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Gôndolas pairam sobre o Grande Canal em Veneza

11/11/2002

As gôndolas diante do Grande Canal   Fotos Silvio Cioffi/Folha Imagem

 

É quase impossível pensar Veneza sem essas embarcações históricas, mas os passeios têm preços extorsivos

SILVIO CIOFFI
ENVIADO ESPECIAL AO MEDITERRÂNEO

   Transformadas em atração turística, as gôndolas são embarcações tão ligadas ao dia-a-dia de Veneza que chega a ser inimaginável pensar a cidade -que recebe 12 milhões de visitantes estrangeiros anualmente- sem elas.

   Os passeios são caros, em torno de 60 por 45 minutos, o que cobre uma pequena distância, e só venezianos recém-casados ou casais de turistas endinheirados se dão ao luxo de pôr os pés nelas.

   Há quem diga que, para admirar os prédios históricos, convém cruzar os canais numa gôndola, mas os preços são tão proibitivos que a utilização dos barcos que fazem transporte público ("vaporettos") acaba sendo a solução. A linha mais interessante é a 1, que percorre todo o Grande Canal, da Piazzale Roma à praça San Marco, de onde se dirige para o Lido.

Navegar

   Hoje dá para descobrir segredos de Veneza até navegando pela internet (www.turismovenezia.it), mas nada substitui o prazer de vivenciar eventos como a Regata Storica, que ocorre no primeiro domingo de setembro e reúne gôndolas clássicas em meio a uma multidão de turistas.

   Desde pelo menos 1490, as gôndolas guardam as formas atuais. Capaz de singrar canais estreitos e pouco profundos, esse meio de transporte foi inspirado em barcos turcos milenares, tem formas alongadas, extremidades repuxadas para cima e fundo plano. Sua dirigibilidade também facilita o acesso nas entradas recônditas dos palácios do Grande Canal.

   O pintor Canaletto registrou a gôndola em pé de igualdade com monumentos, e seu quadro "Bacino di San Marco" (1738) mostra a intensa labuta dos gondoleiros.

   Elegantes, essas embarcações são semelhantes às encontradas em Malta ou nas ilhas Maldivas, onde a influência árabe também é notável. Mas, parafraseando a poeta norte-americana Gertrude Stein, "uma gôndola é uma gôndola, é uma gôndola": nenhuma embarcação paira sobre a água com a mesma leveza ou é conduzida da maneira dos gondoleiros, que agitam o remo -encaixado numa ferragem- em duas direções e, ao remar, ficam de pé sobre a popa.

   Cinco locais ("cantieri") constroem e reparam gôndolas e o mais antigo é o Squero de San Trovaso. Cada parte do barco é construída com um tipo de madeira (são usados o carvalho, a cerejeira e a nogueira).

   Resistente, prática, elegante e até poética, a gôndola tem modelos para funerais, casamentos, regatas e até para pescar.

   Modernamente, quando não pegam um "vaporetto", os venezianos usam um táxi-lancha, o "motoscafo", que custa quase tão caro quanto a gôndola (o trajeto aeroporto-San Marco custa 80).

   Mas Veneza, em meio à laguna, foi realmente feita para caminhar -e lá, todos os caminhos partem da praça San Marco, cujo conjunto de prédios, que têm origem nos séculos 12 e 13, funde estilos (bizantino, românico, barroco, gótico veneziano e renascentista) e ainda hoje é festejado por figuras como o arquiteto Oscar Niemeyer .

(© Folha de S. Paulo)


Para o arquiteto Oscar Niemeyer, o palácio Ducal, erguido na praça, antecipa a arquitetura moderna

Todos os caminhos levam a San Marco

DO ENVIADO ESPECIAL AO MEDITERRÂNEO

   Oscar Niemeyer diz que, ao projetar em Veneza o palácio dos Doges, o arquiteto Felipe Calendario legou ao mundo uma obra tão inovadora que antecipa, já em 1309, quando recebeu o aspecto atual, a arquitetura moderna.

   Niemeyer revolucionou a arquitetura no século 20, mas acha o palácio Ducal inovador, "com a estrutura cheia de arcos e curvas, o contraste da fachada quase cega e, no interior, o grande salão sem colunas e o vão enorme".

   Construído e reconstruído até 1577 para ser o marco do poder dos doges, o palácio Ducal, na esquina da Piazzetta com o Grande Canal, é figura de proa do conjunto que encerra a praça San Marco -e se impõe pelo arrojo e pela leveza. Concluído no Renascimento, o palácio segue, para Niemeyer, os princípios que nortearam a arquitetura moderna, pois teria "o mesmo amor pela curva, pela liberdade plástica".

   Diz o ditado que todos os caminhos levam a Roma, mas a informação não vale para Veneza, onde todos os passeios partem da praça San Marco, singular na mistura de estilos, centro do poder político e religioso no tempo da República Sereníssima. Nesse contexto, o entorno da ponte do Rialto era o centro comercial -lá ainda hoje funcionam o mercado de frutas e legumes e, atravessando o Grande Canal, o mercado de peixe, chamado de Pescaria.

Origem

   Única, edificada praticamente sobre as águas, Veneza remonta ao ano 450, tendo sido integrada ao Império Bizantino no século 6º. A cidade, que tem 150 canais e perto de 400 pontes, começou a ser construída no século 7º, quando os vênetos ali se refugiaram.

   A base das edificações foi um estaqueamento das 117 ilhotas alagadiças com toras de madeira embebidas em óleo de baleia. Hoje, técnicas de infiltrar concreto no subsolo impedem que Veneza continue a afundar.

   Nesse cenário, hordas de turistas disputam o espaço da Piazzetta e da praça San Marco, admirando o palácio Ducal e, mais ao fundo, a imensa basílica que o poeta Stendhal dizia ser "a primeira mesquita que se encontra andando na direção do Oriente".

   O conjunto compreende ainda a torre do Campanário (99 m), a praça propriamente dita e a torre do Relógio. Sob esta última construção, uma porta leva à ponte do Rialto, a mais célebre, e a outros locais como San Polo e Cannaregio, próximo ao Ghetto, local onde foram morar os judeus que, fugindo da Inquisição na península Ibérica, lá se instalaram. (SILVIO CIOFFI)

(© Folha de S. Paulo)

 


Venezianos só se deslocam a pé ou de barco

WILLIAM MARIOTTO
DA REDAÇÃO

   Chegar a Veneza é como entrar em outro mundo. O fato de os deslocamentos só poderem ser feitos a pé ou de barco é notável, mas o mais incrível é como os venezianos construíram uma cidade tão magnífica sobre um arquipélago de ilhotas lodosas.

   Os habitantes às vezes nem se dão conta de que vivem em um monumento histórico. Por exemplo, se o veneziano precisa ir ao correio, vai ao Fondaco dei Turchi, palácio do século 13 que foi entreposto de comércio com o império otomano. A feira do Rialto, coração comercial da cidade, vende, desde o século 11, frutas, verduras, peixes e frutos do mar trazidos do Adriático por barcaças - os caminhões de Veneza.

   Os "vaporettos" são usados apenas para ir a pontos distantes da cidade ou às ilhas -Murano, Burano, Torcello e dezenas de outras. Na maioria das vezes se anda a pé mesmo. É um sobe-e-desce de pontes constante (repare como os velhinhos são bem dispostos). Velozes "lanchas-ambulâncias" levam os doentes ao hospital central, um suntuoso palácio do século 15, bem em frente ao monumento ao guerreiro Bartolomeo Coleoni, de Andrea Verrochio, considerada a mais bela estátua equestre do Ocidente.

   Os deslocamentos a pé favorecem o convívio. É difícil o veneziano ir a algum lugar sem encontrar um conhecido que o convide para tomar um café ou uma "ombra", copo de vinho branco. Se estiver com fome, peça um "tramezzino", sanduíche frio com recheio de atum, caranguejo ou camarão.

   Não tenha medo de se perder nos labirintos da cidade. Sempre há indicações "per San Marco", "per Rialto" e "alla Ferrovia". Se mesmo assim você não se achar, fale com um habitante, sempre disposto a dar orientações.

   No verão, faça um programa de veneziano: vá à praia. Pegue a linha 1 ou 6 do "vaporetto" para o Lido, uma faixa de terra que fecha a baía vêneta e conserva o ar aristocrático dos tempos em que era um dos balneários mais exclusivos da Europa. Ali fica o palácio do Cinema, palco do célebre festival.

   No caminho de volta, o turista ganha a linda vista da cidade iluminada pelo sol de fim de tarde. À noite o campo Santa Margherita, perto da Universidade Ca'Foscari, ferve de jovens em bares com mesas ao ar livre.

   No inverno há nevascas e a cidade frequentemente é envolvida por uma forte neblina, que a deixa ainda mais surreal. Também ocorre a "acqua alta", um terror para os venezianos, que vêem a água do mar subir pelos ralos e inundar suas casas.

   Como Veneza tem ruas estreitas e casas altas, no inverno o sol penetra pouco nas ruas. Procure o calor das praças ou passeie na Fondamenta delle Zattere, em frente ao canal da Giudecca, onde o sol bate o ano todo.

(© Folha de S. Paulo)


Mestres como Veronese fizeram trabalhos grandiosos, que se contrapõem às obras de cavalete de Canaletto

Pintores deixaram obra "monumentalista"

DO ENVIADO ESPECIAL AO MEDITERRÂNEO

   Alcunhado Canaletto, Antonio Canal (1696-1768), possivelmente o mais notável dos pintores que registraram a paisagem de Veneza, não teve sua obra aceita na Accademia di Belle Arte até 1763.

   Estabelecida em 1750 -convém lembrar que a cidade foi uma República, a Sereníssima, até 1797-, a academia veneziana não valorizava a pintura que se referia à cidade fazendo uma crônica pictórica -e que também tem expoente no pintor Francesco Guardi (1712-1793) e em mestres menores, como Michele Marieschi e Bernardo Bellotto.

   Pintores como Tintoretto (nome de pincel de Jacopo Robusti, 1512?-1594) e Veronese (apelido de Paolo Caliari, 1528-1588) e, sobretudo, Giambattista Tiepolo (1696-1770), sim, eram considerados grandes artistas.

   A escola "monumentalista" a que se filiavam, no entanto, teve impulso com a obra de Ticiano Vecelli, que morreu em 1576, tendo exercido em Veneza uma espécie de regência artística.
Expressão à moda veneziana de um ideal de harmonia e de sensibilidade, Ticiano deu à arte local um caráter epicurista, poético, sereno, profundamente humano.

   Relativamente jovem quando comparada às outras escolas de pintura italianas, a de Veneza ignorou como pôde o maneirismo e produziu pinturas imensas para os palácios e as igrejas locais.

   Veronese -que era originalmente de Verona- pintou o forro do palácio Ducal. Já Tiepolo, seu admirador, tentou abandonar um certo academicismo e se deixou influenciar pelo estilo rococó, pintando grandiosas alegorias sagradas e profanas.

Canal

   Mesmo admitindo que a pintura de Canaletto não alça vôo nem chega aos céus como a de Tiepolo (autor de "Glorificação da Cruz"), é impossível não se sensibilizar com seus quadros que retratam a cidade -e com seus "capricci", que a reinventam.

   Nascido em Veneza, próximo ao Rialto, Antonio Canal esteve apenas em Roma e em Londres.
Em Roma, sofreu a influência dos paisagistas Gian Paolo Panini e Gaspar van Wittel. Mas foi o financista Joseph Smith, depois embaixador britânico em Veneza, que abriu as portas para que Canaletto alcançasse a condição de mestre e fosse, finalmente, aceito na Accademia, cinco anos antes de morrer. (SILVIO CIOFFI)

(© Folha de S. Paulo)


COMER, BEBER, VIVER
DO ENVIADO AO MEDITERRÂNEO

   Construída nas lagunas do Adriático, que ali forma um golfo, Veneza edificou a fama de reduto de artistas e artesãos, de entreposto comercial do Oriente no Ocidente e, também, de paraíso gastronômico.

   Lá, há lugares onde a extravagância à mesa vale a pena: o Harry's Bar, atrás da praça San Marco, onde foram inventados o drinque bellini e o carpaccio; o terraço do hotel Bauer (www.bauervenezia.com), no campo San Moisé; e o restaurante do hotel Luna Baglioni (www.baglionihotels.com), na San Marco, 1.243.

   Mas a cidade tem lugares populares arrebatadores, como o Da Pinto, uma "osteria" fundada em 1890 ao lado da Pescaria (S. Polo, Rialto Pescheria, 367), onde, por 20, é possível comer entrada (prove o bacallá mantecato), massa (que tal o espaguete alla pescatora?), sobremesa e um copo de vinho.

   Outra dica é ir atrás dos locais frequentados pelos gondoleiros, como a Trattoria da Giggio, no campo de S. Leonardo, 1.594, onde o peixe-espada defumado e a pasta al nero de sepia (com tinta de lula) podem ser desfrutados com um vinho Müller Turgal, branco e frutado, do Vêneto. (SILVIO CIOFFI)

(© Folha de S. Paulo)


ROUBADA

   - Sentar num dos célebres cafés com música ao vivo na praça San Marco pode custar caro. Frequentados por escritores como Byron e Proust, o Caffè Florian e o Gran Caffè Chioggia cobram 7,50 por um expresso.

GELADO

   - Na praça San Marco, 10, na Piazzetta e diante do Grande Canal, o bar Al Todaro serve sorvetes, café e digestivos a preços normais. Neste mês, o local fecha por volta das 22h; no verão, dá para encostar no balcão até a 1h.

BURANO

   - Na ilha de Burano, dos famosos (e caros) bordados, existe um restaurante frequentado quase que só por venezianos. A Trattoria Al Gato Nero (tel. local 041-730120) se destaca pelos frutos do mar frescos e pelo peixe assado.


Para mestre da família Seguso, profissional mais velho trabalha melhor, pois pequenos movimentos "fazem a diferença"

Ilha de Murano produz cristal há 700 anos

DO ENVIADO ESPECIAL AO MEDITERRÂNEO

   "Não fazemos pirex", diz Gianni Seguso, 55. Seu ofício, na ilha de Murano, a 5 km de Veneza, é o de "mestre vetraio" e, para ele, "quanto mais velho é o profissional que trabalha o vidro, melhor, pois os pequenos movimentos é que fazem a diferença".

   Ele começou a trabalhar com vidro aos 11 anos, como aprendiz do pai, Guido, integrante da décima geração da família encarregada do negócio (www.seguso.it). "Os Seguso fazem cristal desde 1340, ano em que receberam dos doges o direito de explorar a atividade", afirma, vestido com macacão de mangas e calça curta, num dos raros momentos em que deixa a frente do forno.
Sob seu comando, 20 outros artesãos dão forma ao cristal, que derrete a 1.400C para, a seguir, ser girado e assoprado na ponta de um tubo oco de aço.

   Se não houvesse razões para acreditar no atavismo do nome Seguso -sinônimo de cristal de Murano, como também é o nome Venini, cujas coleções podem ser vistas no site www.vetroartisti co.it-, bastaria admirar a complexidade das peças que saem do forno da sua fábrica para se render à delicadeza do trabalho.

   Cada bolota de vidro derretida é assoprada, o vidro é martelado ou torcido com ferramentas de metal a uma temperatura de 1.000C enquanto esfria -e, aos poucos, vão surgindo luminárias, castiçais e vasos multicoloridos.

   Alimentado com gás metano, o forno fica ligado 24 horas por dia. O processo rejeita o uso de fôrmas -e os artesãos perseguem a leveza, pois o verdadeiro vidro de Murano, assoprado, é leve, delicado e encanta pelas cores.

   "Vidro é areia", diz Seguso, que usa areia de Fontainebleau (França). "Já o segredo das cores está na adição de óxidos de minerais ao vidro incandescente: óxido de ouro resulta em vidro da cor do rubi; o azul-escuro leva óxido de cobalto; já o titânio faz o cristal cinza", diz. Sua fábrica, a Vetreria Artigiana Seguso, não é aberta à visitação e não vende peças para o público. (SILVIO CIOFFI)

(© Folha de S. Paulo)


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