Num fórum de debates ocorrido no espaço Ágora, reunindo 17 importantes
criadores da cena brasileira entre eles Gianni Ratto, Fernando Peixoto, Antunes
Filho, Gianfrancesco Guarnieri e Paulo Autran , chama atenção a quantidade de
vezes em que é citado o diretor italiano Ruggero Jacobbi (1920-1981), que viveu no Brasil
durante 14 anos, entre 1946 e 1960. Uma pessoa fabulosa que nos incentivava, nos
ensinava o caminho das pedras, diz Guarnieri. O Ruggero foi a pessoa que
formou minha cabeça em todos os sentidos culturalmente, artisticamente e
politicamente, diz Peixoto. Em todas as declarações, Jacobbi surge como um mestre,
cuja atuação foi essencial no desenvolvimento no teatro brasileiro.
Por mais que esteja reconhecida a contribuição de Jacobbi para a cena
nacional destacada em diversas historiografias e estudos já publicados, sobretudo
sobre as décadas de 40 e 50 no teatro nacional esse artista ainda não havia
merecido um estudo exclusivo e em profundidade. Lacuna preenchida com o lançamento do
livro Ruggero Jacobbi, de Berenice Raulino (305 págs., R$ 30,00), que se debruçou sobre
a vida e a atuação do diretor italiano em sua tese de doutoramento, agora publicada pela
Editora Perspectiva na coleção Estudos.
Não se limita à atuação brasileira de Jacobbi o estudo de Berenice. O
livro acompanha a trajetória do diretor desde sua juventude, na Itália, para onde ela
viajou para melhor realizar sua pesquisa. Numa retrospectiva, analisa o panorama teatral
italiano do entreguerras, marcado pela ascensão do fascismo, período em que Jacobbi faz
a sua formação. Salta aos olhos, a semelhança entre a cena italiana desse período e a
cena brasileira que Jacobbi vai encontrar em sua chegada ao Brasil. Na década de 30, na
Itália, o teatro estava atrasado com relação ao restante da Europa, no que
diz respeito às inovações do palco moderno.
Atraso em parte creditado à resistência dos chamados mattatori,
os primeiros atores das companhias profissionais que não abriam espaço para o diretor e
tinham interesse na manutenção do seu métier conquistado a duras penas e com uma
tradição de séculos de sucesso. A partir de uma rigorosa pesquisa, Berenice nos
mostra que o partido fascista estimula o desenvolvimento do teatro italiano, ao
enfraquecer a luta sindical dos atores e reduzir a autoridade e autonomia dos chefes de
companhia. Além disso, oferece subsídios e estímulos aos jovens criadores, que nesse
momento se opõem ao teatros dos grandes atores, antenados com a renovação que já sopra
no restante da Europa.
Essa espécie de parceria entre o partido fascista e jovens
artistas valeriam a Jacobbi, no futuro, algumas cobranças desconfiadas. Mas a
pesquisadora deixa claro que o diretor nunca partilhou do ideário fascista. Homem de
esquerda, Jacobbi não se deixa capturar em armadilhas de uma idelogia
institucionalizada, escreve Berenice. E destaca uma das declarações do mestre:
O simples ato de exprimir-se é sempre um gesto subversivo a menos que tenha
sido acertado de antemão com os patrões do mundo sobre as bases de um compromisso. Mas
em tal caso não apenas não subverte, mas nem sequer exprime.
Depois de ter vivenciado com intensidade a modernização do teatro
italiano, já no Brasil Jacobbi seria um dos diretores que ajudariam o teatro brasileiro a
fazer a passagem entre um estilo teatral centrado na figura do grande ator para o
espetáculo moderno, no qual surge o encenador como figura responsável pela valorização
e harmonização dos diversos elementos da cena interpretação, cenários,
figurinos, trilha sonora, iluminação e texto em torno de uma unidade, um
conceito, uma idéia central.
Ele vem para o Brasil em dezembro de 1946 como diretor da companhia de
Diana Torrieri, que segue em turnê para Buenos Aires, enquanto ele permanece no País.
Faz muito sucesso em sua primeira direção, no Rio, da peça Estrada de Tobaco, que
estréia no Teatro Fênix, em 1947 com Itália Fausta no elenco. A partir daí, dirige
vários dos nossos grandes mattatori. Dirige Procópio Ferreira em três
peças, entre elas Lady Godiva, de Guilherme Figueiredo. Em debates e aulas, sempre
apontou o fortalecimento da dramaturgia nacional como fator essencial no desenvolvimento
do teatro.
Berenice acompanha passo a passo e com farta documentação, além de
depoimentos, a carreira desse diretor que viveu no Brasil dos 26 aos 40 anos e dirigiu
cerca de 50 espetáculos em companhias como o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), o
Teatro Íntimo de Nicette Bruno, a Companhia Nydia Lícia-Sérgio Cardoso e o Teatro dos
Doze.
A pesquisadora reserva um capítulo especial para a direção de Jacobbi
no espetáculo O Mentiroso, de Goldoni, que marca a um só tempo a sua estréia e a do
ator Sérgio Cardoso no TBC, espetáculo que influenciou definitivamente a carreira de
Antunes Filho, como ele declara à pesquisadora. Jacobbi foi o responsável pela
introdução da linguagem da Commedia dellArte no País. Em outro capítulo, analisa
em profundidade o processo de criação de A Ronda dos Malandros, espetáculo baseado no
Ópera dos Mendigos, de John Gay, cujo resultado irritou o empresário Franco Zampari,
dono do teatro, e provocou o pedido de demissão de Jacobbi do TBC.
Além de seguir os passos do diretor em várias cidades do País, do
tradutor, do intelectual, Berenice ainda acompanha seu trabalho como diretor na volta à
Itália, entre 1960 e 1981, ano de sua morte. Uma pesquisa de fôlego, à altura, que faz
jus à trajetória intelectual e artística de Jacobbi. (© O Estado de S. Paulo)