ROMA - A indignação contra o Estado
italiano, acusado de negligência e burocracia, aumenta em todas as
esferas da sociedade depois da tragédia em San Giuliano di Puglia - o
desabamento de uma escola, causado pelo tremor de quinta-feira passada.
Vinte e nove pessoas morreram, entre elas 26 crianças.
"Fala-se há 20 anos de prevenção, mas não se faz nada",
afirmou o presidente do Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia, Enzo Boschi, em
entrevista publicada pelo jornal Il Corriere della Sera.
"Nem o governo, nem o Estado, nem as províncias nem as prefeituras
fizeram alguma coisa", lamenta-se Boschi.
Segundo ele, desde 1998 o mapa das regiões de risco pelos tremores foi
atualizado por cientistas com a ajuda dos cada vez mais sofisticados instrumentos
medidores de sismos.
No entanto, as autoridades nada quiseram ver, desconhecendo o mapeamento.
Por isso, San Giuliano di Puglia não estava entre aquelas cidades consideradas de risco
sísmico, que são obrigadas a cumprir requisitos específicos relacionados à
construção e à reforma de imóveis.
"É preciso agir, investir, transferir poderes às autoridades
territoriais", afirmou Boschi que, como muitos italianos, pedem severidade, seriedade
e transparência para fazer cumprir as normas vigentes.
A situação da escola de San Giuliano não era excepcional. Um informe do
ministério da Educação, citado pela imprensa, considera inseguras do ponto de vista
sísmico uma em cada duas escolas do país.
O governo comprometeu-se nesta segunda-feira na Câmara dos Deputados
reconstruir em dois anos a localidade afetada pelo forte terremoto.
"O presidente do Conselho (Silvio Berlusconi) assegurou que em 24
meses San Giuliano e os outros lugares afetados voltarão a ser completamente
habitáveis", declarou o ministro do Interior, Giuseppe Pisanu.
Segundo o Instituto Geofísico, cerca de 66% dos italianos vivem em zonas
de risco sísmico.
Em 1997, um tremor abalou a cidade de Foligno, na Umbria (centro),
deixando mais de oito mil pessoas desabrigadas, muitas delas ainda vivendo em casas
pré-fabricadas. Em 1980, o terremoto de Irpina, ao sul da península, causou 3.000 mortos
e 300.000 desabrigados, afetando gravemente a cidade de Nápoles.
Pisanu anunciou a abertura de uma investigação para "verificar se
os processos administrativos foram executados corretamente e determinar as razões do
desabamento do prédio".
Construída nos anos 50, a escola pública de San Giuliano foi reformada
ano passado, para o acréscimento de um novo andar - o que desabou.
Segundo os funcionários da empreiteira encarregada, as obras foram feitas
obedecendo-se às normas em vigor, mas não foram levados em conta os requisitos sobre a
estabilidade sísmica. Entre as crianças mortas, está a filha de 7 anos do prefeito,
Antonio Borelli. (AFP)
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UAI Estado de Minas)