>Imagine uma
composição erudita italiana do século 18 que nunca tenha sido executada. Seu autor não
é dos mais famosos mas é considerado por estudiosos como expoente da escola de música
napolitana: entre seus alunos está o reconhecido Giovanni Pergolesi. A partitura desta
obra perdida é encontrada num sebo da Alemanha em 1957 por um engenheiro de som que a
traz para o Brasil com a esperança de executá-la, mas só consegue levá-la ao palco 45
anos depois. Não é ficção. A Missa de Réquiem do italiano Francesco Durante
terá aquela que, segundo seu regente, é sua primeira execução em 300 anos.
A história narrada acima em tom de aventura foi vivida pelo engenheiro de
som alemão Otto Drechsler. Ele estudava musicologia na Universidade de Göttingan no ano
de 1957, a uma hora e meia de distância da cidade onde morava, Hannover. Um dia, como o
trem que o levaria de volta demorava a sair, ele resolveu vasculhar sebos e antiquários
de Göttingan. Viu a partitura do réquiem de Durante e arriscou perguntar o preço.
Perguntei com cara feia quanto iriam cobrar. Eles não sabiam do que se tratava e me
cobraram, como se diz, um abacaxi. Se eu convidasse duas pessoas para almoçar hoje
pagaria mais do que paguei pela partitura.
Assim Otto Drechsler se tornou proprietário de cerca de 70 folhas
manuscritas, em ótimo estado, em que o compositor barroco italiano Francesco Durante
copiou sua Missa de Réquiem. Não se conhecem outras cópias, embora Drechsler
desconfie que uma biblioteca em Paris deva ter uma. E agora, 45 anos depois de tê-la
encontrado, ele verá a missa fúnebre de Durante tocada em Belo Horizonte, num evento que
tem tudo para ganhar repercussão internacional.
A iniciativa foi da Associação Cultural Ítalo-Brasileira de Minas
Gerais. A entidade fez a ponte entre o coral Ars Nova e a produtora Tatyana Rubim, que tem
experiência em música erudita pois produziu La Serva Padrona, de Pergolesi, e
ajudou Carla Camurati a transformá-la em filme. Tatyana sabia da partitura de Durante,
já que Otto Drechsler havia gravado o réquiem em CD na Alemanha há dois anos, com o
coral Ars Nova da Universidade Federal de Minas Gerais. Estava aberto o caminho para a
tão tardia primeira execução pública da Missa Réquem de Durante.
Francesco Durante (1684-1755) é uma referência da música barroca
italiana. O fato de não ser tão conhecido como Antonio Vivaldi ou como Giovanni
Pergolesi, que foi seu aluno, explica-se por uma opção do músico: não escrever
óperas. Na Itália do século 18, a ópera era o meio de um compositor se popularizar.
Francesco Durante remou contra a maré e, católico, só escreveu música sacra. Mas o
maestro Carlos Alberto Pinto Fonseca, que vai reger o Coral Ars Nova na apresentação de
terça, não economiza elogios: Ele colocou no réquiem o dramatismo da ópera
italiana. É uma obra-prima.
Durante morreu aos 71 anos, tendo deixado missas, motetos, cantatas,
salmos, ofertórios e réquiens. Sobre a Missa de Réquiem, Carlos Alberto Pinto
Fonseca esclarece que é uma peça para coral. O réquiem tem dois coros, sendo que
o segundo é só de vozes graves. Isso dá um colorido mais escuro à música. Durante
inaugura um estilo em que dois sopranos se entrelaçam, o que não impede que a obra seja
polifônica, ou seja, que todas as vozes sejam portadoras do conteúdo musical.
O fato é que a apresentação única da Missa de Réquiem na
terça-feira vai repercutir nos centros mundiais da música erudita. O embaixador da
Itália é presença confirmada no Teatro Sesiminas. Também devem ir representantes de
vários importantes teatros italianos, como o Scala de Milão, o San Carlo de Nápoles e o
Alla Venice de Veneza, todos convidados pela Fiat, que apóia a produção. Motivos não
faltarão. O maior deles é o ineditismo que a produção alardeia. Sobre isso, Otto
Drechsler relativiza: não há provas de que no século 19, por exemplo, o réquiem
de Durante não tenha sido executado. No século 20 não foi, e isso já é uma grande
coisa.
A procura já começou. Dos 684 lugares do teatro, apenas 100 foram postos
à disposição do público, gratuitamente, e acabaram em dez minutos, de acordo com a
produção. O resto foi para convidados e autoridades. O pouco dinheiro arrecadado para
montar a Missa de Réquiem de Durante é a principal causa de não haver mais
apresentações. Nada mais do que R$ 45 mil devem ser cosumidos no projeto, até os
aplausos tomarem o teatro. Talvez com a exposição da partitura manuscrita de Francesco
Durante no teatro na noite de terça, e com 400 exemplares do CD gravado na Alemanha por
Otto Drechsler à venda, alguém se anime a patrocinar mais apresentações da Missa de
Réquiem.
Missa de Réquiem - De Francesco Durante. 55 minutos. Dia 5 de
novembro, no Teatro Sesiminas: Rua Padre Marinho, 60, Funcionários. 21h. Lotação
esgotada. Fausto Oliveira