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Dois sicilianos que honram as letras da Itália |
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11/11/2002
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Os romances 'Os Malavoglia', de Giovanni
Verga, e 'Conversa na Sicília', de Elio Vittorini, que acabam de ser publicados no
Brasil, são exemplos da melhor literatura italiana
ANDREA LOMBARDI
Especial para o Estado
Entre os romances Os Malavoglia, de Giovanni Verga (1840-1922), e Conversa na
Sicília, de Elio Vittorini (1908-1966), que acabam de ser publicados em edições
impecáveis no Brasil, laços de filiação se reafirmam constantes. Cabe ressaltar que a
qualidade desses livros indica uma elevação no padrão editorial brasileiro, que chegou
a uma maturidade em vários níveis, do tradutor ao capista. No caso de Os Malavoglia
(Ateliê Editorial, 364 págs., R$ 30), temos ainda a reedição de um ensaio de Antonio
Candido, leitura valiosa para o leitor comum e indispensável para o especialista; a
edição de Conversa na Sicília (Cosac & Naify, 287 págs., R$ 39), por sua vez, vem
enriquecida com a reprodução de uma série de fotos encomendadas por Vittorini a um
amigo fotógrafo na década de 50.
Verga e Vittorini são escritores da
Sicília, e a filiação da obra de um à do outro é um consenso na crítica. Em 1964,
Italo Calvino comentava este aspecto dos dois romances: "Havíamos estabelecido uma
linha, ou melhor, uma espécie de triângulo: Os Malavoglia, de Verga, Conversa na
Sicília, de Vittorini, Paesi Tuoi, de Pavese, do qual se partia, cada um da base lexical
local e da paisagem a que pertencia." Se Verga, portanto, pode ser considerado o pai
- ou o avô - do neo-realismo italiano, Vittorini deverá ser reconhecido como seu
ideólogo. Os Malavoglia é um livro indispensável para se entender a Itália e sua
literatura. Em termos de linguagem e estilo, pode-se dizer que o romance constitui uma
contraposição ao romance Os Noivos, de Alessandro Manzoni, como já apontou o lingüista
Giacomo Devoto. O romance de Manzoni é um antecipador do compromisso entre visão social
paternalista e ideologia cristã, estando todo voltado para enaltecer figuras da
conversão, as quais por sua vez simbolizam a conversão do próprio autor ao cristianismo
integralista. No espírito de uma nova arte, a fotografia, arte da qual Verga se tornou
adepto atuante, é decisivo, na narrativa de Os Malavoglia, o recuo (aparente, mas
sensível) de um narrador-autor que deixa de intervir na ação, como explicita o autor no
seu prefácio, um curto texto com referências positivistas: "Este relato é o estudo
desapaixonado e sincero..."
As palavras e as coisas em Verga ainda se
encontram numa relação harmônica e tudo nesse romance é fruto de observação
cuidadosa do cotidiano de uma família de pescadores simples de Acitrezza, na Sicília do
fim do século 19.
Desafiando hábitos centenários, expressos
pela língua de forma proverbial, procuram fugir da miséria deixando a pesca em favor de
uma atividade comercial que vai a pique, literalmente, pois a mercadoria comprada naufraga
com a chalupa da família. Ao desejar abandonar a pesca em favor do comércio, a família
rompe com leis tão ancestrais quanto as da natureza: o mar engole a chalupa da família,
matando o pai, a figura forte, e levando à decadência todo o grupo. O fatalismo do
kayrós grego determina o desfecho trágico. Essa pressão do destino é ressaltada
também por Antonio Candido, que aponta para o intrigante paralelismo entre macrocosmo
(mundo econômico/ideológico) dos pescadores de Acitrezza e microcosmo da vida cotidiana
que se cristaliza na sabedoria de provérbios. Provérbios não só condensam o bom senso
da tradição cultural, mas aquilo que é socialmente interdito. Candido demonstra que aos
mortais pescadores não é permitido questionar a verdade cósmica (social, cultural) dos
provérbios e a mudança social almejada levará à desgraça.
"Il mare è amaro e il marinaio muore in
mare" ("O mar é cruel e o marujo morre no mar"). Paronomásias
(mare/amaro/muore), repetições, aliterações - tudo concorre para fazer desse
provérbio inaugural um emblema. Ele é repetido duas vezes e a ele se alude em dezenas de
passagens em que o mar protagoniza a ação. Se na Odisséia o mar evoca a viagem e abriga
forças que se contrapõem ao herói Ulisses (como o deus Netuno), ou o auxiliam (como a
deusa Atena), em Os Malavoglia, o mar é só o inimigo: insondável, monstro cego,
desgraça da natureza. O mar rejeita o humano. Um mar, portanto, nada acolhedor, abrigo de
obscuros desejos de morte. No desenrolar da narrativa, o mar mata Bastianazzo (o pai) e
Luca (o mais jovem) e traga a riqueza da família. O provérbio inicial é revelador e
encantatório. Algo da língua aflora em Verga, produz um excesso de sentido e faz dele
paradoxalmente um expressionista em potencial. Nesse aspecto, a contraposição a Manzoni,
preocupado com a normalização da língua italiana, é mais radical. A relação entre
palavras e coisas no romance de Verga é a de uma fotografia que acusa uma cisão. Para
expressar tal aspecto contraditório, Verga nomeia seres e elementos da natureza em
dialeto ou em italiano popular, o que caracteriza uma opção política. São poucos os
países cuja história da língua esteja tão entrelaçada com a história política.
(© O Estado de S. Paulo)
| Incesto, dor e miséria na árida Sicília |
| Conversa na Sicília,
de Elio Vittorini, fotos de Luigi Crocenzi. Tradução de Valêncio Xavier e Maria Helena
Arrigucci. Editora Cosac & Naify, 288 páginas. R$ 39 Elias
Fajardo
A vida despojada dos camponeses do sul da Itália, o mundo ultrajado da
exclusão social. E as paixões, o sexo, o incesto. O desejo, em toda a parte, é irmão
da morte e da solidão. A miséria e o sofrimento enquanto instrumentos de purificação
do homem que se torna menino através da dor. Desta mistura explosiva é feito o livro
Conversa na Sicília, a peregrinação de um siciliano que volta à terra
natal depois de 15 anos de ausência, uma conversa que ele entretém com os outros e
consigo mesmo num cenário árido de beleza inflamada.
A obra, escrita em 1937, inaugura com vigor o neo-realismo que denuncia e
reflete sobre as mazelas sociais, além de ser um romance experimental e introspectivo. Os
diálogos, cortantes como faca, são entremeados de descrições poéticas curtas,
rápidas, criando uma atmosfera que tem a ver com a estética dos filmes de Roberto
Rossellini, Vittorio De Sica e Luchino Visconti.
Livre da objetividade da narrativa, Vittorini namora a poesia e o surrealismo
O crítico Guido Guglielmi considera o livro um romance ideológico e, ao
mesmo tempo, interessado em iluminar o significado da fábula. Fabulando, o autor se
libera da objetividade da narrativa e trata o cotidiano através de uma lógica poética
que namora o surrealismo já existente na época e antecipa uma tendência que viria a
surgir depois: o realismo fantástico.
Se quisermos encontrar um parente brasileiro para Vittorini,
podemos pensar no Raduan Nassar, de Lavoura arcaica, escrito em 1975. Em ambas
as obras estão presentes personagens arquetípicos, míticos, que resumem em suas
contradições toda a condição humana. O elemento trágico surge do choque entre os
anseios de homens e mulheres e as imposições da sociedade e do destino. Os filhos de
Lavoura arcaica se rebelam em vão contra a autoridade do pai e os camponeses
de Conversa na Catedral se conformam ou gritam contra a miséria e a doença,
igualmente em vão. Mas enquanto em Lavoura arcaica o incesto revelado termina
em banho de sangue, à moda da tragédia mediterrânea, em Conversa na Sicília,
incesto, doença e morte se diluem no caminhar do viajante, tocando-o e transformando-o. E
assim o personagem principal reencontra, junto com as recordações, a liberdade de
reinventar o mundo.
Romancista, ensaísta, tradutor de romances norte-americanos para o italiano,
militante político antifascista, Elio Vittorini (1908-1966) é considerado um dos
intelectuais mais provocantes de sua época. Segundo Ítalo Calvino, uma de suas
principais contribuições foi inserir a discussão de temas contemporâneos no
contexto amplo do mito. Isto fica claro em trechos como este, em que descreve o
gênero humano ultrajado a derramar seu suor no vinho e uma geração bebia na
outra, na nudez do esquálido vinho das gerações passadas, e de todo o sofrimento
derramado.
A mãe pássaro, abelha, velha-vaca é o personagem mais fascinante do
livro
Talvez o personagem mais fascinante do romance seja a mãe. Mãe
pássaro, mãe-abelha, (...) velha-vaca, sábia, dúbia e surpreendente na sua
crueza, enrolada num cobertor vermelho e usando os sapatos do marido que a abandonara.
Após a separação, a mãe sobrevive dando injeções e leva o filho em peregrinação
por casas escuras, desnudando, para que ele aprecie, a carne de mulheres de várias
gerações, deitadas na cama à espera da injeção.
Na cena em que a mãe entra e sai das casas sombrias dos doentes está uma
das chaves para mergulhar no texto que se alterna entre o claro e o escuro tanto da
natureza como da alma humana: Viajamos pela pequena Sicília amontoada de
nespereiras e telhados e rumores de torrente lá fora; de espíritos, lá dentro, no frio
e na escuridão; e minha mãe era como uma estranha criatura que parecia estar viva comigo
na luz e com aqueles outros nas trevas, sem nunca se extraviar como eu que me perdia um
pouco cada vez que entrava e saía.
Em 1950, Elio Vittorini, em viagem pela Sicília com o fotógrafo Luigi
Crocenzi, trabalhou numa versão ilustrada do romance, publicada em 1953. Esta parceria
rendeu ao livro uma nova dimensão. As 169 fotos de Crocenzi (entremeadas por 12 imagens
extraídas de cartões-postais) são densas, dramáticas, neo-realistas. Vittorini
escolheu as imagens enfatizando suas articulações com o texto, para que funcionassem
como expressões visuais dos momentos poéticos. E uma curiosa relação se desenvolveu
entre as fotos e a escrita. Em alguns momentos as imagens são óbvias, ilustrativas,
mostram o que as palavras dizem. Em outros momentos, tal como o livro que tem um pé na
realidade e outro na mais desvairada fantasia, as fotos voam, viajam, criam universos
insuspeitados, inclusive porque foram diagramadas de modo inusitado, algumas sangradas,
invadindo as bordas do papel, e outras sutis, como pequenas vinhetas a sublinhar a
narrativa.
Não é um livro fácil e alguns leitores hão de se aborrecer diante dos
diálogos alongados e de personagens que respondem: Ehh, Ahh a
seja lá o que for que lhe perguntem. Mas trata-se de uma obra fascinante, um mergulho no
inconsciente pessoal e coletivo que, décadas depois de escrita, ainda tem muito a nos
dizer.
ELIAS FAJARDO é jornalista
(© O Globo On Line)
Trecho de Conversa na
Sicília
RINDO, ENFIEI NO BOLSO OS DEZ CENTAVOS
... "e ele baixou os olhos do céu para a terra: satisfeito, distribuiu as três
moedas restantes nas três divisões da gaveta. Dois do pão, dois do vinho, e dois
do bigode, disse. E agitou as mãos livres, agarrou sua engenhoca pelas barras e
dirigiu-se para a rua ascendente, na luz do sol que agora acabava de declinar. Não
hesitei em segui-lo. Vai subir?, eu disse. Vou com você. (...)
estava triste e não falava. Caminhava olhando para o nada, virando a cabeça da direita
para a esquerda e da esquerda para a direita, debaixo do velho chapéu de espantar
passarinho. E no fundo era todo um espantalho, com sua cara negra, seus olhos
cintilantes...
Trecho de Conversa na Sicília, de Elio Vittorini
(© O Globo On Line) |
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