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A ameaça ruiva para Berlusconi

03/11/2002

 

 

Araújo Neto
Correspondente

   ROMA. Juíza desde 1977 em Milão, cidade que é um grande feudo eleitoral do primeiro-ministro Silvio Berlusconi, Ilda Boccassini viveu nos últimos dez anos como um soldado na trincheira. Sempre à espera de um ataque da Máfia ou dos muitos inimigos que colecionou no combate à corrupção política, principalmente aquela praticada pelos correligionários e amigos de Berlusconi.

   A campanha que ela defende tornou-se ainda mais ameaçada no mês passado, quando concluiu seis anos de investigações nacionais e internacionais formulando uma acusação gravíssima contra Berlusconi e o seu ex-ministro da Defesa, Cesare Previti. Ambos foram acusados de corromper três importantes magistrados de Roma, que teriam sido subornados, segundo o inquérito da juíza Boccassini, para mudar, a favor do grupo Berlusconi, o resultado da concorrência para a aquisição do maior pacote acionário da principal editora italiana, a Mondadori.

   Berlusconi pagou, segundo as provas apresentadas no processo, US$ 30 milhões aos juízes que ajustaram a nova sentença a seu favor. Tudo isso foi feito por meio de uma operação triangular, iniciada com o suborno da família Rovelli, ex-maior acionista da Mondadori, e concluída com a compra dos juízes romanos Vittorio Metta, Filippo Verde e Renato Squillante.

   A ruiva Ilda Boccassini, de 53 anos, nascida em Nápoles, iniciou sua carreira em Milão e tornou-se uma das mais eficientes colaboradoras do juiz Giovanni Falcone, vítima de um bárbaro atentado mafioso (explodiram seu carro na auto-estrada para o aeroporto de Palermo em 1992). Ela é a última sobrevivente do famoso pool de magistrados de Milão que realizou a mais corajosa e eficaz operação contra a corrupção política e administrativa na Itália, a Operação Mãos Limpas.

   A essa magistrada a grande imprensa italiana recomeçou a dedicar uma atenção especial, que lhe valeu uma reportagem de capa da revista “L’Espresso” da semana passada com o título “Ilda contro tutti” (Ilda contra todos). Dois dos mais conhecidos jornais europeus, o francês “L’Express” e o inglês “The Times”, há alguns meses já a tinham apontado como a única italiana que deveria figurar no elenco das cem mulheres mais importantes do mundo.

   Em outro país, Ilda Boccassini seria comemorada, discutida, criticada ou aplaudida só pela atuação como magistrada engajada em batalhas vitoriosas contra o tráfico de drogas, a Máfia, a corrupção política. Na Itália, na falta de uma oposição mais combativa, Ilda se vê transformada em heroína e na última esperança de um grande número de italianos que deseja eleger no seu país, em 2006, um governo inteiramente diferente do atual.

   A juíza número um da Itália tem um grande número de inimigos. Os dois principais jornais de Berlusconi, “La Padania” e “Il Giornale”, publicam diariamente artigos ofensivos, cheios de ameaças e intimidações contra ela. Entre os insistentes e furiosos ataques lançados por jornais e televisões berlusconistas, os mais duros têm sido os desfechados pelo “La Padania”, órgão oficial da Liga Norte, um dos três principais partidos da coalizão governamental. “É preciso segurar Ilda, a Vermelha”, dizia uma manchete de 17 de outubro.

   Contra o trabalho investigativo de Ilda, o Parlamento aprovou uma lei que permitirá a qualquer réu, particularmente ao réu Silvio Berlusconi, impugnar juízes e tribunais considerados hostis ou suspeitos de hostilidade contra ele. Lei que continua sendo contestada asperamente por juristas e constitucionalistas de todas as tendências na Itália.

   Já condenada à morte pela cúpula mafiosa, Ilda não pode contar com nenhuma proteção da polícia: sua escolta foi cancelada por decisão do Ministério da Justiça. O paradoxo é que a única garantia de vida que a juíza tem é a incrível concentração de poder nas mãos do seu principal réu. Qualquer atentado contra Ilda, o nome de Berlusconi acabaria fatalmente envolvido, pelo menos perante a opinião pública.

(© O Globo On line)


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