Mario Monicelli, o veterano diretor italiano, foi
homenageado recentemente pelo Festival de Locarno. Em honra do cineasta, houve uma
projeção pública daquele que é o seu filme mais famoso, O Incrível Exército de
Brancaleone que, por coincidência, está saindo em DVD no Brasil pela Flashstar.
Monicelli é uma força da natureza. Está com 87 anos e mais lúcido do
que nunca. Em entrevista à imprensa revelou muita coisa desconhecida sobre os bastidores
de Brancaleone, um desses filmes tão redondos e perfeitos que parecem nunca ter se
afastado de um rigoroso plano inicial. Engano.
Monicelli diz que a linguagem do filme se inventava na hora, dia a dia,
segundo a inspiração do momento. Foi assim que surgiu a idéia de utilizar um italiano
que imitasse o máximo possível o latim vulgar da Idade Média, uma sacada atribuída a
Dario Fo.
Aliás, Fo era o preferido para interpretar um nobre bizantino, papel que
acabou ficando com Gian Maria Volonté por imposição do produtor Mario Cecchi Gori. Fato
raro entre realizadores, Monicelli reconhece seu erro inicial de avaliação, pois o
desempenho de Volonté parece hoje insuperável: "Uma das vantagens da velhice é que
hoje posso reconhecer honestamente meus erros com um sorriso", afirmou à agência
Ansa.
Homem de grande criatividade, poeta satírico das telas (veja-se por
exemplo, seu Parente É Serpente), Monicelli confessa-se incapaz de ironizar a política
do seu país: "Na Itália, a realidade supera todos os dias a fantasia, vivemos num
mundo absurdo e o ritmo de vida é tão frernético que se escrevemos hoje uma trama,
amanhã já a achamos superada." O comentário serve direitinho para o Brasil, país
tão semelhante à Itália em alguns aspectos e onde também o humorismo fugiu das mãos
dos profissionais, conforme, salvo engano, frase de Millôr Fernandes.
Monicelli continua em plena atividade. Acaba de voltar do Oriente Médio,
onde em companhia de outros dez diretores (entre os quais Ettore Scola), filmou uma série
de pequenos episódios ambientados nos territórios ocupados e em Israel. Enquanto o filme
não é montado, ele se ocupa de um novo roteiro, que está fazendo com sua amiga Suso
Cecchi d'Amico, escritora de algumas das obras-primas de Luchino Visconti. A idéia da
dupla é um filme sobre os imigrantes que começam a mudar a face da composição social
italiana. "E dos quais não sabemos nada, quem são, como vivem, o que pensam",
espanta-se o diretor.