É quase impossível pensar Veneza sem essas
embarcações históricas, mas os passeios têm preços extorsivos
SILVIO CIOFFI
ENVIADO ESPECIAL AO MEDITERRÂNEO
Transformadas em atração turística, as gôndolas
são embarcações tão ligadas ao dia-a-dia de Veneza que chega a ser inimaginável
pensar a cidade -que recebe 12 milhões de visitantes estrangeiros anualmente- sem elas.
Os passeios são caros, em torno de 60 por 45 minutos,
o que cobre uma pequena distância, e só venezianos recém-casados ou casais de turistas
endinheirados se dão ao luxo de pôr os pés nelas.
Há quem diga que, para admirar os prédios
históricos, convém cruzar os canais numa gôndola, mas os preços são tão proibitivos
que a utilização dos barcos que fazem transporte público ("vaporettos") acaba
sendo a solução. A linha mais interessante é a 1, que percorre todo o Grande Canal, da
Piazzale Roma à praça San Marco, de onde se dirige para o Lido.
Navegar
Hoje dá para descobrir segredos de Veneza até
navegando pela internet (www.turismovenezia.it),
mas nada substitui o prazer de vivenciar eventos como a Regata Storica, que ocorre no
primeiro domingo de setembro e reúne gôndolas clássicas em meio a uma multidão de
turistas.
Desde pelo menos 1490, as gôndolas guardam as formas
atuais. Capaz de singrar canais estreitos e pouco profundos, esse meio de transporte foi
inspirado em barcos turcos milenares, tem formas alongadas, extremidades repuxadas para
cima e fundo plano. Sua dirigibilidade também facilita o acesso nas entradas recônditas
dos palácios do Grande Canal.
O pintor Canaletto registrou a gôndola em pé de
igualdade com monumentos, e seu quadro "Bacino di San Marco" (1738) mostra a
intensa labuta dos gondoleiros.
Elegantes, essas embarcações são semelhantes às
encontradas em Malta ou nas ilhas Maldivas, onde a influência árabe também é notável.
Mas, parafraseando a poeta norte-americana Gertrude Stein, "uma gôndola é uma
gôndola, é uma gôndola": nenhuma embarcação paira sobre a água com a mesma
leveza ou é conduzida da maneira dos gondoleiros, que agitam o remo -encaixado numa
ferragem- em duas direções e, ao remar, ficam de pé sobre a popa.
Cinco locais ("cantieri") constroem e reparam
gôndolas e o mais antigo é o Squero de San Trovaso. Cada parte do barco é construída
com um tipo de madeira (são usados o carvalho, a cerejeira e a nogueira).
Resistente, prática, elegante e até poética, a
gôndola tem modelos para funerais, casamentos, regatas e até para pescar.
Modernamente, quando não pegam um
"vaporetto", os venezianos usam um táxi-lancha, o "motoscafo", que
custa quase tão caro quanto a gôndola (o trajeto aeroporto-San Marco custa 80).
Mas Veneza, em meio à laguna, foi realmente feita para
caminhar -e lá, todos os caminhos partem da praça San Marco, cujo conjunto de prédios,
que têm origem nos séculos 12 e 13, funde estilos (bizantino, românico, barroco,
gótico veneziano e renascentista) e ainda hoje é festejado por figuras como o arquiteto
Oscar Niemeyer .
(© Folha de S. Paulo)
Para o arquiteto Oscar Niemeyer, o palácio Ducal, erguido na
praça, antecipa a arquitetura moderna
Todos os caminhos levam a San Marco
DO ENVIADO ESPECIAL AO MEDITERRÂNEO
Oscar Niemeyer diz que, ao projetar em Veneza o
palácio dos Doges, o arquiteto Felipe Calendario legou ao mundo uma obra tão inovadora
que antecipa, já em 1309, quando recebeu o aspecto atual, a arquitetura moderna.
Niemeyer revolucionou a arquitetura no século 20, mas
acha o palácio Ducal inovador, "com a estrutura cheia de arcos e curvas, o contraste
da fachada quase cega e, no interior, o grande salão sem colunas e o vão enorme".
Construído e reconstruído até 1577 para ser o marco
do poder dos doges, o palácio Ducal, na esquina da Piazzetta com o Grande Canal, é
figura de proa do conjunto que encerra a praça San Marco -e se impõe pelo arrojo e pela
leveza. Concluído no Renascimento, o palácio segue, para Niemeyer, os princípios que
nortearam a arquitetura moderna, pois teria "o mesmo amor pela curva, pela liberdade
plástica".
Diz o ditado que todos os caminhos levam a Roma, mas a
informação não vale para Veneza, onde todos os passeios partem da praça San Marco,
singular na mistura de estilos, centro do poder político e religioso no tempo da
República Sereníssima. Nesse contexto, o entorno da ponte do Rialto era o centro
comercial -lá ainda hoje funcionam o mercado de frutas e legumes e, atravessando o Grande
Canal, o mercado de peixe, chamado de Pescaria.
Origem
Única, edificada praticamente sobre as águas, Veneza
remonta ao ano 450, tendo sido integrada ao Império Bizantino no século 6º. A cidade,
que tem 150 canais e perto de 400 pontes, começou a ser construída no século 7º,
quando os vênetos ali se refugiaram.
A base das edificações foi um estaqueamento das 117
ilhotas alagadiças com toras de madeira embebidas em óleo de baleia. Hoje, técnicas de
infiltrar concreto no subsolo impedem que Veneza continue a afundar.
Nesse cenário, hordas de turistas disputam o espaço
da Piazzetta e da praça San Marco, admirando o palácio Ducal e, mais ao fundo, a imensa
basílica que o poeta Stendhal dizia ser "a primeira mesquita que se encontra andando
na direção do Oriente".
O conjunto compreende ainda a torre do Campanário (99
m), a praça propriamente dita e a torre do Relógio. Sob esta última construção, uma
porta leva à ponte do Rialto, a mais célebre, e a outros locais como San Polo e
Cannaregio, próximo ao Ghetto, local onde foram morar os judeus que, fugindo da
Inquisição na península Ibérica, lá se instalaram. (SILVIO CIOFFI)
(© Folha de S. Paulo)
Venezianos só se deslocam a pé ou de barco
WILLIAM MARIOTTO
DA REDAÇÃO
Chegar a Veneza é como entrar em outro mundo. O fato
de os deslocamentos só poderem ser feitos a pé ou de barco é notável, mas o mais
incrível é como os venezianos construíram uma cidade tão magnífica sobre um
arquipélago de ilhotas lodosas.
Os habitantes às vezes nem se dão conta de que vivem
em um monumento histórico. Por exemplo, se o veneziano precisa ir ao correio, vai ao
Fondaco dei Turchi, palácio do século 13 que foi entreposto de comércio com o império
otomano. A feira do Rialto, coração comercial da cidade, vende, desde o século 11,
frutas, verduras, peixes e frutos do mar trazidos do Adriático por barcaças - os
caminhões de Veneza.
Os "vaporettos" são usados apenas para ir a
pontos distantes da cidade ou às ilhas -Murano, Burano, Torcello e dezenas de outras. Na
maioria das vezes se anda a pé mesmo. É um sobe-e-desce de pontes constante (repare como
os velhinhos são bem dispostos). Velozes "lanchas-ambulâncias" levam os
doentes ao hospital central, um suntuoso palácio do século 15, bem em frente ao
monumento ao guerreiro Bartolomeo Coleoni, de Andrea Verrochio, considerada a mais bela
estátua equestre do Ocidente.
Os deslocamentos a pé favorecem o convívio. É
difícil o veneziano ir a algum lugar sem encontrar um conhecido que o convide para tomar
um café ou uma "ombra", copo de vinho branco. Se estiver com fome, peça um
"tramezzino", sanduíche frio com recheio de atum, caranguejo ou camarão.
Não tenha medo de se perder nos labirintos da cidade.
Sempre há indicações "per San Marco", "per Rialto" e "alla
Ferrovia". Se mesmo assim você não se achar, fale com um habitante, sempre disposto
a dar orientações.
No verão, faça um programa de veneziano: vá à
praia. Pegue a linha 1 ou 6 do "vaporetto" para o Lido, uma faixa de terra que
fecha a baía vêneta e conserva o ar aristocrático dos tempos em que era um dos
balneários mais exclusivos da Europa. Ali fica o palácio do Cinema, palco do célebre
festival.
No caminho de volta, o turista ganha a linda vista da
cidade iluminada pelo sol de fim de tarde. À noite o campo Santa Margherita, perto da
Universidade Ca'Foscari, ferve de jovens em bares com mesas ao ar livre.
No inverno há nevascas e a cidade frequentemente é
envolvida por uma forte neblina, que a deixa ainda mais surreal. Também ocorre a
"acqua alta", um terror para os venezianos, que vêem a água do mar subir pelos
ralos e inundar suas casas.
Como Veneza tem ruas estreitas e casas altas, no
inverno o sol penetra pouco nas ruas. Procure o calor das praças ou passeie na Fondamenta
delle Zattere, em frente ao canal da Giudecca, onde o sol bate o ano todo.
(© Folha de S. Paulo)
Mestres como Veronese fizeram trabalhos grandiosos, que se
contrapõem às obras de cavalete de Canaletto
Pintores deixaram obra "monumentalista"
DO ENVIADO ESPECIAL AO MEDITERRÂNEO
Alcunhado Canaletto, Antonio Canal (1696-1768),
possivelmente o mais notável dos pintores que registraram a paisagem de Veneza, não teve
sua obra aceita na Accademia di Belle Arte até 1763.
Estabelecida em 1750 -convém lembrar que a cidade foi
uma República, a Sereníssima, até 1797-, a academia veneziana não valorizava a pintura
que se referia à cidade fazendo uma crônica pictórica -e que também tem expoente no
pintor Francesco Guardi (1712-1793) e em mestres menores, como Michele Marieschi e
Bernardo Bellotto.
Pintores como Tintoretto (nome de pincel de Jacopo
Robusti, 1512?-1594) e Veronese (apelido de Paolo Caliari, 1528-1588) e, sobretudo,
Giambattista Tiepolo (1696-1770), sim, eram considerados grandes artistas.
A escola "monumentalista" a que se filiavam,
no entanto, teve impulso com a obra de Ticiano Vecelli, que morreu em 1576, tendo exercido
em Veneza uma espécie de regência artística.
Expressão à moda veneziana de um ideal de harmonia e de sensibilidade, Ticiano deu à
arte local um caráter epicurista, poético, sereno, profundamente humano.
Relativamente jovem quando comparada às outras escolas
de pintura italianas, a de Veneza ignorou como pôde o maneirismo e produziu pinturas
imensas para os palácios e as igrejas locais.
Veronese -que era originalmente de Verona- pintou o
forro do palácio Ducal. Já Tiepolo, seu admirador, tentou abandonar um certo
academicismo e se deixou influenciar pelo estilo rococó, pintando grandiosas alegorias
sagradas e profanas.
Canal
Mesmo admitindo que a pintura de Canaletto não alça
vôo nem chega aos céus como a de Tiepolo (autor de "Glorificação da Cruz"),
é impossível não se sensibilizar com seus quadros que retratam a cidade -e com seus
"capricci", que a reinventam.
Nascido em Veneza, próximo ao Rialto, Antonio Canal
esteve apenas em Roma e em Londres.
Em Roma, sofreu a influência dos paisagistas Gian Paolo Panini e Gaspar van Wittel. Mas
foi o financista Joseph Smith, depois embaixador britânico em Veneza, que abriu as portas
para que Canaletto alcançasse a condição de mestre e fosse, finalmente, aceito na
Accademia, cinco anos antes de morrer. (SILVIO CIOFFI)
(© Folha de S. Paulo)
COMER, BEBER, VIVER
DO ENVIADO AO MEDITERRÂNEO
Construída nas lagunas do Adriático, que ali forma um
golfo, Veneza edificou a fama de reduto de artistas e artesãos, de entreposto comercial
do Oriente no Ocidente e, também, de paraíso gastronômico.
Lá, há lugares onde a extravagância à mesa vale a
pena: o Harry's Bar, atrás da praça San Marco, onde foram inventados o drinque bellini e
o carpaccio; o terraço do hotel Bauer (www.bauervenezia.com), no campo San Moisé; e o restaurante do hotel
Luna Baglioni (www.baglionihotels.com),
na San Marco, 1.243.
Mas a cidade tem lugares populares arrebatadores, como
o Da Pinto, uma "osteria" fundada em 1890 ao lado da Pescaria (S. Polo, Rialto
Pescheria, 367), onde, por 20, é possível comer entrada (prove o bacallá mantecato),
massa (que tal o espaguete alla pescatora?), sobremesa e um copo de vinho.
Outra dica é ir atrás dos locais frequentados pelos
gondoleiros, como a Trattoria da Giggio, no campo de S. Leonardo, 1.594, onde o
peixe-espada defumado e a pasta al nero de sepia (com tinta de lula) podem ser desfrutados
com um vinho Müller Turgal, branco e frutado, do Vêneto. (SILVIO
CIOFFI)
(© Folha de S. Paulo)
R
OUBADA
- Sentar num dos célebres cafés com música ao vivo
na praça San Marco pode custar caro. Frequentados por escritores como Byron e Proust, o
Caffè Florian e o Gran Caffè Chioggia cobram 7,50 por um expresso.
GELADO
- Na praça San Marco, 10, na Piazzetta e diante do
Grande Canal, o bar Al Todaro serve sorvetes, café e digestivos a preços normais. Neste
mês, o local fecha por volta das 22h; no verão, dá para encostar no balcão até a 1h.
BURANO
- Na ilha de Burano, dos famosos (e caros) bordados,
existe um restaurante frequentado quase que só por venezianos. A Trattoria Al Gato Nero
(tel. local 041-730120) se destaca pelos frutos do mar frescos e pelo peixe assado.
Para mestre da família Seguso, profissional mais velho trabalha
melhor, pois pequenos movimentos "fazem a diferença"
Ilha de Murano produz cristal há 700 anos
DO ENVIADO ESPECIAL AO MEDITERRÂNEO
"Não fazemos pirex", diz Gianni Seguso, 55.
Seu ofício, na ilha de Murano, a 5 km de Veneza, é o de "mestre vetraio" e,
para ele, "quanto mais velho é o profissional que trabalha o vidro, melhor, pois os
pequenos movimentos é que fazem a diferença".
Ele começou a trabalhar com vidro aos 11 anos, como
aprendiz do pai, Guido, integrante da décima geração da família encarregada do
negócio (www.seguso.it). "Os
Seguso fazem cristal desde 1340, ano em que receberam dos doges o direito de explorar a
atividade", afirma, vestido com macacão de mangas e calça curta, num dos raros
momentos em que deixa a frente do forno.
Sob seu comando, 20 outros artesãos dão forma ao cristal, que derrete a 1.400C para, a
seguir, ser girado e assoprado na ponta de um tubo oco de aço.
Se não houvesse razões para acreditar no atavismo do
nome Seguso -sinônimo de cristal de Murano, como também é o nome Venini, cujas
coleções podem ser vistas no site www.vetroartisti co.it-, bastaria admirar a
complexidade das peças que saem do forno da sua fábrica para se render à delicadeza do
trabalho.
Cada bolota de vidro derretida é assoprada, o vidro é
martelado ou torcido com ferramentas de metal a uma temperatura de 1.000C enquanto esfria
-e, aos poucos, vão surgindo luminárias, castiçais e vasos multicoloridos.
Alimentado com gás metano, o forno fica ligado 24
horas por dia. O processo rejeita o uso de fôrmas -e os artesãos perseguem a leveza,
pois o verdadeiro vidro de Murano, assoprado, é leve, delicado e encanta pelas cores.
"Vidro é areia", diz Seguso, que usa areia
de Fontainebleau (França). "Já o segredo das cores está na adição de óxidos de
minerais ao vidro incandescente: óxido de ouro resulta em vidro da cor do rubi; o
azul-escuro leva óxido de cobalto; já o titânio faz o cristal cinza", diz. Sua
fábrica, a Vetreria Artigiana Seguso, não é aberta à visitação e não vende peças
para o público. (SILVIO CIOFFI)
(© Folha de S. Paulo)