O modelo
italiano, baseado na pequena e média empresa, é a inspiração de ambos os candidatos à
presidência da República para dar o grande salto e ampliar a base exportadora do País.
Tanto José Serra como Luiz Inácio Lula da Silva procuraram, nos últimos meses,
representantes do governo italiano para saber mais sobre a fórmula que fez com que as
pequenas e médias empresas chegassem ao topo. No ano passado, as pequenas e médias
empresas italianas responderam por mais de 55% das exportações de 268,7 bilhões. No
Brasil, a proporção é exatamente inversa: 55,5% do total de US$ 58,2 bilhões
exportados em 2001 ficaram concentrados em 101 companhias.
"O Brasil não precisa de grandes multinacionais para ampliar as
exportações. O País precisa desenvolver a pequena e média empresa, como a Itália
fez", recomenda o diretor-superintendente para o Brasil do Instituto Italiano para o
Comércio Exterior (ICE) do Ministério das Atividades Produtivas (MPA), Andrea Ambra.
Ele, que se reuniu com os dois candidatos, acredita que a receita de seu país é
perfeitamente aplicável à situação brasileira.
O embrião do modelo da pequena e média empresa agrupada em distritos
industriais nasceu em um cenário semelhante ao do Brasil nos últimos anos, ressalta
Ambra. Com a abertura da economia italiana no pós-guerra, as empresas que tinham o
monopólio se viram obrigadas a ser mais competitivas.
Por isso, enxugaram custos e passaram a terceirizar parte das linhas com
ex-funcionários, numa produção quase que de "fundo de quintal", compara o
diretor do ICE. O resultado aparece décadas depois. Hoje, por exemplo, são mais de 200
distritos industriais espalhados pela Itália, especializados na fabricação de itens
específicos, como calçados, óculos, móveis, produtos metalúrgicos, entre tantos
outros. Empresas pequenas e médias instaladas nesses distritos especializados alcançam
tamanha eficiência produtiva que, juntas, conseguem abocanhar cotas do comércio mundial
comparáveis ou até superiores às de grandes grupos multinacionais das indústrias
automobilística, química e eletroeletrônica. Os distritos Emiliano, de cerâmicas, e de
Castel Goffredo, de meias femininas, por exemplo, controlam cerca 40% das exportações
mundiais de seus respectivos setores, relata o professor da Universidade Católica de
Milão, Marco Fortis.
Além da especialização da produção e do consórcio iniciado nos anos
70 para racionalizar custos de exportação, Ambra destaca o papel fundamental do Estado
para ampliar o comércio exterior. A estratégia do governo italiano, além da redução
de impostos, se baseia no tripé formado por estes organismos: o ICE, responsável pela
promoção comercial; o Sace, espécie de seguradora e financiadora das exportações; e a
Simest, sociedade controlada pelo Ministério de Comércio Exterior que financia as
empresas interessadas em fincar bandeiras em outros países.
"As companhias italianas estão agora num segundo estágio. Depois de
centrar esforços na exportação, elas estão partindo para a
internacionalização", diz Ambra. A Italsofa Bahia, que acaba de completar o prmeiro
ano de funcionamento em Simões Filho, região metropolitana de Salvador, é um exemplo de
empresa italiana que decidiu abrir a primeira unidade no exterior e escolheu o Brasil,
após conquistar o mercado internacional. Filial da Industrie Natuzzi, fundada em 1959, em
Bari, pelo tapeceiro Pasquale Natuzzi para a produzir sofás destinados ao mercado local,
hoje é a empresa líder mundial na fabricação de sofás de couro.
O diretor da Italsofa, Fernando Riga Vitale, conta que a companhia
investiu R$ 25 milhões na fábrica baiana para produzir 750 assentos por dia. Toda a
produção é exportada para os EUA, onde a marca detém 30% do mercado. Ele diz que a
decisão de instalar a filial no Brasil foi motivada porque o País está a meio caminho
da Europa e dos EUA, além de ficar próximo da fonte da matéria-prima, o couro.