção Estudos.

   Não se limita à atuação brasileira de Jacobbi o estudo de Berenice. O livro acompanha a trajetória do diretor desde sua juventude, na Itália, para onde ela viajou para melhor realizar sua pesquisa. Numa retrospectiva, analisa o panorama teatral italiano do entreguerras, marcado pela ascensão do fascismo, período em que Jacobbi faz a sua formação. Salta aos olhos, a semelhança entre a cena italiana desse período e a cena brasileira que Jacobbi vai encontrar em sua chegada ao Brasil. Na década de 30, na Itália, o teatro estava ‘atrasado’ com relação ao restante da Europa, no que diz respeito às inovações do palco moderno.

   Atraso em parte creditado à resistência dos chamados ‘mattatori’, os primeiros atores das companhias profissionais que não abriam espaço para o diretor e tinham “interesse na manutenção do seu métier conquistado a duras penas e com uma tradição de séculos de sucesso”. A partir de uma rigorosa pesquisa, Berenice nos mostra que o partido fascista estimula o desenvolvimento do teatro italiano, ao enfraquecer a luta sindical dos atores e reduzir a autoridade e autonomia dos chefes de companhia. Além disso, oferece subsídios e estímulos aos jovens criadores, que nesse momento se opõem ao teatros dos grandes atores, antenados com a renovação que já sopra no restante da Europa.

   Essa espécie de ‘parceria’ entre o partido fascista e jovens artistas valeriam a Jacobbi, no futuro, algumas cobranças desconfiadas. Mas a pesquisadora deixa claro que o diretor nunca partilhou do ideário fascista. Homem de esquerda, Jacobbi “não se deixa capturar em armadilhas de uma idelogia institucionalizada”, escreve Berenice. E destaca uma das declarações do mestre: “O simples ato de exprimir-se é sempre um gesto subversivo – a menos que tenha sido acertado de antemão com os patrões do mundo sobre as bases de um compromisso. Mas em tal caso não apenas não subverte, mas nem sequer exprime.”

   Depois de ter vivenciado com intensidade a modernização do teatro italiano, já no Brasil Jacobbi seria um dos diretores que ajudariam o teatro brasileiro a fazer a passagem entre um estilo teatral centrado na figura do grande ator para o espetáculo moderno, no qual surge o encenador como figura responsável pela valorização e harmonização dos diversos elementos da cena – interpretação, cenários, figurinos, trilha sonora, iluminação e texto – em torno de uma unidade, um conceito, uma idéia central.

   Ele vem para o Brasil em dezembro de 1946 como diretor da companhia de Diana Torrieri, que segue em turnê para Buenos Aires, enquanto ele permanece no País. Faz muito sucesso em sua primeira direção, no Rio, da peça Estrada de Tobaco, que estréia no Teatro Fênix, em 1947 com Itália Fausta no elenco. A partir daí, dirige vários dos nossos grandes “mattatori”. Dirige Procópio Ferreira em três peças, entre elas Lady Godiva, de Guilherme Figueiredo. Em debates e aulas, sempre apontou o fortalecimento da dramaturgia nacional como fator essencial no desenvolvimento do teatro.

   Berenice acompanha passo a passo e com farta documentação, além de depoimentos, a carreira desse diretor que viveu no Brasil dos 26 aos 40 anos e dirigiu cerca de 50 espetáculos em companhias como o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), o Teatro Íntimo de Nicette Bruno, a Companhia Nydia Lícia-Sérgio Cardoso e o Teatro dos Doze.

   A pesquisadora reserva um capítulo especial para a direção de Jacobbi no espetáculo O Mentiroso, de Goldoni, que marca a um só tempo a sua estréia e a do ator Sérgio Cardoso no TBC, espetáculo que influenciou definitivamente a carreira de Antunes Filho, como ele declara à pesquisadora. Jacobbi foi o responsável pela introdução da linguagem da Commedia dell’Arte no País. Em outro capítulo, analisa em profundidade o processo de criação de A Ronda dos Malandros, espetáculo baseado no Ópera dos Mendigos, de John Gay, cujo resultado irritou o empresário Franco Zampari, dono do teatro, e provocou o pedido de demissão de Jacobbi do TBC.

   Além de seguir os passos do diretor em várias cidades do País, do tradutor, do intelectual, Berenice ainda acompanha seu trabalho como diretor na volta à Itália, entre 1960 e 1981, ano de sua morte. Uma pesquisa de fôlego, à altura, que faz jus à trajetória intelectual e artística de Jacobbi. (© O Estado de S. Paulo)

 

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